Na última década, milhares de empreendedores pelo País investiram em miniusinas solares para vender créditos na conta de luz a empresas e consumidores, aproveitando os generosos incentivos regulatórios à chamada “geração distribuída” (GD). 

Depois da festa, chegou a hora da ressaca.

Anos de juros altos, cortes nos subsídios e competição feroz pelos clientes criaram uma tempestade perfeita no setor, deixando muitas empresas com dificuldade para tocar seus negócios.

Nesse mar agitado, a Suno Asset está tentando ser uma consolidadora do mercado por meio de seu fundo imobiliário SNEL11, que tem 100 mil cotistas – a maioria, pequenos investidores. 

Pequenos e médios empresários da GD estão recebendo uma proposta bem direta da Suno no Instagram: “Compramos sua usina solar”. 

O SNEL11 foi lançado ainda em 2022 para levantar recursos de investidores e construir miniusinas solares alugadas a terceiros. Mais recentemente, mudou seu foco para aquisições.

Após quatro captações e alguns M&As, o SNEL11 já opera cerca de 40 pequenos parques solares em 11 Estados, e soma um patrimônio líquido próximo de R$ 900 milhões.

O plano agora é triplicar de tamanho em uma nova rodada que acaba de ser anunciada. A SNEL11 quer captar R$ 1,8 bilhão e usar os recursos – e suas cotas – para mais aquisições, aproveitando o cenário de terra arrasada que tomou boa parte do setor.

Funciona assim: o SNEL11 compra os projetos à vista,  e em troca os vendedores se comprometem a usar parte do valor recebido para comprar cotas do fundo, tornando-se seus investidores.

“Muita gente achava que era só montar sua mini-usina e ir para a praia. Mas o negócio é bem complexo, não é tão fácil fazer a comercialização dessa energia. E o mercado mudou,” Vitor Duarte, o CIO da Suno Asset, disse ao Brazil Journal.

“Quem está vendendo para o fundo no fim reduz o risco. Ao invés de ter sua usina e ter que gerenciar tudo, passa a ter a cota de um veículo que tem dezenas de ativos e é listado na bolsa, com liquidez.” 

No momento, a equipe da gestora já tem um pipeline de projetos para potenciais aquisições de mais de R$ 500 milhões.

A publicidade no Instagram foi inspirada em um anúncio publicado por Warren Buffet no The Wall Street Journal em 1986 – “compro sua empresa”. 

Segundo Duarte, “tem cada vez mais gente querendo vender porque desistiu de esperar o mercado melhorar. 

Com esse modelo de aquisição por cotas, se o mercado se recuperar o vendedor continua exposto à tese de GD solar.”

Um concorrente de peso para a tese do fundo podem ser as distribuidoras – algumas que já têm empresas de GD dentro de casa podem exercer seu poder de mercado e pressionar ainda mais os pequenos e médios produtores por meio de descontos, ao mesmo tempo em que fazem M&As nesse mercado. “As próprias distribuidoras podem acabar sendo as consolidadoras deste mercado de GD,” disse um executivo do setor.

A Cemig SIM, subsidiária de GD da Cemig, por exemplo, tem crescido com diversos M&As, e acaba de anunciar um desconto de até 26% na conta de luz para seus clientes, bem acima da média de mercado.

O SNEL11 paga dividendos mensais, com um dividend yield anualizado de 14,97%, segundo sua última carta de gestão.

O mercado de GD solar cresceu num ritmo intenso no Brasil graças ao aumento dos incentivos ao setor, a partir de 2015.

Mas depois de uma lei de 2022 – que prevê a gradual redução dos subsídios – e com a intensa competição por clientes, o setor começou a desacelerar. 

Os empresários do ramo hoje lidam com um alto nível de vacância em suas miniusinas, uma guerra de descontos na conta de luz, e desafios inerentes ao varejo, como a dificuldade de captar e manter clientes.

Alguns grupos estão deixando o mercado, e já até casos de empresas rompendo contratos de arrendamento, abrindo espaço para uma consolidação por players mais capitalizados, de acordo com fontes do setor.

Evidenciando a desaceleração da GD solar, as instalações de novos sistemas somam 2,3 gigawatts desde o início do ano, contra 9,3 GW nos doze meses de 2025. Em 2024, foram mais de 10 GW.