Felipe Alhante andava incomodado com a ideia de deixar centenas de livros acumulando pó em casa. Por sugestão do pai, Henrique, decidiu encontrar novos donos para essas obras.

O jovem de 17 anos se juntou aos amigos Catarina Oakim (também 17) e Eduardo Campos (16) e criou o Virando Páginas, um projeto de doação de livros baseado no Rio de Janeiro que em menos de um ano já encontrou um novo lar para 3,5 mil obras, distribuídas para presídios, instituições sociais ou escolas públicas.

Jovens demais até para dirigir, os três precisam se virar com carretos e caronas para recolher e entregar as obras que arrecadam – mas sonham em criar uma rede nacional de doação de livros.

06 05 Felipe Alhante ok“A jornada de um livro não precisa terminar onde começa,” eles disseram ao Brazil Journal.

Parte de uma geração que já nasceu com a cara nas telas, os fundadores do Virando Páginas são defensores inesperados da leitura — e precisaram encontrar seus próprios caminhos até os livros.

Felipe, por exemplo, não gostava de ler, mas conseguiu introduzir o hábito seguindo o exemplo do pai (um sócio da JGP), e hoje prefere obras de não-ficção. 

Já Catarina cresceu cercada por livros: é filha de Jorge Oakim, o fundador da editora Intrínseca. Começou pela Turma da Mônica, passou pelo autor juvenil John Green e hoje ama livros de terror.

Eduardo, por sua vez, entrou na leitura com a saga Harry Potter, que viu a irmã devorar durante a pandemia. Recentemente largou os livros de fantasia para focar em obras sobre o mercado financeiro, a área em que pretende atuar.

06 05 Catarina Oakim ok

Quando decidiu iniciar o projeto no ano passado, o trio teve um sucesso rápido em termos de arrecadação.

Estudantes das escolas Americana e Britânica do Rio, eles conseguiram mobilizar suas instituições de ensino e os pais dos alunos, juntando quase 5 mil livros.

O projeto enfrentou dificuldades, no entanto, para conseguir doar algumas obras, já que o trio – sabendo que a leitura é usada para reduzir penas de prisão no Brasil – decidiu focar seus esforços nos presídios. 

“A leitura nos presídios promove a ressocialização e é uma porta de entrada para o conhecimento e a cultura nestes ambientes,” eles disseram. “Mas não é um meio com muita abertura para menores de idade como nós, e a lista de livros que concedem remição de pena é muito restrita.”

Decidiram, então, ampliar o escopo de atuação do projeto. Não abandonaram os presídios, mas adicionaram escolas, bibliotecas e outras instituições à lista de postos de doação.

Resultado: o grupo abasteceu desde a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP) do Rio, até projetos sociais como a Oficina do Sucesso, na Rocinha.

06 05 Eduardo Campos ok

“Eles chegaram com um porta-malas cheio de livros e um coração cheio de generosidade,” disse Cecilia Carvalho, a criadora da Oficina, que oferece aulas de ciências, artes e esportes na maior favela do Brasil. “Ajudaram a montar nossa sala de leitura e, já nesse primeiro contato, contribuíram para impactar positivamente a vida de uma centena de crianças e adolescentes. Esperamos que eles voltem sempre.”

Agora, o Virando Páginas também começa a olhar para fora do Rio, com seu perfil no Instagram conectando o trio com voluntários e instituições que precisam de livros em todo o País.

O projeto Unidos de Paraisópolis, em São Paulo, foi um dos primeiros contemplados pelo grupo fora do Rio. E eles querem mais.

“Estamos buscando voluntários dispostos a ajudar para podermos expandir para mais cidades,” disseram. “Também pretendemos evoluir a estrutura do projeto com o tempo, mas vamos continuar cobrindo os custos para que qualquer arrecadação se transforme em doações.”