Dois anos atrás, o Brazil Journal contou a história de Gary Carrier, um empreendedor social americano que desembarcou no Rio para criar a Plataforma Impact, um projeto social com o objetivo de treinar jovens da Rocinha em engenharia de software. 

Ao chegar, Gary foi apresentado à carioca Aline Fróes, que desde 2017 tocava o Vai na Web, uma iniciativa semelhante no Complexo do Alemão e em outras cinco comunidades.

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Os dois se ajudaram durante anos e agora decidiram unir esforços em uma única plataforma, a KODIE Academy, que será lançada hoje no Instituto 12, no Leblon.

Com uma oferta online que abrange desde formações básicas em AI até cursos de um ano em cloud e cybersegurança, eles esperam impactar 1 milhão de pessoas nos próximos 10 anos – nada mal para quem começou com alguns notebooks na mão e uma ideia na cabeça.

Anos antes de Gary desembarcar no Brasil, em 2011, Aline havia fundado a 1STi, uma startup pensada para ajudar grandes empresas em suas demandas de tecnologia.

Foi assim, trabalhando com diversos CTOs, que ela se deu conta da escassez de mão de obra no setor.

Ao mesmo tempo, em seus trabalhos voluntários, notou que as comunidades cariocas estavam cada vez mais conectadas à internet, mas seus moradores não tinham um caminho claro para transformar essa cultura em profissão.

Decidiu, então, criar uma escola de tecnologia. 

Gary Carrier

Montou um currículo voltado para a engenharia de software, comprou meia dúzia de notebooks e se instalou num contêiner cedido por um projeto social no Alemão. 

Assim nasceu o Vai na Web, que começou com 12 alunos e cresceu rapidamente. O projeto chegou a ter seis polos em comunidades do Rio e São Paulo e passou a prestar serviços para grandes empresas do País, com seus ex-pupilos sendo contratados para executar as demandas e o capital gerado pelas parcerias sendo reinvestido na causa.

O hospital Sírio Libanês, o BTG, o PagBank e a AB InBev estão entre as empresas que já utilizaram os serviços e acabam incorporando ex-alunos do projeto em suas equipes.

“​Impacto social e resultados de negócios não são opostos,” Aline disse ao Brazil Journal.

Quando veio a pandemia, as doações secaram, as sedes da ONG foram fechadas e Aline precisou se adaptar. Ela e sua equipe começaram a dar aulas online, o que deu ao projeto um alcance nacional. 

Neste período, Gary tinha acabado de chegar ao Brasil com seus 12 notebooks e uma vasta experiência em empreendedorismo social — mas muitas dúvidas sobre o Rio e suas comunidades.

Os dois foram apresentados por um amigo em comum e rapidamente se tornaram conselheiros um do outro, já que Aline conhecia o terreno e tinha uma operação rodando, enquanto Gary possuía mais experiência em comunicação e funding.

Depois de formarem mais de 10 mil alunos ao todo, a dupla decidiu no ano passado que era hora de unir forças e formar a KODIE (Knowledge, Opportunity, Diversity, Innovation, Excellence).

Aline vai cuidar da operação da KODIE Academy, uma escola de tecnologia gratuita, e do Studio, a interface de prestação de serviços para o mercado corporativo.

Já Gary, que voltou a viver nos EUA, será responsável por estruturar a comunicação do projeto e fazer a ponte com doadores e empresas americanos: a dupla sonha em internacionalizar a mão de obra que está qualificando.

Os desafios começaram antes mesmo da fusão se materializar, já que o mundo foi tomado pelo avanço da inteligência artificial e a área em que o projeto atua foi atingida em cheio – mas eles se mexeram rapidamente.

“Estamos atualizando o currículo e tratando a AI como base, assim poderemos adicionar novas camadas de ensino conforme elas forem surgindo,” disse Aline. “Entender os fundamentos é o que permite construir sistemas complexos.”

Inicialmente, a KODIE vai oferecer um curso base de AI fluency e programas mais aprofundados com duração de até um ano em engenharia de software, AI, cloud e cybersegurança.

Gary acrescenta que, apesar de impactar algumas profissões, a AI vai criar outras.

“As LLMs possuem décadas de dados para ajudar no seu treinamento, mas os robôs não. Então, empresas de veículos autônomos, por exemplo, precisam de pilotos de robôs para treiná-los. Já temos gente trabalhando nisso para uma empresa de Las Vegas,” disse. “Não podemos só ensinar a pescar, temos de mostrar onde há peixes.”

Nessa linha, a dupla também espera ajudar engenheiros de software em busca de uma atualização de currículo.

A KODIE montou um escritório no Centro do Rio e terá um armazém para manter os computadores que são emprestados aos alunos que precisam, mas já nasce digital first para ganhar escala.

Não obstante, o projeto tem buscado parcerias com ONGs nas cidades onde pretende atuar para ter uma estrutura de apoio in loco. Professores locais são contratados para tropicalizar o ensino consoante a região.

Com planos de expansão internacional, a KODIE já ministrou um primeiro curso na Colômbia e pretende chegar ao México, Uruguai e Argentina até o ano que vem.

O plano é impactar 1 milhão de pessoas em 10 anos.

“O talento não tem limite, mas as oportunidades, sim. Nosso objetivo é diminuir esse gap,” disse Aline.