A política externa nunca decidiu, ou sequer influenciou de maneira muito crítica, a escolha por um Presidente da República no Brasil. Tem sido assim por muitos ciclos eleitorais.
Nossas eleições sempre foram afetadas pelos ciclos econômicos, escândalos de corrupção, emprego, inflação, segurança pública. A diplomacia ficava para o Itamaraty, bem longe do eleitor.
Sempre que um presidente tentou transformar protagonismo internacional em capital político, colheu pouco. Lula patrocinou com a Turquia, em 2010, a Declaração de Teerã sobre o programa nuclear do Irã. As potências atropelaram o acordo. Ninguém votou diferente por causa disso.
O Barão do Rio Branco, talvez o único chanceler popular que o País já teve, ficou famoso consolidando a fronteira, não pedindo voto. Jânio Quadros fez o caminho inverso e pagou caro: condecorou Che Guevara em 1961 e transformou um gesto de política externa numa crise doméstica que ajudou a derrubá-lo. O sistema político aprendeu que política externa paga pouco e cobra muito.

Lá fora sempre foi diferente.
Nos Estados Unidos, bater na China é dos poucos consensos que sobraram entre democratas e republicanos. Guerras e tensões diplomáticas criaram e derrubaram presidentes americanos. Milei fez do realinhamento internacional bandeira de campanha antes de ser programa de governo.
O Brasil era exceção por um motivo simples: quem vende commodity para o mundo inteiro precisa parecer neutro. Soja, minério, proteína e petróleo vão para aliado e para adversário.
O pragmatismo dos anos 1970 ilustra bem. O governo Geisel, anticomunista em casa, reconheceu a China de Mao em 1974 e o governo marxista de Angola em 1975, contra a preferência americana, porque tinha mercado e petróleo em jogo. Essa linha sobreviveu à redemocratização e a governos de diferentes ideologias.
Neste ciclo eleitoral está diferente.
Pela primeira vez em muito tempo, os dois campos chegam à eleição com um arsenal completo de política externa. O lulismo bate nas tarifas e na atuação da família Bolsonaro em Washington, que apresenta como lobby contra o próprio País, além de afirmar que o governo Bolsonaro foi diplomaticamente irrelevante.
O bolsonarismo diz que o governo não soube negociar as tarifas, que o PT resiste a tratar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas e passou anos fazendo afagos na Venezuela e no Irã. O debate externo tem oferecido grandes oportunidades de sinalizar virtude doméstica para a base.
No fundo, a acusação é a mesma; muda apenas a parte interessada: ou você se vendeu aos chineses, ou se vendeu aos americanos. A recém nascida discussão sobre minerais críticos e terras raras, um tema estratégico e de altíssima relevância para o Brasil, vai invariavelmente seguir o mesmo caminho.
Parte da explicação é que assunto doméstico virou assunto externo. O PCC do debate de segurança pública é o mesmo que manda cocaína do porto de Santos para a Europa e que Washington discute classificar como organização terrorista, com consequência para bancos e empresas brasileiras.
A tarifa que parecia tema de chancelaria aparece no preço do supermercado e no emprego de cidade exportadora. O eleitor não virou internacionalista; seu bolso, sim.
Existe também um ingrediente novo. A internet eliminou o antigo filtro entre política internacional e opinião pública. Antes, guerras, crises e líderes estrangeiros chegavam ao eleitor pela imprensa e pela diplomacia. Hoje chegam pelo algoritmo, que transformou o mundo em um cardápio infinito de medos e esperanças.
O eleitor de direita no Brasil morre de medo de virar uma Venezuela, a ditadura de esquerda que ele acompanhou por décadas em tempo real.
O eleitor de esquerda morre de medo de acordar num país governado por um Trump ou um Orbán. Antes, esse tipo de comparação era exercício de analista; hoje é instinto de eleitor. Cada campo enxerga no adversário a antessala de um pesadelo estrangeiro e vota contra o pesadelo tanto quanto vota num candidato.
Para um exportador global de commodities, diplomacia bem feita é sóbria e comercial, quase chata. Ela não deveria render voto nenhum, porque o que rende voto é o contrário dela: o inimigo externo da vez. Meu receio é que o País vai atravessar a eleição mais internacionalizada da sua história e pode sair dela com muita gritaria e nenhuma estratégia.

Só que também não dá para fingir que o tabuleiro é o de antes. A velha neutralidade – falar com Beijing e Washington com a mesma desenvoltura – hoje é lida como posição. Nesse mundo, não ter lado virou um lado.
Um dos principais testes serão os minerais críticos. O Brasil tem reservas relevantes, energia renovável barata, água limpa e espaço físico – o pacote básico da economia da inteligência artificial e da computação quântica.
Tratar isso como receita e emprego é o mínimo, e a campanha já capturou o tema desse jeito, com cada candidato acusando o outro de entreguismo.
O que quase ninguém discute é como usar esses ativos como alavanca de negociação internacional. As grandes potências transformam ativos estratégicos em poder de barganha há décadas. Todo mundo usa commodities estratégicas para negociar o que elas, sozinhas, não compram. Todo mundo faz isso com o Brasil. O Brasil nunca faz isso com ninguém.
A campanha vai tratar política externa como munição, isso já está dado. O que não está dado é se quem vencer vai conseguir tratá-la como estratégia. A julgar pelo tom do debate até aqui, não estou otimista.
Lucas de Aragão é mestre em ciência política e sócio da Arko Advice.











