Existem países divididos, existem países polarizados, e existe o Peru – onde a esquerda e a direita são metades (praticamente) idênticas.

Em mais uma apuração disputada cabeça a cabeça, a conservadora pró-mercado Keiko Fujimori deverá ser eleita presidente, superando o esquerdista Roberto Sánchez.

A apuração no Peru é tradicionalmente vagarosa e sujeita a recontagens, e por isso a declaração oficial ainda poderá levar semanas. Mas com 98,552% dos votos válidos contados até a noite de sábado, Fujimori liderava com 50,051% contra 49,949% de Sánchez – uma diferença de apenas 18.488 votos num universo de mais de 27 milhões de eleitores.

Fujimori ficou atrás durante quase toda a apuração, mas passou à frente sobretudo graças aos peruanos que vivem no exterior. Nos EUA, ela conquistou 44.400 votos contra 13.607 do adversário. No Japão, foram 7.492 contra 775. Ela ganhou com boa margem também na Espanha: 32.510 contra 21.571.

06 09 Keiko Fujimori ok

Além do apoio dos peruanos que foram trabalhar fora, Fujimori construiu sua vantagem com os votos das províncias da costa peruana, incluindo a capital Lima, e também das províncias da região amazônica. Sánchez ganhou nas províncias centrais, principalmente na região dos Andes.

Desde a vitória de Javier Milei na Argentina, em 2023, a América do Sul vai se dobrando à direita. Em 2025, a Bolívia elegeu o direitista Rodrigo Paz Pereira, dando fim a duas décadas de governos esquerdistas. No Chile, também em 2025, José Antonio Kast derrotou o bloco de esquerda.

Na Colômbia, o direitista Abelardo de la Espriella vai disputar o segundo turno no domingo que vem contra Iván Cepeda, o candidato apoiado pelo atual presidente, o esquerdista Gustavo Petro. 

Chamado de ‘Bukele colombiano’ por ter como inspiração o populista de direita Nayib Bukele, presidente de El Salvador, de la Espriella lidera nas pesquisas.

Keiko Fujimori, de 51 anos, é filha do ex-presidente Alberto Fujimori Inomoto, o conservador que promoveu políticas de livre-mercado mas governou de maneira autoritária, chegando a dissolver o Congresso e a Suprema Corte. Em 2009, foi condenado por corrupção. Cumpria pena de 25 anos quando recebeu um indulto em 2023, falecendo no ano seguinte.

Herdeira política do pai e líder do Fujimorismo, Keiko vem perseguindo a presidência há 15 anos. Derrotada por pequenas margens em 2011, 2016 e 2021, ela terá à frente o desafio construir condições mínimas de governabilidade para levar suas promessas de reforma adiante – e, mais do que isso, conseguir se manter no cargo até o final do mandato num país que derruba presidentes ao ritmo de quase um por ano.

Desde 2020, quatro presidentes peruanos foram destituídos pelo Congresso – quase sempre em casos envolvendo corrupção e, em alguns deles, tendo a Odebrecht como protagonista. Anteriormente, dois outros renunciaram antes da conclusão de processos de impeachment.

Além de Alberto Fujimori, os quatro ex-presidentes que foram condenados e continuam atrás das grades são Alejandro Toledo, Ollanta Humala, Martín Vizcarra e Pedro Castillo.

O único que não foi preso por corrupção é o esquerdista Castillo, um professor de ensino primário e sindicalista eleito em 2021 – mas que acabou destituído e preso por tentativa de dissolver o Congresso.

A despeito de toda a instabilidade política, a economia peruana mantém um desempenho relativamente saudável, crescendo ao redor de 3% ao ano. O Banco Central tem autonomia operacional e a inflação segue comportada, em torno de 2%. A taxa básica de juros está em 4,2%.

As contas públicas são equilibradas, com déficit primário próximo de zero e nominal de 2% do PIB – abaixo, portanto, do ritmo de crescimento econômico. A dívida pública está em 33% do PIB, uma das menores da América do Sul.

