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Jim Collins e um time de pesquisadores passaram os últimos 12 anos estudando mais de 500 pessoas que tiveram uma vida “bem-sucedida”. A tal da vida que vale a pena ser vivida.

Collins é aquele professor de Stanford, autor de clássicos do mundo dos negócios como Good to Great e Built to Last, e sucesso, aqui, não é necessariamente financeiro, mas de realizações.

Gente que fez diferença no mundo: de Benjamin Franklin a Toni Morrison, do astronauta John Glenn à pioneira da computação Grace Hopper, da sufragista Alice Paul ao ator Michael J. Fox.

A conclusão não é necessariamente nova, e reforça ideias de outros pensadores que mencionei em meus artigos anteriores aqui no Brazil Journal: conhecer as suas fortalezas e fragilidades; achar um ou mais projetos ao longo da vida que a potencializem; em algo que desperte paixão; e com significado para além de si próprio.

O que achei interessante foi a metodologia que Collins criou para chegarmos lá, com novos nomes para conceitos antigos (esses consultores adoram criar seus próprios jargões…). E o melhor está no final: as perguntas que ele coloca ao leitor. Chego lá.

A tríade da One Big Thing

Collins identificou três elementos que se reforçam mutuamente e aparecem, de forma recorrente, nas vidas que valeram a pena: descobrir os seus encodings; inverter a flecha do dinheiro; e focar o fogo interior. 

Quando os três se encontram numa mesma arena, a pessoa encontrou um personal hedgehog – e, ao se comprometer com ele, a sua One Big Thing: a “grande coisa” em torno da qual organiza uma parte relevante da vida.

Encodings: para o que você foi codificado?

São os talentos, interesses e inclinações naturais de uma pessoa. Aquilo que, quando ela está fazendo, o tempo passa rápido, flui.  Em que ela parece se destacar mais naturalmente, com mais facilidade, mais energia e mais chance de excelência.

Encodings não se criam; se descobrem. Já estão dentro de nós, à espera de serem revelados pelas experiências da vida.  E são mais profundos do que meras habilidades. Com treino e disciplina, ficamos bons em muitas coisas; a pergunta-chave, porém, não é “no que você é bom?”, e sim “para o que você foi codificado?”. 

Jimmy Page e Robert Plant (duas vidas analisadas por Collins) poderiam ter dedicado as mesmas milhares de horas ao mercado financeiro ou à química, mas não teriam transformado o Led Zeppelin na maior das bandas de rock.

Flipping the arrow of money

Nenhuma das 500 pessoas estudadas media sua vida pelo dinheiro que ganhou. Nenhuma. Mas todas entenderam que precisavam fazer a economia das suas vidas funcionar – e poucas nasceram ricas.

A inversão é sair de “trabalho para ganhar dinheiro” para “preciso de dinheiro para fazer aquilo para o que fui codificado”. O dinheiro deixa de ser o produto do trabalho e vira o insumo.

Fire: o fogo que se alimenta de foco

Imagine ser tão compelido pelo que faz que parece quase injusto ser pago por isso; desejar que o dia tivesse mais horas.

A descoberta contraintuitiva: focar o fogo com intensidade não causa burnout – alimenta o fogo, e pode sustentá-lo por décadas. Desde que se ame o fazer, não a ideia do trabalho. Não é dizer “sou um cirurgião renomado”, é dizer “eu amo operar”. Nos 99,999% do dia a dia, não só nos 0,001% de glória.

Collins é honesto sobre o preço: ninguém no estudo escapou do que ele chama de Stress and Drudgery Tax – o imposto do estresse e da labuta que até I. M. Pei pagava, em turbulência, a cada novo edifício.

A questão é se o fogo excede em muito o imposto. Se não excede, mude algo para baixar a alíquota.

Personal hedgehog

O termo vem da parábola grega, popularizada por Isaiah Berlin, sobre a raposa e o porco-espinho: a raposa sabe fazer muitas coisas; o porco-espinho sabe fazer uma coisa muito bem – se enrolar e se proteger com seus espinhos, tornando-se praticamente imbatível.

O personal hedgehog, em Jim Collins, é a descoberta daquilo em torno do qual vale organizar uma parte importante da vida: o ponto em que se encontram uma paixão profunda, uma aptidão ou vocação real (encodings) e uma forma concreta de sustentar uma vida produtiva.

Não é apenas “fazer o que se ama”, nem apenas “ganhar dinheiro”, nem apenas “ser bom em algo”. É encontrar uma ideia central suficientemente forte para orientar escolhas, renúncias e energia ao longo do tempo.

O livro amarra os três termos assim: o hedgehog é a arena de atividade que passa nos três testes – você é codificado para ela, inverte a flecha do dinheiro ao exercê-la, e ela foca o seu fogo interior. A One Big Thing é a busca que essa arena vira quando você se compromete a organizar a vida em torno dela e a canalizar para ela uma parte enorme da sua energia. E o “hedgehog mode” é esse estado de dedicação: não um tipo de personalidade, mas um modo de operar sustentado por longos períodos.

