A oferta de ações ao público na privatização da Copasa foi precificada ontem no mesmo valor pago pela Equatorial Energia para se tornar o acionista de referência da companhia: R$ 49,03 por ação, um desconto de quase 20% frente ao último fechamento, de R$ 58,50.

Com isso, o processo repete o “trem da alegria” para investidores visto na desestatização da Sabesp, quando os fundos e pessoas físicas que participaram da oferta se beneficiaram com a compra das ações com deságio.O problema é que não há espaço para todo mundo nesse trem – em meio à enorme demanda, muitos gestores recebem muito menos ações do que queriam e ficam frustrados com o rateio.

Aumentando a briga pela alocação, o Governo de Minas decidiu não exercer a opção de venda de um lote suplementar de suas ações, de até 19 milhões de papéis.

Ao fim e ao cabo, a oferta totalizou R$ 8,38 bilhões, sendo que a Equatorial entrou com R$ 5,6 bilhões para se tornar a acionista de referência, com 30% da Copasa.

A própria Equatorial não conseguiu adquirir um adicional de 12,6% de ações que desejava na oferta ao público, devido à disputa – mais de 200 investidores institucionais colocaram ordens no livro, uma fonte próxima ao processo disse ao Brazil Journal

Da demanda de R$ 65 bilhões, cerca de R$ 18 bilhões  foram de investidores de varejo, para os quais as regras definiam uma alocação obrigatória de 10% dos papéis, disse esta fonte. (O varejo, inclusive, foi incentivado a participar por casas como a XP, que ofereceram mecanismos de alavancagem.)

Na hora do rateio, os coordenadores buscaram uma distribuição que reduzisse riscos de os contemplados venderem a ação logo no dia seguinte para capturar ganhos imediatos com o deságio. 

Mas os critérios para essa alocação não são públicos, o que continua gerando críticas entre os gestores – assim como no caso da Sabesp.

“A questão da alocação fica difícil. Acaba deixando todo mundo bravo”, um banker disse ao Brazil Journal

Para um grande gestor, que recebeu uma fração do volume de ações que pediu, “numa transação como essa você teria que ter critérios-chave – e publicáveis. Porque na prática você está “dando dinheiro”, vendendo barato para quem você quer.”

Na privatização da Sabesp, por exemplo, houve fundos exclusivos criados para participar da oferta que conseguiram uma alocação de quase 100%, enquanto fundos tradicionais sofreram cortes significativos. A discrepância chamou a atenção do mercado.

“Esta alocação foi menos bagunçada, mas claramente ainda não teve critérios claros. Você poderia, por exemplo, ter uma regra de que aceitaria ordens de no máximo um determinado percentual do AUM do fundo,” sugeriu um gestor. 

Como o mercado já previa essa dinâmica da briga pelas alocações, isso também fez com que as ordens de compra não guardassem proporção com a realidade: é o chamado padding.

“Essa demanda de R$ 50 bi reportada é uma farsa, porque quem queria R$ 300 milhões bidou R$ 2 bi, porque sabia que seria muito cortado,” disse um gestor.

Uma fonte próxima ao BTG – o responsável por todas alocações – disse que o rateio “não foi discricionário”, e seguiu “uma série de critérios,” sem especificar. 

A ação da Copasa caía 4% por volta do meio-dia, a R$ 56,16.

O deságio na oferta de privatização – que acaba dando palanque a políticos de oposição – ocorre porque os investidores institucionais bidam depois do investidor de referência e pagam o mesmo preço deste, criando uma assimetria com o preço de tela.

Já o investidor de referência exige o deságio porque assume diversas obrigações, incluindo um lock-up que veda a venda de 100% de seus papéis por quatro anos.

Em tese, as regras até permitiriam ao Governo de Minas buscar um preço maior junto aos investidores no mercado, mas na prática não haveria demanda suficiente para fechar a oferta. 

“Grande parte dos institucionais condicionou sua participação na oferta a ter a Equatorial. O mercado percebe eles como um bom player de referência depois da Sabesp,” disse uma fonte próxima ao processo.

Além da Equatorial, sua sócia Sabesp e a Aegea também mostraram apetite pela Copasa durante a preparação da privatização.

Um grupo formado pela Aegea e seus acionistas chegou a fazer uma oferta, mas que veio abaixo do preço mínimo definido pelo Governo mineiro, assim como uma proposta inicial da Equatorial.

Depois disso, o Governo mineiro decidiu divulgar seu preço mínimo – R$ 47,23 – e abriu uma segunda rodada de ofertas. A Aegea não fez uma nova proposta.

Já a Sabesp, que avaliava entrar junto com a Equatorial, desistiu antes da primeira rodada e não fez nenhuma oferta, o que fontes atribuem a uma “questão política.” 

Com recentes incidentes em suas operações em São Paulo, incluindo uma explosão no bairro do Jaguaré e alguns rompimentos de adutoras, a empresa ficaria exposta a críticas por participar de uma privatização fora do Estado neste momento.

Apesar da baixa concorrência no final do processo, uma fonte disse que o mercado pode ver como positiva a “racionalidade” das interessadas na Copasa, sinalizando que as empresas de saneamento não estão dispostas a crescer a qualquer preço.

Os coordenadores da oferta da Copasa foram BTG Pactual, Itaú BBA, Bank of America Merrill Lynch, Citigroup e UBS BB. 

O Bradesco BBI assessorou a Equatorial, depois de trabalhar com a empresa também no processo da Sabesp.