06 11 Roberto Sanchez ok

A economia não está entre as maiores preocupações dos eleitores. Os três grandes problemas citados pelos peruanos nas pesquisas, de acordo com a AtlasIntel, são corrupção e criminalidade, além do enfraquecimento das instituições democráticas.   

Na tentativa de superar a instabilidade política e assegurar maior governabilidade, o país acaba de fazer uma série de reformas políticas, e voltou a ter um regime bicameral, com Câmara e Senado.

De acordo com os analistas do BTG, a introdução de protocolos para impeachment mais rigorosos – que exigem uma maioria de dois terços em ambas as casas legislativas – deve mitigar a frequência de quedas de presidentes.

Além disso, as novas restrições à autoridade do Executivo para dissolver o Congresso e a possibilidade de reeleição imediata no Legislativo também poderão ajudar na estabilidade institucional.

“Espera-se que essas reformas resultem em um ambiente legislativo mais previsível, apesar da crescente complexidade imposta pela fragmentação política,” disse o banco em relatório recente.

Segundo a Goldman Sachs, o futuro governante, quem quer que seja, enfrentará condições adversas de governabilidade em meio a uma enorme insatisfação política e um sentimento anti-establishment.

“Em um aspecto mais construtivo, o obstáculo para a destituição presidencial aumentou após a reinstalação de um legislativo bicameral, e o Congresso também se tornou menos fragmentado, com apenas seis partidos garantindo representação, em vez de dez,” escreveram os analistas do banco.

“No geral, o Congresso se tornou mais conservador – especialmente o Senado –, uma configuração que poderia favorecer a agenda de Fujimori e que limita o risco de mudanças constitucionais ou de um afastamento drástico do atual quadro macroeconômico.”

O primeiro turno explicitou a insatisfação do eleitorado com as candidaturas disponíveis. Os votos somados de Fujimori e Sánchez, os dois primeiros colocados, representaram menos de 30% do total – ou seja, 70% dos peruanos não queriam nenhum dos dois. (Quase o Brasil). Havia 34 candidatos na disputa.

No Congresso, o bloco da Força Popular de Fujimori ficou com a maior bancada, elegendo 41 de 130 deputados e 22 dos 60 senadores. A coalização Juntos por el Perú, de Roberto Sánchez, elegeu 32 deputados e 14 senadores.

A perspectiva de vitória de Fujimori vinha favorecendo os ativos peruanos. Para os investidores internacionais, a vitória da direita eleva as chances de políticas market-friendly e, para o BTG, pode destravar ainda mais valor na Bolsa do país. O banco projeta uma valorização das ações locais de até 30% nos próximos 12 meses. Nos últimos 12 meses, o ETF MSCI Peru acumula alta de 80%, embalado em parte pela perspectiva de derrota da esquerda.

O programa de Fujimori se dividiu em três grandes eixos: ordem, economia e social.

Como em outros países da região, a segurança pública foi um dos principais temas da campanha. Fujimori prometeu investir na polícia e usar as Forças Armadas no combate ao crime e na administração das penitenciárias.

Na economia, indicou que buscará o controle do déficit fiscal e respeitará a autonomia do BC. Sua plataforma defende um “choque de desregulamentação”, fortalecimento das instituições públicas e combate à corrupção.

Em resumo, ao menos no discurso, a sua agenda é de linha dura contra o crime e incentivo ao investimento privado – especialmente no setor de mineração.

Sánchez, de 57 anos, foi ministro do Turismo no governo do esquerdista Castillo. Durante a campanha, moderou o discurso e procurou se aproximar do centro, ampliando a base de sua coalizão. Mas disse também que ofereceria um indulto a Castillo, ainda atrás das grades pela tentativa de autogolpe.

Na economia, prometeu respeitar a independência do BC, mas propôs maior controle estatal na exploração dos minérios e do petróleo – incluindo a renegociação de contratos “estratégicos”.

“Ele tentou se mover para o centro, mas sua trajetória fala por si,” disse ao Financial Times um empresário do setor de mineração.