Em meio a um mercado de crédito tenso e com uma eleição no horizonte, o Nubank resolveu dobrar a aposta, acelerando a carteira de crédito num momento em que a inadimplência está aumentando. 

O banco de David Vélez reportou um primeiro tri com um aumento acima do esperado no NPL e nas provisões – um movimento que deve chamar a atenção do mercado num momento em que a palavra de ordem é ‘qualidade dos ativos’. 

David Vélez

A ação do Nubank cai cerca de 9% no after market.

O CFO Guilherme Lago, no entanto, disse que isso ocorreu porque a carteira de crédito cresceu mais rápido do que o esperado, o que ele considera positivo.

“O mercado esperava que a gente crescesse a carteira menos do que efetivamente crescemos. Se tivéssemos crescido na mesma velocidade que o mercado projetava, nosso resultado seria muito melhor. Crescemos mais e aí tivemos que antecipar provisões. Mas ao mesmo tempo estamos ganhando mais market share,” Lago disse ao Brazil Journal.

Para o CFO, “provisões maiores podem ser boas ou ruins. Se a provisão foi porque houve uma deterioração da carteira ela é ruim, mas se foi porque você aumentou sua participação e cresceu mais com a mesma eficiência, isso é bastante positivo.”

No trimestre, as provisões do Nubank cresceram 33% em relação ao quarto tri, para US$ 1,79 bilhão, enquanto o consenso dos 19 analistas que cobrem a empresa era de um crescimento de apenas 7%. 

Já a carteira de crédito cresceu 13,7%, para US$ 37,2 bilhões, enquanto o sellside projetava um crescimento de 8%, para US$ 35,2 bi.

A inadimplência de curto prazo – NPL 15-90 – também teve um crescimento relevante, saindo de 4,1% no quarto tri para 5% agora. O CFO disse que boa parte desse crescimento (65 basis points) é explicado pela sazonalidade natural do setor.

No quarto tri, as pessoas recebem o décimo terceiro e compram mais no cartão de crédito. Essas despesas do cartão aparecem no primeiro tri – o que historicamente sempre leva a um aumento na inadimplência de curto prazo.

Outra parte do aumento, no entanto, teve a ver com a mudança de mix (com o Nubank crescendo mais em produtos com um risco maior como empréstimo pessoal), e com um aumento intencional na exposição ao crédito.

“Nos últimos 12 meses adquirimos mais clientes no Brasil e México do que os cinco maiores bancos incumbentes desses países. Parte do aumento da exposição é por isso. Em segundo lugar, temos melhorado nossa modelagem de crédito com o uso de AI, o que está permitindo dar crédito para clientes que não dávamos e aumentar o limite de clientes que já dávamos,” disse o CFO.

Lago ressaltou ainda que nenhum desses três fatores tem a ver com qualidade do crédito. 

“O crédito veio exatamente como esperado. Não vemos sinal de deterioração da carteira em nenhum produto,” disse ele. “Isso pode mudar? Sim, pode mudar. O fato de não estamos vendo nenhuma deterioração até hoje, não significa que estamos acreditando que isso vai se manter.”

No caso de uma mudança no cenário macro, Lago disse que o Nubank conseguiria reagir rapidamente, já que o ‘duration’ dos três principais produtos do banco é curto. O cartão de crédito no Brasil tem duration de 3 meses; o cartão de crédito no México de 2 meses; e o empréstimo de 7 meses.

“Se percebermos uma mudança do perfil de crédito da carteira não vamos hesitar em agir,” disse ele. “Além do duration curto, sempre damos crédito com gordura. Todo ‘cohort’ nosso tem que aguentar uma piora de 100% do risco de crédito. Se estamos esperando que um ‘cohort’ tenha uma perda de 10%, mesmo se ele perder 20% ele tem que continuar NPV positivo.”

As provisões acima do esperado levaram a um ‘miss’ do Nubank no bottom line.

O banco do cartão roxo entregou um lucro líquido de US$ 871 milhões – o maior de sua história para um primeiro tri –, com um ROE de 29%. O lucro, no entanto, veio abaixo dos US$ 895 mi do quarto tri e também abaixo dos US$ 918 milhões do consenso dos analistas. 

Do lado positivo, o Nubank teve uma melhora no índice de eficiência, que caiu de 19,9% para 17,6% – o melhor disparado entre os bancos da América Latina. 

Segundo Lago, parte importante dessa melhora teve a ver com o uso de AI. Hoje, praticamente todos os funcionários do Nubank já estão com uso de AI no seu dia a dia, o que tem levado a ganhos relevantes de produtividade. O time de engenharia, por exemplo, está produzindo 2x mais do que produzia antes, segundo o CFO, e com qualidade melhor. 

Outro destaque do trimestre foi a operação do México, que chegou no breakeven pela primeira vez. O Nubank também atingiu a marca de 15 milhões de clientes no país, se tornando o terceiro maior banco do México.

No total, o Nubank atingiu 135 milhões de clientes, com a adição de 4 milhões no trimestre.

O banco vale US$ 63,4 bilhões na Bolsa de Nova York, com o papel caindo 3,4% nos últimos doze meses.