Durante boa parte do século XX, parecia existir um consenso: democracia liberal, economia de mercado e Estado de Direito haviam produzido o maior ciclo de prosperidade da história. Depois da queda da União Soviética, muitos passaram a acreditar que liberdade política e desenvolvimento econômico caminhavam inevitavelmente juntos.
A experiência asiática foi diferente. Não porque tenha seguido um único modelo, mas porque diferentes países construíram instituições capazes de executar estratégias de longo prazo.
China, Singapura, Vietnã e Coreia do Sul construíram instituições profundamente distintas entre si. A China permaneceu sob um regime de partido único. Singapura privilegiou estabilidade política e uma burocracia altamente profissionalizada.
O Vietnã continuou sendo governado por um partido que se declara socialista, ao mesmo tempo em que abriu sua economia e se integrou às cadeias globais de manufatura e exportação.
A Coreia do Sul consolidou sua industrialização apoiada em uma estreita coordenação entre o Estado e os grandes chaebols, conglomerados privados como Samsung, Hyundai, LG e SK.
O curioso é que nenhuma dessas experiências se parece muito com as demais. Algumas são democracias, outras não.
O que elas compartilham não é um mesmo regime político, mas algo mais importante: Estados capazes de formular uma estratégia nacional, executá-la ao longo do tempo e corrigir sua trajetória quando necessário.
A verdadeira disputa institucional deste século talvez não seja apenas entre democracia e autoritarismo. Também é entre Estados capazes e Estados incapazes.
Liberdade continua indispensável, mas nenhum país prosperou apenas por ser livre. Prosperou porque transformou liberdade em capacidade de executar.
Em vez de aperfeiçoar um modelo institucional coerente, o Brasil passou décadas importando instituições de diferentes partes do mundo.
Construímos um Estado com gasto social europeu, carga tributária nórdica, presidencialismo americano, um sistema de veto que lembra o italiano, burocracia cartorial portuguesa e uma obsessão pelo controle que remete à tradição burocrática da China imperial.
Cada uma dessas peças faz sentido em seu contexto de origem. Mas juntas, não resultaram em síntese, e sim num Frankenstein institucional. Como no romance de Mary Shelley, cada parte funcionava isoladamente, mas a criatura jamais desenvolveu uma lógica própria nem capacidade de entregar resultados de forma consistente.
O defeito central dessa arquitetura está nos incentivos.
No Brasil, o custo institucional de decidir tornou-se maior do que o de não decidir. Autorizar uma obra, conceder uma licença ou aprovar um investimento expõe gestores ao escrutínio simultâneo de tribunais de contas, órgãos de controle, Ministério Público e Judiciário.
Impedir, suspender ou adiar uma decisão, por outro lado, raramente produz responsabilização equivalente. Criamos um sistema em que o erro da ação é punido, enquanto a omissão se tornou institucionalmente mais segura do que a decisão.
O sistema foi desenhado para evitar erros, não para produzir acertos. Aos poucos, a cultura do veto substituiu a cultura da execução.
Os números deixam ainda mais claro que o problema brasileiro não é falta de recursos, mas incapacidade de convertê-los em resultados.
Em 2024, nossa carga tributária alcançou 33,7% do PIB, praticamente um terço superior aos cerca de 25% arrecadados pela Coreia do Sul.
Mesmo assim, desde a década de 1980 a economia brasileira cresce, em média, pouco mais de 2% ao ano, enquanto os sul-coreanos avançaram a um ritmo mais que duas vezes superior.
O contraste com o Vietnã é ainda mais desconcertante. Há pouco mais de três décadas, tratava-se de um dos países mais pobres do mundo; hoje cresce perto de 6% ao ano, aproximadamente três vezes o ritmo brasileiro.
A diferença também aparece na capacidade de construir o futuro. A Coreia investe cerca de 5% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, contra pouco mais de 1% no Brasil.
A China construiu dezenas de milhares de quilômetros de ferrovias de alta velocidade; nós não conseguimos colocar sequer uma única linha deste tipo em operação.
O retrato mais eloquente desse modelo talvez sejam as obras públicas. Segundo o Tribunal de Contas da União, 11.944 obras federais, equivalentes a 52% das monitoradas, estavam paralisadas em 2024.
Já haviam consumido R$ 9 bilhões e ainda exigiriam outros R$ 29,4 bilhões para serem concluídas. Em outras palavras, uma obra pública monitorada no Brasil possui praticamente a mesma probabilidade de estar parada quanto de estar em execução.
O problema não é apenas falta de recursos. Boa parte dessas obras já recebeu autorização, orçamento e execução parcial. O gargalo está na capacidade de concluí-las. Enquanto os asiáticos disputam quem inaugura primeiro, o Brasil acumula projetos inacabados.
A mesma lógica se repete na economia.
Desde a Constituição de 1988, o Brasil editou mais de 7,8 milhões de normas. Apenas na área tributária foram mais de 517 mil, uma média superior a 37 novas regras por dia.
Para acompanhar essa complexidade, nossas empresas gastam aproximadamente R$ 181 bilhões por ano – só para compreender e cumprir a legislação tributária.
O custo mais grave, porém, não é financeiro. É o desperdício de capital humano.
Enquanto as economias asiáticas direcionam seus melhores engenheiros, cientistas, empreendedores e administradores para inovação e aumento de produtividade, o Brasil desloca parte crescente de seus talentos para interpretar normas, administrar litígios e navegar a burocracia estatal.
Engenheiros deixam de construir para produzir estudos regulatórios. Empreendedores deixam de inovar para cumprir obrigações acessórias. Executivos dedicam parte relevante de seu tempo a administrar exigências do Estado. Advogados deixam de estruturar novos negócios para interpretar regras que mudam continuamente.
Em grande parte do mundo, as empresas competem para produzir melhor. No Brasil, muitas competem para compreender melhor o Estado. A burocracia deixou de ser apenas um custo da atividade econômica e tornou-se uma de suas principais indústrias.
Este é o verdadeiro Frankenstein brasileiro. A China entregou infraestrutura. Singapura construiu uma burocracia altamente eficiente. A Coreia do Sul executou uma estratégia nacional de desenvolvimento e construiu algumas das empresas mais inovadoras do planeta. O Vietnã tornou-se uma das principais plataformas industriais da Ásia.
O Brasil concentrou vetos. Distribuímos o poder por tantas instituições que praticamente ninguém responde pelo resultado final. Todos possuem instrumentos para impedir. Poucos possuem instrumentos para realizar.
A conclusão, portanto, vai além de defender modelos políticos específicos. Democracias continuam sendo o melhor instrumento para proteger direitos, limitar abusos e garantir alternância de poder. Mas a verdadeira lição asiática é outra: liberdade política e capacidade de execução não são incompatíveis. Democracias bem-sucedidas conseguem preservar ambas. O Brasil, ainda não.
Pedro Thompson é CEO e fundador da Tuesday Capital.











