O jornalista Andrew Ross Sorkin produziu um blockbuster quando contou os bastidores da quebra da Lehman Brothers em Too Big to Fail, narrando a crise financeira global a partir de seus principais personagens.

Andrew Ross Sorkin ok

Agora, ele reproduziu a fórmula para recontar a história do crash de 1929 em 1929: Por dentro da maior crise da história de Wall Street – e como ela abalou o mundo (488 páginas), que acaba de chegar ao Brasil pela Portfolio Penguin. (Compre aqui)

O livro reconstrói de maneira notável as cenas e os episódios centrais do período usando relatos feitos à época, anotações de reuniões, registros em diários e depoimentos.

“Sou fascinado por pessoas, suas motivações e incentivos,” Sorkin disse ao Brazil Journal. “Sempre achei que alguém deveria contar essa história através dos personagens, uma história verdadeiramente centrada neles.”

Colunista do New York Times e âncora da CNBC, Sorkin reconhece que há sinais no mercado que lembram a euforia desmedida de um século atrás, antes do crash. Mas em sua opinião, este é o tipo de risco que faz parte do “código econômico” dos EUA.

“Todas as grandes mudanças tecnológicas exigiram especulação. Sejamos francos, envolveram investimentos excessivos e, muitas vezes, imprudentes,” disse Sorkin.

Para ele, a história mostra que “é difícil fazer todos os bons investimentos sem fazer os ruins.”

A seguir, os principais trechos da conversa.

Quando você percebeu que poderia adicionar algo novo a essa história, que já foi esmiuçada em tantos livros?

A ideia me veio à cabeça provavelmente em 2015, depois de eu ter lido muito sobre esse período. Por algum motivo, a maioria dos livros não se concentrava nos personagens, nas pessoas.

Sou fascinado por pessoas, suas motivações e incentivos. Sempre achei que alguém deveria contar essa história através dos personagens, uma história verdadeiramente centrada neles.

Foram cerca de quatro anos de pesquisa inicial e apuração para saber que tinha as informações suficientes, a partir de diários pessoais, anotações e memorandos, para ter certeza de que a história poderia funcionar.

Como a sua experiência como repórter de finanças ajudou na concretização desse trabalho?

Tenho muita sorte de ter feito a cobertura da crise financeira de 2008 e de conversar com os principais envolvidos. Isso realmente me ajudou nas pesquisas e também a entender os personagens de 1929.

Aquelas pessoas não são tão diferentes das pessoas de hoje.

A ação se desdobra como em um livro de suspense. Como foi possível descrever as cenas e situações com tantos detalhes?

Vou dar um exemplo. Na cena de abertura do livro, há um momento em que Charlie Mitchell está caminhando pela Quinta Avenida e para na esquina da Rua 65. Ele então conversa com um amigo, enquanto esperam o trânsito passar.

Eu reproduzi frases daquela conversa. E como foi possível? Houve vários processos cíveis e criminais envolvendo Mitchell, com diversos depoimentos em que as testemunhas mencionaram o que foi dito naquele encontro.

Meu trabalho foi montar um quebra-cabeça. Procurei plantas arquitetônicas de prédios e fotos para saber como eram. Pesquisei também a meteorologia.

O livro vai virar série de TV – um ‘Billions’ ambientado nos anos 1920?

Tenho conversado com algumas pessoas sobre a possibilidade de produzir uma série ou um filme.

É impossível não traçar paralelos entre aquele período e a euforia atual no mercado, com toda essa especulação em torno da inteligência artificial. Por exemplo, era comum analistas justificarem a valorização dizendo que a matemática tradicional já não era mais válida. Qual a sua percepção sobre o que acontece hoje nas bolsas americanas?

Estamos claramente em um período de entusiasmo extraordinário. Vivemos níveis recordes, em um contexto de guerra, preços do petróleo mais altos e todos os tipos de riscos no sistema. Estou surpreso com a disposição dos investidores em ignorar o que parecem ser riscos óbvios.

Há novas empresas chegando ao mercado, como SpaceX, OpenAI e Anthropic, e os valuations são impressionantes. Você precisa acreditar que essas companhias farão coisas extraordinárias para justificar os números.

Existe algo chamado de sabedoria das multidões. Às vezes a multidão é muito sábia, mas muitas vezes não. É impossível saber.

Não quero dizer que tudo isso vai desmoronar amanhã, porque não sei se isso vai acontecer. Será que, no mínimo, deveria haver uma correção? Imagino que sim.

Mas aí me lembro de Charlie Merrill, o fundador da Merrill Lynch. Em 1928, ele disse que as pessoas deveriam sair do mercado de ações. Achava que tinha ido longe demais.

O mercado, entretanto, continuou subindo até setembro de 1929, algo em torno de 90%. Isso mostra como é difícil precisar o momento exato da correção.

Depois do crash de 1929, houve uma reação negativa da população e de políticos contra os banqueiros e especuladores. Na crise de 2008 também houve uma grande revolta. Agora estamos vendo as primeiras manifestações negativas em relação à inteligência artificial. A partir de suas conversas com executivos e analistas, qual a percepção deles sobre isso?

Algumas pessoas estão preocupadas com o fato de estarmos em uma bolha e dizem que essa bolha vai estourar. Há outro grupo que está otimista – mas se a AI for tão bem-sucedida quanto imaginam, provavelmente deixará muita gente desempregada.

Neste exato momento, a preocupação com o desemprego parece um pouco exagerada. Mas é um risco para o futuro, especialmente para os mais jovens, que parecem ser os mais afetados. Por isso estamos vendo executivos do setor de tecnologia serem vaiados durante seus discursos nas cerimônias de formatura.

No ano passado, você escreveu um artigo intitulado ‘The risk that built America’. Nele, você disse que a especulação não é uma falha no código econômico americano, e sim um componente crucial. Essa é a sua conclusão depois de ter escrito sobre as crises de 1929 e 2008?

Entrevistei Jeff Bezos há duas semanas e lhe perguntei se estávamos em uma bolha. Ele disse que bolhas não são ruins – e esse é o ponto.

Todas as grandes mudanças tecnológicas, como no final dos anos 1990 ou na década de 1920, exigiram especulação. Sejamos francos, envolveram investimentos excessivos e, muitas vezes, imprudentes.

Sempre que há uma bolha, isso significa que haverá muito investimento em coisas boas e muitos investimentos ruins também. Mas é difícil fazer todos os bons investimentos sem fazer os ruins.

Então, para o bem da humanidade, por assim dizer – talvez “humanidade” seja uma palavra forte demais para isso … Para o bem da marcha do progresso a longo prazo, esses períodos são desejáveis.

O que não se quer é que eles se agravem a ponto de prejudicar muitas pessoas ao longo do caminho.

Para concluir a conversa, uma curiosidade: qual dos seus livros vendeu mais, ‘Too Big to Fail’ ou ‘1929’?

A verdade é que 1929 está vendendo mais.

Talvez a razão para isso seja o fato de as pessoas serem fascinadas por história e, particularmente, por identificar padrões históricos.

Estamos sempre buscando padrões na história que possamos aplicar ao presente. É algo diferente, portanto, de ler sobre a história de algo novo, que acabamos de vivenciar.