A CFO da Oncoclínicas, Camille Faria, renunciou ontem à noite, 48 horas depois da notícia de que a companhia está negociando com a Porto um acordo que pode levar o grupo segurador a injetar R$ 1 bilhão na empresa oncológica.

Fontes próximas da Oncoclínicas disseram ao Brazil Journal que a renúncia de Camille não tem a ver com os méritos da transação, e sim com a forma como a companhia decidiu comunicá-la.

Segundo estas fontes, Camille, uma CFO que já esteve à frente da reestruturação de dívidas de empresas como Americanas e Oi, não quis tomar o risco do que entendeu ser um disclosure insuficiente de informações sobre a transação. “Dado o histórico dela em outras companhias, ela tem vários TACs assinados com a CVM e, como DRI da Oncoclínicas, não queria correr o risco de violar nenhum deles,” disse uma pessoa próxima à executiva.

camille faria

Ontem à noite, a Oncoclínicas publicou um fato relevante assinado pelo novo CFO, Marcel Vieira, um sócio da Latache que até sexta-feira era membro do conselho da companhia.

A Latache é o segundo maior acionista da Oncoclínicas, com 14,6% do capital, e esteve à frente das negociações do MOU não vinculante, juntamente com Sérgio Machado, cuja Ark Capital é credora da companhia.  

O fato relevante de ontem reitera algumas informações sobre a transação publicadas pelo Brazil Journal na sexta-feira, mas não oferece detalhes adicionais.

Uma pessoa próxima a Camille disse que a ex-CFO vê a Oncoclínicas como uma empresa “com um negócio bom, que não necessariamente precisa ir para uma recuperação judicial nem extrajudicial. Ela diz que a empresa se alavancou para crescer e saiu um pouco de seu perímetro, como tantas empresas fizeram nos últimos anos, mas que esse negócio com a Porto, se bem negociado, pode apontar uma saída.”

Depois que a notícia da transação com a Porto ficou pública, investidores que tentaram fazer as contas disseram que é impossível modelar o negócio sem saber exatamente o quanto dos R$ 4 bi de dívida líquida da Oncoclínicas descerão da holding para a nova companhia a ser formada na joint venture com a Porto.

O Brazil Journal reportou na sexta-feira que a Porto contribuiria R$ 500 milhões em equity para se tornar sócia do negócio de clínicas da Oncoclínicas – além de subscrever outros R$ 500 milhões em uma debênture conversível, mas cujos termos de conversão ainda não estão claros.

No fato relevante de ontem a noite, a Oncoclínicas disse que a debênture será conversível em 48 meses, será remunerada a 110% do CDI, e que a conversão é voluntária, ou seja, a critério da Porto.

O BJ também reportou que os credores da Oncoclínicas teriam a opção de migrar sua dívida para a newco de clínicas que será constituída para receber o investimento.

Pelos termos da transação, os R$ 500 milhões de equity da Porto darão a ela 33% do capital da newco de clínicas e 66% do capital votante.

“Se a Porto contribui R$ 500 milhões e fica com um terço do capital, então você estaria avaliando esta empresa de clínicas em R$ 1,5 bilhão, e a parte da Oncoclínicas nisso valeria R$ 1 bi,” disse o fundador de uma gestora que está olhando o papel. “Mas você não sabe o quanto vai descer de dívida líquida, então não dá pra saber o valor dos ativos que estão sendo contribuídos pela Oncoclínicas.”

O Fato Relevante diz apenas que um “determinado montante” será transferido a newco.

A Oncoclínicas abriu em alta de 9,2% com o mercado reagindo à notícia de sexta-feira. A companhia agora vale R$ 2,2 bilhões na Bolsa.