A Argentina está tendo conquistas expressivas em duas áreas fundamentais: as contas externas e a inflação.

Para os analistas do Bank of America, o aperto fiscal de Javier Milei, em conjunto com um boom das exportações, está contribuindo para deter a escalada nos preços e melhorar o saldo comercial.

boopo javier milei

Num relatório publicado hoje, o banco diz que a Argentina alinhou “dois dos três planetas” necessários para sua estabilização e a retomada de um “ciclo virtuoso”.

Falta só o “planeta” do crescimento do PIB.

“A Argentina apresenta uma forte melhora em duas dimensões importantes: contas externas e inflação,” diz o relatório. “Isso, aliado a uma eventual recuperação da atividade econômica, constituiria um ciclo virtuoso para o crédito, sustentando a continuidade das políticas.”

A inflação mensal ficou em 2,1% em maio, acumulando 33,2% em 12 meses. Para os analistas do banco, o índice de preços ao consumidor deve encerrar o ano em 32%. Para 2027, a estimativa é de uma alta de 15,5%.

De acordo com o BofA, as exportações estão em alta tanto pelo aumento dos volumes quanto pelo valor das mercadorias.

A receita com vendas externas cresceu 21,5% nos quatro primeiros meses do ano em relação ao mesmo período de 2025, puxada por minerais e grãos. No setor de energia, o saldo positivo aumentou US$ 9 bi nos últimos 12 meses.

Para o BofA, o país deve fechar o ano com uma conta corrente equilibrada, revertendo o déficit de 1,3% do PIB em 2025.

Os bons resultados no comércio internacional permitiram o acúmulo de dólares para reforçar as reservas internacionais – essencial para conter a depreciação do peso e impedir a volta da espiral inflacionária.

“No âmbito externo, um boom nas exportações está impulsionando uma forte melhora na balança de transações correntes, juntamente com entradas de capital externo ​​e melhorias na classificação de risco,” disse o BofA. “O Banco Central da Argentina também está superando a meta de reservas internacionais deste ano. Enquanto isso, a inflação retomou uma clara tendência de queda após um pico em fevereiro.”

O BC já comprou US$ 11,5 bi neste ano, ante a meta de US$ 10 bi. As reservas líquidas estão em US$ 8 bi, contra US$ 10 bi negativos em abril do ano passado.

Recentemente, a Argentina viu seu rating soberano subir de ‘CCC+’ para ‘B-’ pela S&P e pela Fitch. A Moody’s deve ser a próxima.

“As melhorias na classificação de risco devem ajudar a Argentina a ampliar o número de investidores para sua dívida,” disse o BofA.

Milei assumiu no final de 2023, e logo no primeiro ano de governo reverteu um déficit primário de 2,7% do PIB para um superávit de 1,8% do PIB.

Este ano, o resultado deverá ser de 1,5% positivo. Desde 2024, a Argentina tem superávit nominal (incluindo os juros da dívida). Para efeito de comparação, no Brasil o rombo nominal tem se mantido ao redor de 9% do PIB.

Parte do sucesso de Milei em fazer o governo caber dentro do PIB não se deveu à sua famosa “motosserra” de corte nas despesas. Quando assumiu, o novo presidente liberou o controle de preços e desvalorizou a moeda. As medidas provocaram um choque inflacionário momentâneo, com pico de 25% em dezembro, o que corroeu o valor real das despesas públicas, facilitando o ajuste.

Mas a equipe econômica vem aprovando uma série de reformas para desregulamentar os investimentos e atrair o capital privado.

Foi abolida, por exemplo, a Ley de Abastecimiento – que dava ao governo autonomia para controlar a margem de lucros das empresas. As barreiras ao comércio exterior – como as cotas para exportação e tarifas para importação de bens de capital – estão sendo eliminadas. Em fevereiro foi aprovada a reforma trabalhista, com flexibilização nas horas de trabalho e nos períodos de férias.

O arrocho derrubou o PIB em 2024, mas a contração de 1,3% foi menor que o estimado por muitos analistas. Em 2025, houve uma retomada, com avanço de 4,4% no ano passado. Para este ano, a estimativa é de um crescimento de 3,5%.