E afinal, o Bradesco precisava mesmo de capital.

O banco anunciou ontem à noite um aumento de capital de até R$ 10 bilhões, por meio de uma subscrição privada de novas ações. 

Os controladores se comprometeram a colocar até R$ 8 bilhões, o valor mínimo para que a operação seja realizada.

O Bradesco também aprovou a antecipação do pagamento de JCP, o que deve facilitar a adesão dos acionistas.

Boopo Luiz Carlos Trabuco Cappi

A visão do mercado é de que a operação é positiva por elevar o patrimônio tangível do banco. O management já havia sido questionado em vários calls trimestrais com analistas sobre a necessidade de um reforço de capital, mas sempre disse que o nível era confortável. 

Por isso – e por vir a poucos dias do resultado, na quarta-feira próxima – o anúncio surpreendeu parte dos investidores. A ação cai 2,5% no começo do pregão.

“A priori, a expectativa era de um follow-on da BradSaúde,” disse um analista do sellside. “Alguns investidores estão com uma visão negativa no curto prazo, achando que o banco teve de se antecipar porque prevê um cenário ruim, com juros altos e ciclo de inadimplência.”

Para Gustavo Schroden, no Citi, há três hipóteses.

A “leitura construtiva” é de que o Bradesco está aproveitando um mercado ainda favorável e “o forte apoio dos acionistas controladores para aumentar sua flexibilidade de capital e acelerar investimentos que possam sustentar o crescimento dos lucros no futuro.”

A visão menos otimista é de que o management está buscando captar recursos enquanto a janela está ao menos entreaberta – “antes de uma provável volatilidade associada ao período eleitoral e antes que os investidores se tornem menos receptivos a operações de aumento de capital”.

Já a terceira hipótese é que o aumento de capital possa acelerar a utilização dos créditos tributários diferidos (DTAs). 

Para Pedro Leduc, no Itaú BBA, o compromisso dos controladores de subscrever 80% da oferta, “muito acima de sua participação de 37% no capital total, é um claro sinal de confiança.”

“O capital não representava um obstáculo ao crescimento no curto prazo, mas o reforço de capital contribui para fortalecer a posição do banco no médio prazo,” escreveu Leduc.

O patrimônio tangível é aquele que efetivamente pode ser transformado em caixa caso necessário, e exclui ativos intangíveis, ágio e os DTAs (que só geram valor se o banco tiver lucro suficiente para utilizá-los ao longo do tempo).  

Nas contas do BTG, o patrimônio tangível do Bradesco é de apenas R$ 28 bilhões, ou 16% do patrimônio líquido contábil de R$ 173,5 bilhões. 

O aumento de capital melhora essa métrica e também o índice de capital principal do banco, que estava em 12,7% no primeiro trimestre, quando incorporados os impactos da consolidação dos negócios de saúde na BradSaúde.

Se a oferta for totalmente subscrita, esse indicador chegará a cerca de 13,6%, segundo Eduardo Rosman, do BTG. 

“Após a operação envolvendo a Bradesco Saúde e este aumento de capital, o banco deixará de enfrentar restrições relevantes de capital,” escreveu Rosman. “Ainda assim, acreditamos que novas medidas deverão ser adotadas.”

A operação foi estruturada de forma diferente do aumento do aumento de capital anunciado no fim de 2015 e cancelado no começo de 2016 em meio à forte volatilidade dos mercados e à pressão sobre as ações do Bradesco.

“Desta vez, a estrutura oferece muito mais segurança de execução, já que os controladores assumiram um compromisso firme de subscrever até R$ 8 bilhões,” disse o BTG.

Como esse é o valor mínimo exigido para a realização da oferta, o compromisso dos controladores na prática garante que a operação será feita mesmo que os acionistas minoritários não subscrevam integralmente os R$ 2 bilhões restantes.

Os detalhes da operação:

O aumento de capital poderá alcançar até R$ 10 bilhões por meio da emissão de até 604,9 milhões de novas ações, sendo: até 302,9 milhões de ações ordinárias e 302 milhões de preferenciais.

Os preços de emissão foram fixados em R$ 15,43 por ação ordinária e R$ 17,64 por ação preferencial – com desconto de cerca de 4% em relação ao fechamento de ontem.

No caso do papel preferencial, o valuation pre-money equivale a 1,08x o valor patrimonial, segundo o BTG.

Os acionistas posicionados em 4 de agosto de 2026 terão direito de preferência para subscrever novas ações entre 6 de agosto e 4 de setembro.

As ações passarão a ser negociadas ex-direito a partir de 5 de agosto.

Os acionistas terão o direito de subscrever um volume equivalente a 5,7% da participação que detinham em 4 de agosto. 

Os investidores que exercerem integralmente seus direitos não sofrerão diluição. Aqueles que não participarem poderão enfrentar uma diluição máxima de aproximadamente 3,4%.

O Bradesco também antecipará o pagamento de R$ 6,5 bilhões em JCP para 15 de setembro – e oferecerá aos acionistas a opção de utilizar esses recursos para financiar a subscrição das novas ações emitidas.