Durante muito tempo, falar de vinho brasileiro era quase inevitavelmente falar da Serra Gaúcha. Foi ali que a vitivinicultura nacional construiu sua identidade, desenvolveu tecnologia, formou gerações de produtores e consolidou uma indústria que hoje colhe reconhecimento dentro e fora do País.
Mas o mapa do vinho brasileiro está mudando.
A cerca de 500 quilômetros dali, perto da fronteira com o Uruguai, está a Campanha Gaúcha, que já reúne produtores de qualidade e vem conquistando reconhecimento.
Agora, a região quer dar um novo passo: consolidar-se não apenas como uma região produtora, mas como um território de vinho, capaz de reunir vitivinicultura, enoturismo e uma identidade própria.
É neste contexto que nasce o Grand Terroir 31, um investimento de R$ 380 milhões que reúne em uma propriedade de 370 hectares vinhedos, olivais, hotelaria, gastronomia, bem-estar, residências e experiências ligadas ao vinho, seguindo um modelo já aplicado em outras importantes regiões vitivinícolas do mundo.
O dono do projeto, o empresário Luiz Eduardo Batalha, recrutou uma das maiores referências internacionais da enologia, o francês Pascal Marty, para liderar a concepção técnica do projeto.

Marty trabalhou 14 anos no Château Mouton Rothschild, acompanhou a implantação do Opus One, na Califórnia, e foi o primeiro enólogo do Almaviva, no Chile, um dos vinhos responsáveis por reposicionar a imagem da vitivinicultura chilena no cenário internacional.
Seu currículo impressiona. Mais importante, porém, é sua experiência em construir projetos desde o início, transformando terroirs promissores em referências mundiais.
Marty ajudou diferentes regiões a descobrir sua própria identidade. Seu papel nunca foi reproduzir Bordeaux em outro continente, mas compreender o que cada território tinha de singular e transformar essa personalidade em vinho.
Segundo o enólogo, sua decisão de aceitar o convite foi motivada por dois fatores: a oportunidade de participar da construção de um projeto praticamente do zero, com liberdade para definir desde os porta-enxertos até o desenho da futura vinícola, e encontrar um empreendedor disposto a pensar em um horizonte pouco comum no mundo dos negócios.
“O Dr. Batalha tem 80 anos e decidiu iniciar agora um projeto vitivinícola. O vinho é, por definição, um investimento de longo prazo. Quando vejo uma pessoa de 80 anos iniciar um projeto pensado para as próximas décadas, enxergo alguém que tem visão. Alguém que sabe exatamente onde quer chegar. Isso, para mim, é extremamente importante.”
O nome do empreendimento nasce de uma ideia sedutora: a de que a Campanha Gaúcha integra o chamado Paralelo 31, uma faixa do Hemisfério Sul associada a importantes regiões produtoras de vinho e azeite.
A imagem funciona porque cria uma conexão imediata entre o Pampa brasileiro e alguns dos grandes nomes da vitivinicultura mundial. Mas a latitude é apenas o começo da conversa.
A coordenada geográfica ajuda, mas a personalidade de seus vinhos depende de fatores muito mais complexos, como o encontro entre solo, clima, relevo, drenagem, insolação, ventos, manejo e, sobretudo, tempo.
Quando Marty desembarcou na Campanha Gaúcha, ele não procurava uma réplica de Bordeaux, Napa ou do Vale do Maipo. Depois de mais de 40 anos trabalhando, ele sabe que grandes regiões não se copiam: constroem sua própria identidade.
Antes mesmo de conhecer o Grand Terroir 31, Marty já havia visitado o sul do Brasil durante um trabalho de consultoria para a Peterlongo. Na ocasião, começou a provar vinhos elaborados com uvas da Campanha Gaúcha e de Encruzilhada do Sul. O que encontrou foi suficiente para despertar sua curiosidade.
“O que me chamou a atenção foi o estilo desses vinhos. Encontrei uma elegância que me lembrou imediatamente Bordeaux de quase 40 anos atrás, quando comecei minha carreira.”
Vindo de alguém que participou da elaboração do Mouton Rothschild, a comparação chama atenção. Mas Marty faz questão de esclarecer que ela não deve ser interpretada como uma tentativa de transformar a Campanha em uma nova Bordeaux.

A comparação, explica, está nas condições naturais que encontrou. “Naquela época, Bordeaux tinha verões quentes, invernos frios e chuvosos e estações muito bem definidas. Era um clima bastante semelhante ao que encontro hoje na Campanha Gaúcha.”
É uma observação que ajuda a entender por que tantos especialistas passaram a olhar para a região com outros olhos nos últimos anos. A Campanha não reproduz a França, mas preserva características climáticas que, segundo Marty, desapareceram de uma das mais tradicionais regiões produtoras do mundo em consequência das mudanças climáticas.
A primeira fase do projeto prevê 49 parcelas independentes, com aproximadamente um hectare cada. Cada uma delas será tratada como uma unidade própria, respeitando diferenças de solo, relevo, drenagem e exposição solar.
Merlot, Cabernet Franc, Touriga Nacional e Syrah já fazem parte do planejamento. Outras variedades, como Malbec, Chardonnay, Sauvignon Gris e até a georgiana Saperavi, estão sendo estudadas. Mas nenhuma decisão será tomada antes que o próprio terroir revele sua vocação.
Produzir um grande vinho é apenas parte da equação. É preciso também construir reputação.
Na avaliação do enólogo, esse talvez seja hoje o principal desafio da vitivinicultura brasileira. O País evoluiu de forma consistente em qualidade, mas ainda participa pouco da conversa global sobre vinho.
Mais do que produzir grandes vinhos, o empreendimento nasce com a ambição de criar uma experiência completa, capaz de posicionar a Campanha Gaúcha no mapa internacional do enoturismo e da vitivinicultura de alta gama.
Mas Marty faz questão de lembrar que esse processo está apenas começando.
“Ainda estamos engatinhando, mas estamos começando pelo lugar certo. Estamos construindo a base. Estamos começando pelas uvas, pelos vinhedos, para que, no futuro, possamos produzir vinhos verdadeiramente de alta gama.”
Luiz Gastão Bolonhez é especialista em vinhos e curador dos leilões da Blombô.