No caso de Barbara McClintock, a geneticista prêmio Nobel do estudo: a genética era o hedgehog; decifrar os enigmas do milho, a One Big Thing; as sete décadas mergulhada neles, o hedgehog mode. Quando os três testes fecham, diz Collins, a pessoa acende – não um raio isolado, mas uma tempestade de relâmpagos que dura décadas.

E aqui o ponto que considero um dos mais importantes do livro: a diferença entre encontrar “o” hedgehog e encontrar “um” hedgehog.

Se cada um tivesse um único hedgehog possível, este seria um estudo deprimente. Mas a constelação de encodings dentro de cada pessoa é vasta e amplamente inexplorada: o desafio não é achar o unicórnio, é achar um entre muitos – casas diferentes na roleta gigante da vida, na imagem de Collins.

E há hedgehogs tardios, descobertos na segunda metade da vida, muitas vezes depois de uma ruptura, como Katharine Graham, que assumiu o The Washington Post após a morte do marido e viveu uma segunda vida quase irreconhecível em relação à primeira.

Cliffs e fogs: penhascos e neblinas

Duas metáforas completam o quadro. Os cliffs são os penhascos: as rupturas abruptas, a morte de alguém amado, uma demissão, um divórcio, uma doença, mas também um ganho inesperado ou um chamado ao serviço. No estudo, eles aparecem menos como tragédias e mais como reveladores de encodings escondidos.

O fog é a neblina: os meses ou anos em que não sabemos para onde vamos, e pelos quais até os mais bem-sucedidos do estudo passaram. A resposta não é esperar a visão clarear, e sim o simplex stepping: dar o próximo passo simples e concreto, mesmo sem enxergar o destino.

Do alto das mais de 500 vidas analisadas, Collins afirma que nenhuma escapou dos penhascos e das neblinas. Evitá-los, conclui ele, é inútil; eles virão.

Juntando tudo: a vida boa, para Collins, não nasce de um grande plano, mas de um processo orgânico de autodescoberta. Atravessando penhascos e neblinas, a pessoa descobre os seus encodings, inverte a flecha do dinheiro e foca o fogo naquilo que ama fazer. Quando os três se encontram, a pessoa entra no seu hedgehog mode. Quando se compromete a organizar a vida em torno desse projeto, isso vira a sua One Big Thing. E, como a roleta continua girando, pode haver mais de um numa mesma vida, inclusive depois dos 50, 60, 70 anos.

As perguntas que valem o livro

Collins insiste: este é um livro de autoconhecimento, não de autoajuda. É um chamado ao “conhece-te a ti mesmo” do Templo de Delfos.

Por isso, o capítulo final traz perguntas “catalíticas”, que para ele valem mais do que respostas. Seleciono as que mais me provocaram:

-Complete a frase com uma única palavra: “O que eu mais quero é uma vida X.” Qual é o seu X?
-Que encodings você já descobriu em si? E o que as pessoas que o conhecem bem apontariam?
-Que atividades acendem tanto o seu fogo que você aceita pagar um pesado imposto de estresse para fazê-las?
-Como os seus penhascos reenquadraram a sua vida e expuseram encodings escondidos?
-Se você está na neblina, qual é o próximo passo simples, mesmo sem saber para onde está indo?

O que mudou na cabeça do próprio Collins

Ele termina o livro listando convicções que os doze anos de pesquisa derrubaram. Destaco algumas:

-Acreditava em “encontre e siga o seu propósito”; agora acredita em “descubra e confie nos seus encodings”.
-Acreditava num plano de vida de longo prazo; agora, no desenrolar orgânico e não planejado — de simplex steps — com que as grandes vidas se constroem.
-Acreditava que autorrealização (de Maslow mesmo; vide o meu artigo anterior aqui no BJ sobre o tema) era achar a única coisa para a qual fomos feitos; agora, que uma mesma pessoa pode alcançar excelência em coisas radicalmente diferentes ao longo de uma única vida.
-Acreditava em pensar no “legado”; agora, em focar na vida e no trabalho que estão à mão.
-Acreditava que somos plenamente senhores do nosso destino; agora, que a roleta da vida tem papel enorme (embora não definitivo) nos caminhos que tomamos.
-Acreditava que doar era dar dinheiro e tempo; agora, que a forma mais alta de doação é doar os próprios encodings.
-Acreditava que a criatividade mais potente acontece quando somos jovens; agora, que podemos atingir o pico criativo bem depois da metade da vida.
-Acreditava que liberdade é ausência de restrições; agora, que liberdade é escolher responsabilidades.

O estudo mudou até a visão de Collins sobre felicidade: ele temia que ser feliz tirasse o drive. As vidas estudadas mostraram o contrário: quase ninguém a perseguia como objetivo, e ainda assim ela aparecia, como um maravilhoso efeito colateral do modo como conduziam as suas vidas.

Ele diz sair da pesquisa com mais esperança.  Não sobre o mundo, mas sobre as pessoas: nunca mais subestimar ninguém, imaginar que encodings espetaculares cada um carrega, e não julgar uma vida em andamento, inclusive a própria. 

Jair Ribeiro é empresário nos setores financeiro, de tecnologia e educação. Fundou e preside a Casa do Saber e a Associação Parceiros da Educação.