Os investimentos em saneamento dispararam nos últimos anos graças ao novo Marco Legal, mas um nicho que “ficou para trás” está sendo visto por muitos como a próxima grande oportunidade do setor.
Pela regulamentação aprovada em 2020, os aterros sanitários devem gradualmente substituir os antigos lixões – uma meta que inclusive já está atrasada: o plano era acabar com a maioria deles até 2024.
“Os grandes passos no saneamento já foram dados em água e esgoto, e agora tudo leva a crer que é a vez dos resíduos sólidos, onde ainda falta muito a se fazer,” Milton Pilão, o CEO da Orizon, que se autodefine como uma companhia de “valorização de resíduos”, disse ao Brazil Journal.
Com autoridades correndo atrás do tempo perdido, a movimentação nesse mercado tem crescido. E além de investir nos aterros, as empresas do segmento já têm feito de seus depósitos de lixo verdadeiras usinas de novos negócios.

Resíduos que antes eram apenas um problema ambiental são transformados em biogás para produzir energia elétrica, gás natural “verde” – o biometano – e gerar créditos de carbono, entre outros produtos.
“Hoje, se você olhar para o aterro sanitário, ele é uma grande indústria. Tem um leque importante de oportunidades para valorização,” disse o diretor comercial e novos Negócios da Solví Energia Verde, Ricardo Colpo.
A Solví, que opera desde a coleta de lixo até aterros e transformação dos resíduos, vê inclusive uma aceleração da demanda por biometano à medida que a guerra no Irã pressiona o mercado de combustíveis.
“Prefeituras, empresas de ônibus e o próprio transporte de coleta de resíduos já estão usando o biometamo. Com esses conflitos no Oriente Médio, começa a aquecer mais ainda, porque ele garante segurança energética,” disse Colpo.
“Alguns anos atrás era só PowerPoint, intenção de projetos, mas não tinha cliente consumindo. Hoje você tem produção real, indústrias utilizando, e agora tem esse caminho de transição do diesel.”
O Brasil tem hoje 19 plantas de biometano operando, com 1,2 milhão de m³/dia em capacidade, e outras 48 em fase de autorização que mais que dobrariam esse número para 2,8 milhões de m³/dia, segundo a Associação Brasileira de Biogás (ABiogás). Outros projetos em desenvolvimento poderiam levar a capacidade para 35 milhões de m³/dia.
Pilão, da Orizon, também acredita que a tensão geopolítica e a agenda de descarbonização farão a substituição do diesel nos ônibus urbanos ser a “grande vertente de crescimento” desse gás renovável nos próximos anos.
Outra nova avenida que está no radar da Orizon é a venda, para as indústrias, de CO2 gerado a partir da purificação do biogás de aterros.
A produção desse CO2 exige a construção de plantas específicas. A empresa pretende anunciar investimentos depois de assinar os primeiros contratos de fornecimento, que já estão sendo negociados.
Outro destino para o lixo é a geração de energia, seja com a queima dos resíduos ou sua transformação em biogás para abastecer termelétricas.
A Solví, que já tem duas plantas produzindo biometano e está construindo a terceira, tem 11 usinas térmicas em funcionamento. A energia produzida é vendida como geração distribuída e no mercado livre de eletricidade.
Já a Orizon está construindo uma usina de energia com queima de resíduos (waste to energy) em Barueri, viabilizada em um leilão do Governo de 2022, e acaba de obter contratos para três projetos de geração com biogás no leilão de reserva de capacidade de abril.
Os empreendimentos contratados no leilão de reserva – nos ecoparques da empresa em Paulínia (SP), Jaboatão (PE) e João Pessoa (PB) – somarão 53 megawatts. Com operação prevista entre 2026 e 2028, agregarão R$ 108 milhões em receita fixa anual.
Raul Cavendish e Bruno Vidal, que cobrem a Orizon na XP, veem o setor de resíduos “nos passos iniciais de uma significativa transformação” e têm recomendação de compra para a ação.
Para eles, a empresa é uma “oportunidade única” de capturar esse movimento, dado que a Orizon deve se posicionar como a mais competitiva no biometano.
A Orizon vale R$ 7,7 bilhões na Bolsa. O papel valorizou 66% nos últimos 12 meses.
A Solví, por sua vez, foi colocada em uma seleção do Itaú BBA de companhias não listadas “a serem observadas”. Com operações em 17 estados brasileiros, Peru e Argentina, o grupo tem uma receita anual de R$ 5 bilhões.
“A companhia pode potencialmente explorar o caminho de um IPO,” escreveu o time do BBA no convite para sua conferência com CEOs em Nova York – que tem a Solví na programação.











