Ted Turner, o empresário de mídia não convencional que imaginou um mundo globalizado antes do termo existir e pôs esta visão em prática criando a CNN, morreu hoje aos 87 anos.
A causa da morte não foi revelada, mas o próprio Turner revelou em 2018 sofrer de Demência por Corpos de Lewy, um distúrbio cerebral progressivo.
Turner passou a primeira metade de uma vida aventurosa inovando em vários campos da comunicação e do entretenimento – e na segunda, abraçou a defesa do meio ambiente como causa.
No começo dos anos 80, foi o primeiro a perceber o alcance de um conceito então debatido apenas em círculos específicos e no meio acadêmico: a ideia da aldeia global.
Antecipando-se aos acontecimentos – numa era anterior à internet – valorizou a notícia como produto e inventou a Cable News Network, o primeiro canal de notícias 24 horas por dia.
A CNN mudou – primeiro nos EUA, depois no mundo todo – não só a forma de se assistir televisão como também o consumo da notícia, com uma instantaneidade precoce que inaugurou uma era.
Pioneiro na adoção da tecnologia de transmissão por cabo e satélite, Turner formou uma nova geração de telespectadores, uma audiência global espalhada por diversos fusos horários.
Num tempo em que a mídia dos EUA ainda se restringia às três grandes redes (ABC, CBS e NBC), Turner quebrou a rigidez das grades: a notícia não tinha hora para entrar no ar e – se fosse importante – era transmitida pelo tempo que fosse necessário.
Por fim, inovou ao fazer de Atlanta, na Georgia, a sede de seu império – desafiando a hegemonia de Los Angeles e Nova York no mercado de mídia.
Em paralelo à CNN, Turner ampliou sua atuação para canais de filmes e desenhos animados, além de transmissões esportivas.
Seu estilo pessoal tinha um caráter extravagante, até falastrão, mas nem seu maior crítico podia negar que Turner carregava também uma enorme percepção para os negócios, bem como agilidade e audácia para colocar os projetos de pé.
A rebeldia e o inconformismo vinham desde a infância.
Robert Edward Turner III nasceu em Cincinnati em 19 de novembro de 1938, mas o jovem Ted foi criado na Geórgia e teve parte de sua formação na Academia Militar do estado.
Filho de um pai alcoólatra e abusivo – como recordou em seu livro de memórias publicado em 2008 – Turner não concluiu a universidade, optando por começar a trabalhar na empresa familiar, a Turner Advertising, especializada em publicidade em outdoors.
Com a morte do pai – que se matou quando Turner tinha 24 anos – assumiu os negócios com a certeza de que sabia o que precisava ser feito.
A Turner Advertising foi o início de tudo. A partir dela, o empresário passou a adquirir pequenas estações de rádio e, no início dos anos 70, comprou uma estação de TV em Atlanta.
Ali, exibindo filmes antigos – pelos quais não precisava pagar – e apostando em transmissões esportivas, começou a ampliar seu poderio.
O interesse pelos esportes foi decisivo para que Turner tivesse o entendimento do imediatismo dos fatos: o que acontecia precisava ser noticiado no momento seguinte. Era preciso não apenas ser o primeiro, mas o mais ágil.
A aposta deu certo. Em 1982, dois anos depois de entrar no ar, a CNN já tinha mais de 9 milhões de assinantes.
A consagração maior viria em 1986, quando a CNN foi a única emissora a transmitir ao vivo a tragédia do ônibus espacial Challenger. Outro grande momento do canal veio com as transmissões ao vivo dos conflitos no Oriente Médio no início dos anos 90 e do colapso da União Soviética. A queda do muro de Berlim passou na CNN.
A partir de então, rico e respeitado, e eleito em 1991 o “Homem do Ano” pela Time, Turner passou a dedicar seu tempo a outras atividades.
Apaixonado por esportes, adorava velejar e, nas horas vagas, distraía-se comprando times das mais variadas atividades. Chegou a ser dono do Atlanta Braves, de beisebol, e do Atlanta Hawks, de basquete, além de ter sido o idealizador do World Championship Wrestling, voltado para a luta livre profissional.
Turner só entraria em declínio empresarial no início do milênio. Em 1996, a Turner Broadcasting System – dona da CNN, TBS, TNT e Cartoon Network – completou sua fusão com a Time Warner, dando origem à maior empresa de mídia do mundo. Mas a fusão não teve o sucesso previsto: a empresa perdeu muito dinheiro e valor de mercado, e Turner se afastou das decisões executivas.
Na mesma época, Rupert Murdoch lançou a Fox News, que em 2002 já havia se tornado a líder da TV a cabo nos EUA, erodindo o impacto da CNN junto ao público dos EUA.
Seu pensamento político conservador – era um eleitor Republicano – não impediu que Turner tivesse relações próximas com o ditador cubano Fidel Castro e um relacionamento amoroso com a atriz Jane Fonda.
Ela, não apenas respeitada pela carreira artística, mas também pelo ativismo político, foi casada com Turner por uma década (de 1991 a 2001), e provavelmente teve papel decisivo em sua adoção de novas pautas.
Nessa nova fase, dedicada à filantropia, Turner doou US$ 1 bilhão para criar a Fundação das Nações Unidas.
Também transformou os 14 ranchos de sua propriedade, espalhado por meia dúzia de estados americanos, em exemplos de aplicação de uma agricultura economicamente responsável e ecologicamente sustentável.
Símbolo de seu interesse pelos temas ambientais foi a criação do Capitão Planeta, um super-herói com a função de conscientizar as crianças na busca pelo equilíbrio ambiental.
Com o Brasil, Turner também manteve relações pessoais e empresariais, participando da inauguração do Canal Futura e declarando-se um admirador do turismo desenvolvido no litoral baiano e na região amazônica.
Com o tempo, o Turner exibicionista e bon vivant passou a ser mais notícia do que o homem que inventou a notícia 24/7. Declarou se sentir incomodado com o assédio da imprensa e passou a repetir uma frase que consta em seu livro de memórias e que, segundo o Los Angeles Times, queria que constasse em sua lápide: “Não tenho mais nada a dizer”.
Ted Turner deixa cinco filhos, 14 netos e dois bisnetos.











