Ficaram no passado os anos em que a China conseguia sustentar um crescimento de 10% ao ano. O PIB do país avançou 4,3% no segundo trimestre, bem abaixo da meta oficial de 5%.

Para o mundo, isso representa uma séria ameaça, afirma Logan Wright, sócio e analista para a China da consultoria nova-iorquina Rhodium Group.

Em um artigo na Foreign Affairs, uma das publicações mais influentes do mundo em relações internacionais e geopolítica, Wright detalha como os motores de crescimento chinês estão “fundamentalmente quebrados” – com o país passando por um momento de fraqueza que poderá ser estrategicamente explorado pelos EUA. 

“A China não enfrenta uma crise econômica ou um colapso, mas uma deterioração gradual de sua capacidade de influenciar a economia,” escreve Wright. “Após anos de investimentos improdutivos e do acúmulo de trilhões de dólares em dívidas de difícil recuperação, o país não tem como gerar demanda interna sustentada por parte das famílias ou das empresas, dependendo inteiramente das exportações para o seu crescimento.”

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Aí reside a ameaça para as demais economias mundiais.

No ano passado, a China obteve o maior superávit comercial de sua história, de US$ 1,2 trilhão, graças a exportações que somaram US$ 3,8 trilhões – uma alta de 5,5% sobre o ano anterior.

Enquanto muitos analistas interpretaram esses números como um sinal de que os chineses estão saindo vitoriosos das guerras de Donald Trump – no comércio e no Oriente Médio –, Wright considera esse resultado uma expressão da debilidade interna chinesa, e um risco crescente para outros países.

Mesmo utilizando os dados oficiais – “que subestimam a desaceleração” –, a participação da China na economia global atingiu seu pico em 2021, com 18,5% do PIB mundial, diz o analista. “Os números mais recentes de Pequim sugerem que o país representaria 16,7% da economia global, embora a proporção real provavelmente esteja mais próxima de 15%.”

Enquanto isso, a fatia dos EUA representa cerca de 26% do PIB mundial, um aumento em relação aos 24% registrados em 2021.

“Não só não há praticamente nenhuma chance de a China ultrapassar os EUA como a maior economia do mundo, como também é provável que a vantagem econômica americana se amplie ainda mais na próxima década,” escreve Wright.

A resposta da China tem sido intensificar sua diplomacia para conquistar novos mercados, depois das barreiras erguidas por Trump.

Segundo Wright, a ameaça é que os chineses garantiram o controle de pontos críticos (chokepoints) em algumas cadeias de suprimentos e de insumos intermediários.

Por exemplo, Beijing “transformou seu controle sobre as terras raras em uma arma, com efeitos alarmantes para o mundo industrializado.”

“Seu declínio econômico interno agrava essa ameaça: à medida que as dificuldades econômicas pressionam ainda mais para baixo os preços de exportação e forçam as empresas a expandir seus mercados no exterior em busca de lucros, a China corroerá bases industriais em outras regiões, inclusive nos EUA e entre seus aliados,” diz Wright.

Portanto, se os países perderem as bases industriais necessárias para proteger seus próprios interesses econômicos e de segurança, Beijing terá ainda mais oportunidades de instrumentalizar vulnerabilidades nas cadeias de suprimentos. “O mundo verá episódios como as restrições a terras raras se estenderem a outros componentes industriais e até mesmo a bens de consumo.”

Do ponto de vista dos EUA e de seus aliados, Wright vê aí uma oportunidade.

“Existe uma resposta clara e politicamente popular para as pressões de desinvestimento vindas de Beijing: novos investimentos em economias desenvolvidas,” afirma ele.

“Se o Ocidente conseguir restaurar sua própria resiliência industrial por meio de defesas comerciais setoriais coerentes e investimentos agressivos em suas próprias indústrias, a China se verá encurralada,” escreve o analista. “Dada a demanda interna chinesa anêmica, as barreiras externas crescentes impostas pelo Ocidente rapidamente erodirão a posição estratégica do país.”

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Para Wright, apesar do sucesso das políticas chinesas na área industrial e tecnológica, a realidade interna é de um acúmulo de fragilidades.

Entre 2008 e 2017, os bancos chineses expandiram o crédito em um montante equivalente a um terço do PIB global – ou cerca de US$ 27 trilhões.

“Após a inevitável contração ocorrida quando muitos desses empréstimos venceram e não puderam ser renovados, a China hoje simplesmente não dispõe da mesma capacidade de influenciar os resultados econômicos por meio de planos de longo prazo que tinha na década passada,” diz o analista.

A desaceleração decorre do colapso no mercado imobiliário e o estouro da bolha de crédito. “À medida que a expansão do crédito foi reduzida à metade a partir de 2018, começaram a surgir casos de inadimplência,” afirma.

Com receitas tributárias em queda, o buraco fiscal vem se alargando. O déficit está em 9% do PIB (cerca de US$ 2 trilhões ao ano).

“Para manter o crescimento, as autoridades têm apenas uma opção: apoiar-se nos mercados externos,” diz Wright.

Sem demanda interna, a China precisa exportar seu excesso de capacidade. O analista não cita exemplos específicos, mas hoje a guerra de preços das montadoras chinesas vai se alastrando em praticamente todo o mundo, com exceção dos EUA, blindados pelas barreiras contra os carros made in China.

“Diante do colapso da demanda interna da China, as tensões comerciais são inevitáveis,” afirma.

O analista menciona os atritos causados por novas regras da Europa contra a aquisição de empresas por estrangeiros e incentivos para as compras de fornecedores locais.  

Quanto mais tempo os países permitirem que a China instrumentalize o sistema de comércio global, mais difícil será mobilizar o conhecimento técnico e constituir os pólos industriais necessários para oferecer alternativas sustentáveis ​​aos fornecedores chineses, diz Wright. “A Alemanha está constatando isso a um custo elevado, com o seu setor manufatureiro perdendo cerca de 10.000 empregos por mês.”

O ponto de fragilidade chinesa é que, por ser dependente da demanda global, não poderá sustentar perpetuamente conflitos comerciais com seus clientes.

“As ameaças vindas da China são agora restritas e passíveis de dissuasão,” comenta Wright. “A decisão da China de manter seu modelo econômico em declínio, em vez de mudar de rumo, encurta ainda mais seus horizontes temporais.”

Para o analista, os EUA têm uma oportunidade real de enfrentar a ameaça de curto prazo da desindustrialização e, ao fazer isso, o país conseguirá “mitigar a intensidade da competição estratégica na próxima década.”