Já não bastavam os custos pressionados pela guerra no Irã, que aumentou os gastos com energia, logística e fertilizantes. Já não bastava o real apreciado e os juros elevados. O agronegócio agora terá que lidar com mais uma variável difícil de controlar: o El Niño.

A Organização Meteorológica Mundial, ligada à ONU, alertou na semana passada que há 80% de chance de o fenômeno se desenvolver entre junho e agosto, e mais de 90% de probabilidade de permanecer ativo até novembro – o que impacta diretamente o período de plantio da safra 2026/2027.

A preocupação é que o aquecimento anormal das águas do Pacífico eleve ainda mais as temperaturas globais, intensificando secas, enchentes e ondas de calor em diversas regiões do planeta. 

No Sul do Brasil, isso tende a aumentar o volume de chuvas. No Centro-Oeste, representa inconstância climática em um momento decisivo de plantio. O último episódio de El Niño, entre 2023 e 2024, contribuiu para que 2024 se tornasse o ano mais quente já registrado.

“Para a safra 2026/2027, o produtor terá de lidar com um cenário de clima incerto, juros ainda elevados e um nível de alavancagem maior. Isso depois de uma safra que deve ser muito forte em produção, mas que ainda deixa margens pressionadas,” Gabriel Barra, um analista de commodities do Citi, disse ao Brazil Journal.

As estimativas da safra atual apontam para uma colheita de 358 milhões de toneladas de grãos, 1,6% a mais que a anterior, renovando o recorde histórico da produção. Com o El Niño a caminho, as projeções já apontam para baixo no próximo ano.

Em Mato Grosso, o Imea, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, projeta queda de 5% na produção de soja do próximo ciclo, refletindo os riscos associados ao evento climático. O problema é que o custeio projetado para a safra 2026/27 vem subindo mês a mês: chegou a R$ 4.286,89 por hectare em abril, uma alta de 1,88% em relação a março.

Tudo isso ajuda a explicar a cautela que tomou conta do mercado. Com o Estreito de Ormuz fechado há mais de três meses, o mercado segue à espera de sinais mais claros. Há algumas semanas, a ureia chegou a ser negociada perto de US$ 800 por tonelada. Hoje, está próxima de US$ 700.

“Há uma dificuldade muito grande de fechar negócios. As empresas temem não receber os pagamentos, e os compradores não se sentem confortáveis de se posicionar num mercado tão volátil,” disse o analista Bruno Castro, que cobre a precificação de fertilizantes na consultoria Argus.

Isso tem atrasado as compras de fertilizantes para a próxima safra. Apenas 48% do volume de insumos foi negociado. No ano passado, nessa mesma época, esse percentual estava em 60%.

Com isso, o risco de gargalo na distribuição dos insumos até agosto aumenta e, por sua vez, a possibilidade de atraso no plantio em setembro.

No caso do enxofre, a situação é ainda mais grave. A Mosaic, a gigante americana de fertilizantes, acaba de anunciar a paralisação temporária das unidades de Tapira, em Minas Gerais, e de Catalão, em Goiás, em função da escalada dos preços.

“Para cada 10 toneladas de fertilizante DAP ou MAP produzidas, são necessárias 4 toneladas de enxofre. O custo do enxofre aumentou quase 1.100% — de US$ 100 por tonelada para mais de US$ 1.200. Esta é a crise de abastecimento mais grave que o setor enfrenta desde 2008,” disse a Mosaic numa nota.

Em média, o enxofre representava um terço do preço do fertilizante. Agora, ele já custa 20% mais que o valor final do produto, inviabilizando muitas operações.

A guerra não é a única responsável pela disparada do enxofre. A expansão da indústria de veículos elétricos também elevou a demanda pelo insumo, que é usado na produção de ácido sulfúrico, uma matéria-prima essencial para baterias.

Com tantas pressões simultâneas, era esperado um impacto maior nos preços – mas não é isso que as projeções mostram, uma vez que os estoques globais de grãos estão em níveis confortáveis.

“Quando olhamos para soja e milho, não vemos um upside significativo nos preços em dólar,” disse Barra. O banco revisou a estimativa do milho para US$ 5/bushel em três meses (7% a mais em relação ao mercado à vista) e US$ 5,5 em 12 meses. Na soja, a estimativa é de US$ 12,50/bushel (10% a mais em relação ao mercado à vista) em três meses e US$ 13 em 12 meses.

Em outras palavras: mesmo que soja e milho subam, a valorização projetada não parece suficiente para compensar a alta dos fertilizantes, dos custos financeiros e das incertezas climáticas. Para o produtor, a equação continua difícil.

Realmente, o agro não terá um dia de paz até onde a vista alcança.