O Lazard fez uma oferta agressiva para conquistar o cobiçado contrato de renegociação da dívida multibilionária da Venezuela – mas Caracas indicou que manterá sua decisão de fechar com a Centerview Partners, a boutique de Wall Street que tem como sócio o banqueiro e político socialista francês Matthieu Pigasse.

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Segundo a Bloomberg, a Lazard enviou na sexta-feira uma carta à presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, propondo um fee de US$ 25 milhões pela assessoria financeira.

O valor, similar ao cobrado pelo banco de investimentos para reestruturar a dívida da Grécia há quase 15 anos, é uma fração dos US$ 150 milhões que estariam sendo pagos à Centerview para liderar o reescalonamento da dívida externa, que poderá chegar a US$ 200 bi – a maior renegociação da história.

“Num momento em que a Venezuela enfrenta desafios econômicos e financeiros extraordinários, acreditamos que cada dólar público deva ser aplicado da forma mais eficiente possível,” escreveu na carta Pierre Cailleteau, o principal consultor de assuntos soberanos do Lazard.

A Venezuela respondeu com uma nota indicando a disposição de seguir com a Centerview.

“Agradecemos à Lazard e a outras empresas pelo seu interesse em apoiar os nossos esforços de reestruturação da dívida,” disse o Ministério das Comunicações da Venezuela num comunicado enviado à Bloomberg. “Trabalhamos com Lazard e Rothschild no passado e estamos bem familiarizados com suas capacidades. O processo de seleção de consultores já foi concluído.”

Ainda de acordo com o Governo, foram aplicados na seleção “um conjunto consistente de critérios centrados na experiência da equipe, conhecimentos especializados, análise de qualidade e compreensão das nossas circunstâncias.”

“Com base nessas mesmas considerações, selecionamos a Centerview Partners como nosso consultor financeiro,” concluiu a nota.

Desde a prisão do ditador Nicolás Maduro pelos EUA, em janeiro, o Governo interino da Venezuela vem procurando reabrir o país aos investimentos estrangeiros e retornar ao mercado de capitais.

A Venezuela decretou o calote da sua dívida em 2017, quando Trump impôs sanções ao país então comandado por Maduro. Em maio, a Venezuela anunciou que a Centerview será o líder da renegociação, que envolve títulos e empréstimos em valores estimados entre US$ 150 bi e US$ 200 bi.

A boutique não tem experiência em negociações desse porte – mas as conexões de Pigasse nos EUA e na Venezuela ajudaram a fechar o contrato.

Pigasse foi o head de M&A da Lazard e participou das renegociações das dívidas da Grécia e do Iraque. Ele se associou à Centerview e abriu o escritório de Paris. Quando Maduro caiu, viu uma oportunidade de acionar antigos contatos.

Pigasse conhece a Presidente Rodríguez há tempos, desde quando ela ainda comandava a PDVSA. Foi ele que assessorou a petroleira na sua tentativa de vender a distribuidora Citgo.

O francês também é muito próximo de Mauricio Claver-Carone, o ex-presidente do BID que hoje é o enviado especial de Trump para a América Latina. Os dois já trabalharam juntos na reestruturação da dívida do Equador, em 2020.

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A amizade com Clever-Carone ajudou a abrir portas na Casa Branca. Em janeiro, Pigasse foi um dos convidados para uma sessão privada de exibição do filme Melania, o documentário sobre a trajetória da primeira-dama e os preparativos para a segunda posse de Donald Trump.

De acordo com o Wall Street Journal, Pigasse teria sido convidado por um dos produtores do filme, o argentino Fernando Sulichin, que há anos mantém uma relação íntima com os dirigentes venezuelanos.

Ao Journal, Claver-Carone disse que apoiava fortemente a decisão venezuelana de contratar os serviços da Centerview, e que ela tem o aval do Departamento de Estado e do Tesouro dos EUA.

Executivos da Centerview vêm se reunindo com autoridades de Caracas desde fevereiro. Em uma dessas viagens de negócios, o francês teve a seu lado um sócio de Claver-Carone.

Segundo a Reuters, o time sob comando de Pigasse para assessorar a Venezuela inclui Charles Albinet e Hamouda Chekir, dois veteranos em reestruturações de dívida soberana, incluindo assessoria para países como Argentina, República do Congo e Grécia.

Pigasse, de 58 anos, tem entre seus clientes multinacionais francesas como a L’Oréal e a Kering. É dono também do grupo de mídia francês Combat e tem participação acionária no Le Monde.