Em algum momento no passado recente, a “minha opinião” virou argumento.

Funciona assim: inicia-se algum debate e, muito rapidamente, alguém, para justificar sua posição, dispara “mas essa é a minha opinião”. Pronto. Super trunfo. Fim da discussão. Nada pode superar essa afirmação.

Até há algum tempo, quando se apresentava uma posição, as pessoas se preocupavam em oferecer informações, dados, exemplos. Citavam-se autoridades, fatos históricos. Havia o cuidado em fundamentar os pontos de vista. A disputa ganhava densidade. Notava-se um interesse legítimo em, literalmente, “trocar ideias”.

Isso é passado. Hoje basta a “minha opinião”. Divergir da opinião dos outros se tornou sinônimo de desrespeito. Afinal, todos têm direito a ter a “sua” opinião, e a externar seus pensamentos sem receber repreensão. Ignorar esse autoproclamado direito qualifica seu infrator como um ditador, um apóstata.

(Em tempo: por favor, fique o leitor à vontade para discordar da minha opinião sobre o tema).

Eis o ponto: a “minha opinião” – ou a de “quem-quer-que-seja” – não pode servir de argumento. O argumento é o conteúdo da opinião, ou seja, os motivos fundamentados pelos quais se chegou àquele ponto de vista. O foco deve ficar no argumento.

Discordar não é ofensivo. Ao contrário, trata-se do sinal de que se refletiu sobre o que alguém disse (logo, houve consideração por quem emitiu a ideia), mas se pensa de outra forma.

A verdadeira (e salutar) divergência apenas surge quando se pondera o mérito. Se se diz somente que “essa é a minha opinião”, sem nenhuma reflexão, não se constrói a dialética. Constroi-se um atoleiro.

As opiniões merecem respeito, mas ele existe na medida em que essas opiniões se sustentam por sua consistência. Pode-se concordar ou não com uma perspectiva – e todas as visões são dignas de deferência – contudo merece crítica a opinião despida de qualquer esteio, que se contenta em existir apenas por reproduzir a convicção de seu prolator.

Este fenômeno se revela mais nocivo porque, retirada a necessidade de argumentar, muitos se satisfazem em não se aprofundar nos temas, nutrindo-se de informações rasas, ou simplesmente falsas, das redes sociais. Confiando-se apenas no algoritmo, mergulha-se nas trevas. O fruto é neurastênico, sem gosto. O conhecimento cai diante da superstição e da ignorância. Um ciclo vicioso.

Por detrás dessa praga da superficialidade, ouvem-se os ecos do relativismo, a corrente filosófica que nega a existência da verdade absoluta, defendendo a análise subjetiva. Para os relativistas, até mesmo aspectos culturais e éticos devem ser examinados a partir de subjetividades, devendo-se respeitar a individualidade. 

É uma espécie de retorno à antiga máxima do pré-socrático Protágoras de Abdera, segundo a qual “o homem é a medida de todas as coisas”. A verdade deixa de existir para se tornar um sentimento. Como resultado, críticas se tornam ofensivas, pois agridem o indivíduo – dado que, nesse modelo, a pessoa e sua opinião se confundem.

No relativismo, a hipersensibilidade se torna o refúgio dos medíocres. Quando as discussões ganham alguma consistência e uma parte se vê ameaçada, logo ela se socorre da alegação de que “sua” opinião merece respeito – o ponto se faz ainda mais potente, praticamente invencível, se essa pessoa se colocar como integrante de algum grupo minoritário, o que a legitimaria a pensar dessa ou daquela forma.

Eis a consequência: a oportunidade de uma discussão saudável, honesta e profunda deixa de existir.       

A democracia figura como a maior vítima da transformação da “minha opinião” em argumento. Como eleger os representantes políticos se não se debatem as ideias? Rapidamente, antes mesmo de ouvir o que se tem a dizer, já se estampa na testa de quem pretendia expor seu ponto de vista: “extremista”, “radical”, “sectário”, “xiita”, apenas porque não concorda com a “minha opinião”.

Pronto, é o fim de uma conversa que sequer começou. Vigora o chavão maniqueísta: se não está comigo, está contra mim. Fecham-se os ouvidos. Todos perdem.

Num ano de eleições, esse comportamento é desastroso. Temos que reagir.

A democracia só funciona com eleitores munidos de massa crítica e capacidade de compreender a dimensão de seu voto, que se aprofundem ao optar por seus candidatos. Não se escolhe um político como quem elege torcer para um time de futebol.

Crescemos conhecendo a diversidade. Como Aristóteles explicou ao seu filho Nicômacos: “Tudo nasce do antagonismo”. Importante ouvir os demais e, mais ainda, necessário ouvir outras convicções, buscando compreender sua essência, mormente quando o que se diz tem um mínimo – sublinhe-se o “mínimo” – de reflexão e consistência. O verdadeiro respeito se conquista. As opiniões têm valor na medida em que foram amadurecidas e expressam conhecimento.

O mundo e a humanidade não são perfeitos. Podem, contudo, evoluir ou retroceder a partir da nossa conduta individual e coletiva. A ciência, os valores humanos e a prevalência da razão representam conquistas da civilização, refletem progresso. Como a história mostra, a humanidade somente deu saltos para frente quando convencida, por melhores argumentos, a mudar o rumo para seguir caminhos mais iluminados. Antes de evoluir, a sociedade ouviu.

Portanto, “essa é minha opinião” não basta. Quando alguém se valer disso como argumento, reaja, educadamente, para indagar: como chegou a essa opinião? Quais são as referências? O mais importante: num debate, não aceite a ausência de fundamento. Seja (polidamente) crítico com quem não se preocupa em aprofundar suas afirmações. Busque as conversas em que encontre argumentos e verá que um dos grandes prazeres da vida – próprio das pessoas inteligentes e sensíveis – é mudar de opinião.

“Que obra-prima é o homem! Como é nobre na razão! Que capacidade infinita! Como é preciso e perfeito em forma e movimento! Um anjo na ação! Um deus no entendimento! A beleza do mundo, o modelo dos animais…”, resumiu Hamlet.

O príncipe dinamarquês acertou em cheio. Mas do que vale essa perfeição se desistirmos de pensar?

José Roberto de Castro Neves é advogado, professor universitário, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.