O Brasil ampliou de maneira expressiva seus investimentos sociais e na educação ao longo das últimas décadas – mas a mobilidade social permanece praticamente estagnada.
Apenas uma pequena parcela das crianças nascidas em famílias pobres consegue escapar da pobreza na vida adulta, mostra a nova versão do Atlas da Mobilidade Social, uma plataforma interativa desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o centro de pesquisas Prospera Lab.
Entre as crianças que nasceram de 1988 a 1990 em lares situados entre os 25% de menor renda, apenas 8,8% conseguiram chegar aos 25% mais ricos na vida adulta.
As chances de ascensão são melhores para aqueles que nasceram em camadas intermediárias de renda, mas não muito. Como mostra o gráfico abaixo, 18,6% deles subiram ao nível dos 25% mais ricos quando atingiram a vida adulta.

“Houve uma pequena melhora entre esses dois períodos avaliados, mas a diferença ainda é brutal,” Leandro Rocha, pesquisador do instituto, disse ao Brazil Journal.
O IMDS foi fundado pelos economistas Arminio Fraga e Paulo Tafner, com a missão avaliar e propor políticas públicas de impacto para a mobilidade social.
No atlas interativo, é possível navegar pelos dados e fazer diversas comparações – inclusive de regiões do País, estados e municípios. (Acesse aqui)
A plataforma reúne 38 indicadores socioeconômicos, permitindo visualizar sua evolução ao longo do tempo.
Salta aos olhos que a renda dos pais é um forte indicador do estrato de renda a que os filhos pertencerão no futuro, uma característica de sociedades com baixa mobilidade social.
Os dados mostram também as disparidades que existem entre as pessoas do mesmo grupo de renda, mas de diferentes sexo e cor.
Os brancos pobres têm 11,5% de probabilidade de chegar ao grupo dos 25% mais ricos, enquanto para os não brancos a chance é de 7,3%.
Para as mulheres pobres, independentemente de cor, as chances são ainda mais reduzidas: apenas 4,5%, contra 11,7% dos homens.
Para os pesquisadores, é necessário investigar as razões dessas diferenças, mas provavelmente elas exprimem em boa medida a dinâmica do mercado de trabalho. É isso que ajuda a entender também por que em alguns estados há muito mais chance de os filhos de pobres serem pobres na vida adulta, como mostra o gráfico abaixo.

De acordo com o economista Fernando Veloso, diretor de pesquisa do instituto, cidades e regiões onde há maior percentual de pessoas empregadas e menor informalidade tendem a apresentar maior mobilidade.
“É importante ressaltar que não se trata necessariamente de discriminação, porque essas diferenças podem ser causadas por questões como escolaridade e inserção no mercado de trabalho,” disse Veloso.
Correlacionando os dados da plataforma, os pesquisadores conseguiram algumas pistas sobre os fatores que favorecem a mobilidade. Por exemplo, nos municípios com boas notas no Ideb (o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), é maior a chance de ascensão social.
Por avaliar a mobilidade geracional, o estudo consegue analisar o que aconteceu com pessoas que nasceram há mais de duas décadas, comparando dados históricos com os mais recentes disponíveis.
Mas será que a situação não seria um pouco melhor para quem nasceu nos últimos anos?
Veloso tem dúvidas de que o quadro tenha sido alterado – e acredita até que possa ter piorado.
“O Brasil é um país de baixíssima mobilidade, onde existe uma série de grupos de interesse que capturam parcelas do Orçamento ou conseguem mecanismos de proteção de seus privilégios. Em geral, são os grupos mais ricos,” afirmou o economista.
“Esses números mostram, de certa forma, os nossos problemas de falta de competitividade e produtividade, as questões fiscais. Espelham o País,” disse Veloso. “Quem nasce rico permanece rico não por mérito, mas porque já teve uma vantagem no início e depois vai se beneficiar de uma série de recursos que preservam aquela posição.”
O atlas não traz comparações internacionais, mas há pesquisas que fazem isso – e a posição brasileira é constrangedora.
Um estudo do Fórum Econômico Mundial mostrou que uma família brasileira que esteja entre as 10% mais pobres precisará de nove gerações para que seus descendentes tenham uma renda mediana – ou seja, o valor que divide a metade mais rica da metade mais pobre. Entre os países analisados, o Brasil ficou na última posição, ao lado da África do Sul.
Na Índia e na China, esse salto de renda ocorre em sete gerações; nos EUA e na Itália, em seis; e na Dinamarca, em apenas duas gerações.











