Esqueça o aquecimento visto ultimamente nas áreas de energia, rodovias e saneamento no País.
A indústria de data centers para AI está sendo vista por empresas e bancos como a principal catalisadora dos investimentos em infraestrutura no Brasil nos próximos anos.
“A infraestrutura digital vai ser maior que todas as outras. A tendência é ela começar a ultrapassar todos outros setores da infra,” Luciano Fialho, um vice-presidente da Scala Data Centers, disse ao Brazil Journal.
Uma pesquisa do Santander em um recente evento de project finance do banco apontou que o setor “desponta como o principal segmento do próximo ciclo de investimentos” no País.
Para 23% dos mais de 200 executivos de empresas, fundos de crédito e instituições financeiras que participaram do levantamento do Santander, os data centers e estruturas associadas devem liderar os aportes em infraestrutura, mais do que rodovias (20%) e saneamento (20%).
Para Fialho, da Scala, os EUA seguirão como alvo principal de investimentos nesse setor, mas não conseguirão atender a demanda sozinhos, até por limitações na oferta de energia, o que abre espaço para outras geografias.
O Brasil, enquanto isso, tem sobra de energia renovável e poderia atender parte desse mercado, principalmente para o processamento voltado ao treinamento de modelos de AI e dados de rede sociais, que não são limitados pela questão da latência.
Para este investimento decolar por aqui, no entanto, o Governo precisaria aprovar os incentivos fiscais já prometidos ao setor, disse Fialho, em referência ao projeto do chamado Redata.
Ele estima que, sem desonerações, o custo de um data center nos Estados Unidos é hoje cerca de 35% mais baixo que no Brasil, em dólares.
O Regime Especial de Tributação para Data Centers (Redata), que isentaria importações de componentes chave para o setor, foi proposto pelo Governo em uma Medida Provisória que expirou em fevereiro sem ser aprovada.
O texto depois foi reenviado ao Congresso como projeto de lei: já passou na Câmara e aguarda votação no Senado.
Somente com o Redata, “o mínimo” para o País ganhar competitividade, a capacidade local em data centers poderia sair de cerca de 750 MW hoje para 3 GW até 2032, projeta Fialho.
Isso representaria cerca de R$ 100 bilhões em capex por ano, considerando que cada novo MW custa US$ 50 milhões.
E com incentivos adicionais poderia ser muito mais, disse ele. “Se o Brasil fizer a lição de casa e se mostrar competitivo, aí os valores são astronômicos. Muda o mercado, inclusive o mercado financeiro como um todo.”
Um estudo da Apollo Global Management calcula que os data centers voltados para hyperscalers receberam US$ 930 bi nos últimos seis anos.
Isso se compara a U$ 170 bilhões em quatro anos do Plano Marshall, e US$ 257 bilhões em 14 anos do Projeto Apollo, que levou o homem à lua, segundo essas contas.
Além dos valores absurdos de capex dos data centers, estes ainda impulsionarão investimentos massivos também em infraestrutura de energia, fibra óptica e torres de transmissão de dados.
“O data center é um prédio, mas ele é o coração de um conjunto de ativos estratégicos interligados entre si,” disse Fialho.
Com esse olhar, a Scala acaba de se juntar à Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base, a Abdib, onde pretende defender os interesses da infraestrutura digital.
Controlada pela DigitalBridge, uma gestora comprada pelo SoftBank no final de 2025, a Scala surgiu a partir da aquisição dos data centers da UOL Diveo, que tinha como COO Marcos Peigo, hoje o CEO da Scala.
A Scala já nasceu com a ambição de estar em toda a América Latina – e um plano de instalar 50 MW em oito anos. Impulsionada pela onda da AI no meio do caminho, fez 200 MW em quatro anos e meio.
Segundo Fialho, o grupo ainda pretende investir quase US$ 2 bilhões a cada dois anos em expansão – mas está tudo em standby esperando o Redata.
Outros grandes players do setor no País incluem a Ascenty, controlada pela Brookfield e a Digital Realty, e a Aligned, que tem entre os acionistas GIP, Nvidia e Microsoft e opera na América Latina como Odata.
Também atuam no mercado brasileiro a NextStream, da gestora britânica Actis, e a Omnia, do Pátria Investimentos, que está construindo no Ceará um data center para a ByteDance, a dona do TikTok.











