Participei esta semana de três conversas diferentes que tinham uma coisa em comum: relatos de comportamentos de pais e mães em grupos de WhatsApp da escola. Acusações, indignações em cascata, tribunais improvisados às 23h de uma terça-feira.
O absurdo de cada história importa menos do que aquilo que elas revelam em conjunto.
Minha primeira hipótese foi resgatar o ótimo O Deus da Carnificina, de Roman Polanski. Dois casais se encontram para conversar civilizadamente sobre uma briga entre os filhos e, em pouco tempo, a sala vira um ringue. A tese do filme é antiga e sedutora: a civilidade é um verniz fino, e basta o assunto certo (nossos filhos), para a velha selvageria aparecer. O grupo de WhatsApp seria apenas a versão tecnológica e ampliada disso.
Essa tese, porém, não explica um detalhe incômodo.
Dizem que as pessoas são cruéis na internet porque o anonimato as protege – mas o grupo de pais é o ambiente menos anônimo que existe. Todo mundo ali tem nome, sobrenome e foto. Todos sabem que vão se encontrar na porta da escola no dia seguinte. Mesmo assim, gente perfeitamente identificável às vezes se comporta ali de um jeito que dificilmente sustentaria em uma conversa presencial.
Duas pistas me parecem mais honestas do que a tese do verniz moral.
A primeira é que o que nos contém no dia a dia não é apenas a educação. É a presença do outro. O olhar que desaprova. A expressão de desconforto. O silêncio constrangedor depois de uma frase excessiva. A tela remove quase tudo isso. Sobra o nome, mas falta a pessoa. Escrevemos para uma foto de perfil estática como quem fala sozinho. E ninguém é especialmente gentil falando sozinho.
A segunda é que, em um grupo de pais, ninguém está apenas conversando. Todo mundo está, em alguma medida, sendo observado. Quando o assunto envolve crianças, existe uma pressão silenciosa para demonstrar publicamente que se é um bom pai ou uma boa mãe. A indignação acaba se tornando a linguagem mais eficiente para isso: quem se indigna mais alto parece se importar mais. A discussão deixa de ser apenas sobre o fato em questão e passa a ser também sobre reputação.
Mas existe uma camada adicional.
Os grupos de pais misturam três esferas que a sociedade normalmente mantém separadas: a comunidade de interesse, que existe para resolver questões práticas da vida escolar; a comunidade afetiva, porque o assunto envolve o que cada um tem de mais precioso, os próprios filhos; e a comunidade política, porque rapidamente surgem discussões sobre regras, justiça, privilégios, responsabilidades e autoridade.
Um grupo criado para avisar sobre piolho, passeio e uniforme descobre, rapidamente, que também é um pequeno parlamento.
Quando essas três dimensões ocupam o mesmo espaço, quase nenhum tema permanece pequeno por muito tempo. A reclamação sobre uma festa raramente é apenas sobre a festa. A discussão sobre um passeio raramente é apenas sobre o passeio. A crítica a uma decisão da escola raramente é apenas sobre aquela decisão. Por trás de cada episódio, aparecem debates sobre valores, comportamento – e o que cada um considera aceitável.
Talvez por isso a maioria escolha o silêncio. Silencia o grupo, acompanha o fluxo e não digita uma linha.
Este é o comportamento mais subestimado de todos. Os silenciosos não estão fora do jogo. Eles são o jogo. Ninguém faz discurso para uma sala vazia. O textão das 23h não é escrito para o adversário. É escrito para os quarenta que vão ler e não responder. A indignação só vira espetáculo porque existe arquibancada.
O problema é que o silêncio deles distorce o termômetro do grupo. Quando só os mais inflamados falam, a opinião de cinco passa a soar como a opinião de cinquenta. E todos, inclusive a direção da escola, calibram suas reações a partir dessa maioria artificial.
Mas é difícil culpá-los. Calar ali não é indiferença. É prudência. Em um espaço onde tudo fica registrado, printado, e onde se conviverá com as mesmas pessoas por anos, opinar custa caro. O silêncio é a única mensagem segura. Ainda assim, nem ele escapa à interpretação alheia. “Fulana visualizou e não disse nada.”
Por tudo isso, esses grupos são uma experiência social peculiar. Representam um dos poucos espaços restantes em que pessoas que não se escolheram precisam conviver durante anos. Em uma época em que selecionamos com cuidado quem seguimos, quem ouvimos e com quem interagimos, o grupo da escola reúne passados, repertórios, temperamentos e visões de mundo radicalmente diferentes, conectados por um único ponto em comum.
Esses grupos falam muito pouco sobre rotina escolar. Falam sobre convivência, pertencimento, reputação, autoridade. E sobre como lidamos com diferenças reais quando não temos a opção de simplesmente unfollow.
Alexandre Loures é sócio da FSB Holding.











