Cabo Verde voltou para casa depois de empatar com duas campeãs do mundo – Espanha e Uruguai – avançar de fase e cair, entre muitas controvérsias, diante da Argentina. Foi recebida como se tivesse levantado a taça.
O Egito, depois de uma campanha memorável e de uma eliminação que muitos consideraram injusta contra a Argentina, encontrou um país inteiro esperando por seus jogadores. Não havia decepção. Havia orgulho.
Marrocos, mais uma vez, mostrou que o futebol pode ser maior que um título. Sua seleção voltou para casa abraçada pelo povo, celebrada nas ruas como representante de uma nação que se reconhece em seus jogadores.
E o Brasil?
O Brasil nem chegou.
Ou melhor: chegou em silêncio. Os jogadores desembarcaram separadamente, cada um seguindo seu destino.
Apenas Danilo apareceu em solo brasileiro. Não houve aeroporto lotado, crianças com bandeiras, idosos emocionados nem gente cantando o hino. Não porque o povo deixou de amar futebol, mas porque, talvez, a Seleção tenha deixado de amar o povo.
É duro escrever isso. Mais duro ainda é perceber que a camisa mais respeitada da história do futebol parece ter se transformado em uma marca global.
A Seleção Brasileira virou uma empresa eficiente. Tem patrocinadores bilionários, campanhas publicitárias impecáveis, contratos internacionais, amistosos organizados para atender ao mercado e jogadores espalhados pelos maiores clubes do planeta. Funciona como uma multinacional.
Só esqueceu seu principal acionista: o povo.
Não se trata da eliminação para a Noruega. O Brasil já perdeu Copas para Itália, França, Holanda, Bélgica, Croácia… e continuou amado. O problema nunca foi perder.
O problema foi deixar de representar.
Enquanto outras seleções fizeram seus torcedores acreditar que cada dividida era uma questão de honra nacional, a Seleção Brasileira parece jogar como quem cumpre uma agenda corporativa.
Faltam vínculos. Falta identidade. Falta aquele sentimento de que os onze em campo carregam, junto com a bola, os sonhos de mais de 200 milhões de brasileiros.
Curiosamente, o mundo continua apaixonado pelo futebol brasileiro. Em qualquer continente ainda há crianças que sonham em vestir a camisa amarela por causa de Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e tantos outros. O Brasil continua sendo uma lenda.
Talvez apenas os brasileiros tenham deixado de acreditar nela.
Nenhuma empresa sobrevive quando perde a confiança de seus clientes.
Nenhuma seleção sobrevive quando perde o coração de sua torcida.
Talvez a maior reconstrução de que o futebol brasileiro precise não seja tática, física ou técnica.
Seja afetiva.
Porque títulos podem ser recuperados. Mas uma seleção que desembarca sem que ninguém a espere corre o risco de descobrir que a pior derrota não acontece dentro das quatro linhas.
Acontece quando o povo já não sente que aquela camisa também lhe pertence.











