Enquanto diversas tradings de comercialização de energia estão quebrando e criticando a volatilidade de preços no mercado elétrico, a líder do setor, a AXIA Energia, está nadando de braçada – e diz não ver problemas estruturais no segmento.
A antiga Eletrobras acaba de reportar um lucro líquido ajustado de R$ 3,7 bilhões no primeiro tri, revertendo o prejuízo do mesmo período de 2025 e mostrando um aumento expressivo da margem em suas vendas de energia.
A margem da AXIA na comercialização de eletricidade no mercado livre e no mercado de curto prazo atingiu R$ 177 por megawatt-hora, avançando 320% em um ano.

O resultado deve-se em parte a uma estratégia da AXIA de manter capacidade descontratada, livre para vendas no mercado de curto prazo, onde os preços têm sido maiores e mais voláteis.
Este posicionamento, no entanto, tem gerado críticas de outros players, com alguns acusando a empresa de segurar a liquidez do mercado de contratos de longo prazo para forçar um aumento de preços que beneficia seus próprios resultados.
Nos bastidores, algumas tradings ameaçam questionar a atuação da AXIA e de outras grandes geradoras no órgão de defesa da concorrência, o CADE, enquanto outros pedem medidas regulatórias para ampliar a liquidez.
“Não observamos elementos que confirmem essa percepção de menor liquidez de uma forma estrutural no mercado,” Rodrigo Limp, o vice-presidente de regulação, institucional e mercado da AXIA disse na call de resultados da empresa.
“E não vemos hoje sustentação técnica ou jurídica para promover alguma mudança regulatória nesse sentido”.
Segundo ele, o que pode estar ocorrendo é uma crise de liquidez “talvez conjuntural” devido às quebras de comercializadoras no setor, que explicariam a decisão de geradores como AXIA e Copel de segurar vendas.
“Tem a questão prática de risco de contraparte. De fato, os agentes estão hoje mais avessos a risco, dado o que tem acontecido com diversas comercializadoras, que não têm conseguido honrar compromissos, e estão inclusive indo para recuperação judicial.”
O vp da AXIA também negou que a atuação da companhia e sua estratégia de vendas estejam ajudando a puxar para cima os preços no mercado elétrico, como acusam alguns rivais.
“O processo de formação de preço é completamente descolado da posição comercial dos agentes. Se está vendido, comprado, isso não influencia, dado que nosso preço é formado por modelos em que essa é uma variável não considerada,” disse Limp na teleconferência com investidores.
A AXIA está com até 27% de sua energia descontratada este ano, até 43% em 2026 e até 57% em 2027, segundo números no balanço da companhia.
Os modelos matemáticos que definem os preços no mercado de eletricidade no País, citados por Limp na teleconferência, também estão no centro da atenção do setor, com várias empresas e especialistas criticando os critérios utilizados nesse cálculo.
Com os preços, que são calculados hora a hora, chegando a variar mais de 2.000% num mesmo dia, muitos estão questionando a volatilidade e os valores elevados atingidos principalmente no início da noite.
O assunto tem ganhado força até porque o Governo deverá definir ainda neste mês se haverá mudanças nas metodologias de cálculo.
A definição da fórmula de preços está na pauta de uma reunião de 13 de maio do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que reúne diversos técnicos do segmento e é chefiado pelo Ministério de Minas e Energia.
“É natural essa volatilidade de preços ao longo do dia, isso não é uma exclusividade do Brasil. Mercados de energia inclusive mais maduros que o nosso (no exterior) têm volatilidade ainda maiores,” disse Limp.
O VP da AXIA defendeu que o comportamento do preço reflete a matriz elétrica brasileira, que tem registrado excesso de geração solar e eólica durante o dia, enquanto à noite é preciso acionar usinas termelétricas mais caras para atender picos de demanda.
“Em nossa visão, o modelo hoje se aproximou muito do custo real de operação do sistema,” disse Limp. “Temos defendido a manutenção dos parâmetros (de cálculo).”
Os preços de energia em geral mais altos têm beneficiado empresas de geração, principalmente aquelas com mais energia livre para vendas – notadamente a própria AXIA e a Copel.
De outro lado, diversas associações empresariais e de consumidores têm defendido que o Governo altere a metodologia para os preços, incluindo a Frente Nacional de Consumidores de Energia e entidades que representam comercializadores (Abraceel) e grandes clientes industriais (Abrace).
Essas associações assinaram nesta semana um manifesto conjunto em que defendem que a fórmula atual estaria “pressionando preços no mercado livre para comércios e indústrias.”
“Trata-se de transferência de renda de consumidores, que pagarão a conta, para geradores de energia,” escreveram.
“É todo mundo contra AXIA e Copel,” resumiu um operador do setor que acompanha as discussões.
Em uma consulta pública aberta pelo Ministério de Minas e Energia para discutir a metodologia de preço, a AXIA apresentou uma contribuição de mais de 130 páginas com seus argumentos defendendo a manutenção dos critérios atuais.
Em um relatório ontem, analistas da XP estimaram que uma mudança nos parâmetros de preços defendida pelos que criticam a fórmula atual resultaria em uma redução potencial de cerca de R$ 40 por megawatt-hora, em média, nos preços do mercado de curto prazo de energia.











