A Bolsa da Coreia tem amplificado os fluxos para AI de uma forma poucas vezes vista. 

O Kospi, o principal índice de ações do país, chegou a subir 100% do início do ano até o começo de junho – o que levou o mercado coreano a se tornar o sexto maior do mundo, com um market cap de US$ 5 trilhões (atrás apenas de EUA, China, Japão, Hong Hong e, por pouco, de Taiwan).

Mas passou a oscilar fortemente nos últimos dias, em meio a mais uma onda de dúvidas sobre o potencial da AI: caiu 5,5% no dia 5, mais 8% no dia 8, subiu 8% no dia 9 e voltou a cair 4,5% ontem. 

O índice de volatilidade da bolsa, que ficou em torno de 20 na média dos últimos cinco anos, bateu 90 ontem – um recorde. 

Se o desempenho recente do S&P 500 é explicado pelas Magnificent 7, o mercado coreano depende basicamente de duas empresas, a Samsung Electronics e a SK Hynix. Cada uma vale cerca de US$ 1 trilhão, e juntas elas respondem por metade do Kospi e 46% do EWY, o principal ETF do mercado coreano.

Fabricantes de memórias, a Samsung e a SK Hynix se tornaram as duas principais produtoras globais de HBM, ou high bandwidth memory – um tipo de memória usado nas GPUs mais avançadas para treinar modelos de AI. 

No passado, o mercado de memória era essencialmente cíclico, e se movia quando novas gerações de hardware demandavam mais capacidade.

“Mas hoje, com a AI, a demanda é virtualmente insaciável,” Guy Perelmuter, o co-fundador da Grids Capital, especializada em deep tech, disse ao Brazil Journal. “E é difícil surgir um novo entrante no curto prazo porque os investimentos são relevantes e levam tempo.”

O potencial fez as ações dispararem: em 12 meses, a SK Hynix subiu quase 800% e a Samsung, cerca 400%. Os valuations, porém, continuaram no mesmo patamar dos últimos anos – em torno de 8x o lucro para 2027 – porque as projeções de resultado só melhoraram. 

A expectativa de um re-rating continuou atraindo investidores e levou ao lançamento de ETFs que acompanham essas e outras empresas de tecnologia, muitos alavancados. 

Segundo a Bloomberg, apenas no dia 27 de maio foram lançados 16 ETFs alavancados de uma única ação do setor de tecnologia, com um patrimônio combinado de US$ 3 bilhões – que subiu para US$ 5,5 bilhões em menos de uma semana, com novos aportes e a alta dos papéis.

Agora, eles contribuem para amplificar as perdas.

Analistas e investidores já esperavam alguma realização no curto prazo após a alta expressiva dos últimos meses, mas a maioria ainda vê espaço para novas altas da bolsa – especificamente, da Samsung e da SK Hynix. 

“O curto prazo é cara ou coroa. Mas, estruturalmente, ainda vale a pena montar posição nessas empresas, que estão com o produto certo no mercado certo,” disse Perelmuter.

Outro fator que pode beneficiar os coreanos é uma aguardada melhora na governança das companhias abertas. 

Historicamente, as ações do país negociam com desconto em relação aos peers globais – o Korea discount – em razão da estrutura corporativa opaca e do disclosure limitado de informações aos minoritários. 

Existe ainda uma questão tributária. Como muitas empresas são familiares e o imposto sobre herança incide sobre o valor de mercado das ações herdadas, “os controladores têm um incentivo perverso: manter o preço da ação baixo para reduzir a conta da sucessão,” disse André Lichtenstein, gestor da Ainvest Capital, que investe em ações coreanas.

Espera-se uma mudança ao longo deste ano, após o lançamento do Corporate Value-Up Program, que se tornou lei no ano passado. Entre outras coisas, a lei estabelece o dever fiduciário dos diretores em relação a todos os acionistas (não apenas aos controladores). 

Outro fator que pode beneficiar a bolsa é a redução do imposto sobre dividendos, que caiu de 45% para uma faixa entre 14% e 30% em dezembro.