Foi em um objeto aparentemente simples que a Papua Nova Guiné começou a se revelar para mim.
No mercado de artesanato de uma das ilhas do país, me apresentaram ao bilum, uma bolsa trançada com fibras naturais tingidas em diferentes cores que, à primeira vista, parece apenas mais um elemento do cotidiano, mas carrega em si algo essencial sobre a forma como os melanésios vivem.
É no bilum que eles transportam praticamente tudo: alimentos, objetos, bebês, e talvez o pouco de que realmente precisam. Seus fios entrelaçados formam uma estrutura resistente e flexível, e havia algo de profundamente simbólico naquela trama, como se refletisse o próprio país: um território ancestral que sustenta uma nação jovem, um dos países mais etnicamente diversos do mundo, com mais de 800 línguas e milhares de comunidades independentes, cada uma com suas próprias formas de ver e organizar a vida.
Mas ali, o fio mais forte não é o de uma identidade nacional, e sim o da família, o do clã.
A necessidade de pertencimento sempre foi um tema que me toca e, talvez por isso, eu tenha prestado ainda mais atenção ali. Foi em uma conversa com uma senhora que já havia vivido fora do país por anos que comecei a compreender a profundidade dessa estrutura.
Ela me explicou que é na relação entre famílias e clãs que a vida se sustenta, e que honrar esses vínculos é o que permite a harmonia em um lugar tão diverso. Os costumes passam de geração em geração não como tradição abstrata ou repetição de gesto, mas como prática viva, como forma de honrar o passado e dar sentido ao presente. Pertencimento, ali, não é conceito, é necessidade.
Existe uma forte cultura de escambo, em que o prestígio não está em acumular, mas em dar. Os objetos circulam, mas é o gesto de distribuir que carrega o maior valor, quase como um ciclo que se sustenta no próprio ato de oferecer. As mulheres desempenham um papel central nesse sistema: produzem riqueza na confecção do dinheiro de conchas e na criação de suínos, base da prosperidade de uma família e de um clã.
Há também uma cultura profunda de obrigações, que se manifesta nas cerimônias: casamentos, rituais, funerais. Apesar das variações entre os clãs, há algo que se repete: sustentar o outro. Nos funerais, os enlutados recebem presentes como forma de reconhecimento e cuidado, um gesto de agradecimento àqueles que lhes oferecem apoio. As obrigações, longe de serem um peso, funcionam como estrutura; reforçam os elos e mantêm o coletivo em movimento. Mesmo aqueles que saem do país e se aproximam de outras formas de viver sabem que essas obrigações continuam sendo a base. “É a essência da vida”, ela me disse.
Mas essa mesma estrutura que sustenta também delimita. A senhora confessou que considerou estabelecer-se fora, mas que isso seria impossível, a menos que se desvinculasse da família e do clã, e esse era um corte que ela não estava disposta a fazer. Os elos, portanto, são ambíguos: ora acolhem, ora aprisionam.
Em Papua Nova Guiné, os rituais organizam a vida e definem o que deve ser feito para honrar costumes que são, antes de tudo, fonte de força. E essas práticas não são classificadas como boas ou más, eles simplesmente são. Em alguns clãs, é considerado virtude que um homem se case com a viúva do irmão falecido, garantindo pertencimento aos filhos; em outros, o luto pode ser marcado pelo gesto de cortar parte de um dedo. São expressões que desafiam nossos códigos morais, mas que fazem sentido dentro de outra lógica.
Esses costumes seguem vivos, mas não estão intactos. A influência de novos sistemas legais, de religiões externas, da mídia ocidental e da exploração de recursos naturais vem redesenhando, pouco a pouco, uma sociedade baseada na propriedade comunitária, nas obrigações dos clãs e em inúmeros rituais que marcam a vida.
Ainda assim, algo permanece. Quando perguntei o que ela mais gostava em seu país, a resposta veio simples: o povo. “Um povo bom, aberto, honesto.” Eu vi isso. E vi também um lugar onde terra e espírito não se separam.
Ali, a terra não é apenas solo, recurso, commodity; é cordão umbilical que liga passado, presente e futuro. Seja nas montanhas onde se caça, seja na costa onde se pesca, tudo pertence a um mesmo campo de vida. A existência só faz sentido como parte de algo maior, uma vida expandida que inclui árvores, montanhas, vales, animais, vento, nuvens, raios, trovões, rios e mar.
Diante de um mundo que se define cada vez mais pelo indivíduo, a Papua Nova Guiné insiste no coletivo que sustenta, mas que também exige. Como o bilum, com seus fios entrelaçados, firmes o suficiente para carregar o peso da vida e, ao mesmo tempo, apertados o bastante para não deixar escapar quem pertence a ele.
Adriana Lacerda é curadora de viagens culturais.











