Num País profundamente polarizado e em que muita gente tem medo de expressar opiniões, um gestor da Faria Lima tem se destacado como um improvável porta-voz do incômodo geral com a política e a economia.
Nos últimos 18 meses, Walter Maciel – o CEO da AZ Quest, uma gestora com quase R$ 40 bilhões em ativos – construiu uma presença digital que hoje inclui mais de 400 mil seguidores, tornando-se um dos empresários mais vocais em advogar por uma mudança de Governo, sempre citando os rumos da economia como a motivação principal.
Quando estreou no Instagram, Maciel postava inicialmente sobre investimentos, a economia e seu dia a dia como gestor – mas decidiu focar em política quando percebeu que era impossível falar de economia sem falar de Brasília.

“No Brasil, se você só sabe de empresas, você quebra. O Supremo muda um entendimento e isso pode ter um impacto enorme nas empresas. Tem muita incerteza, muita insegurança. Não dá para falar de economia sem falar do que o Governo está fazendo,” ele disse ao Brazil Journal.
Sua maior motivação, no entanto, é seu descontentamento cada vez maior com o rumo do País. Maciel disse que tem “diferenças éticas e morais com o PT”, mas que sua maior preocupação com o atual Governo é “um País prestes a entrar em dominância fiscal.”
“E eles [o PT] vão dobrar a aposta! Já falaram isso publicamente. Como vou ficar calado vendo isso acontecer?”
Mas nem só de política e economia vive o agora influenciador. Ele já fez vídeos sobre a ética de Clint Eastwood no filme Unforgiven; as lições de Muito Além do Jardim, o último filme estrelado por Peter Sellers; e sobre o estoicismo.
Seu maior hit recente, no entanto, foi o vídeo em que desancou o Ministro Flávio Dino por ter usado o santo nome de Aristóteles em vão na fatídica sessão do STF que deixou tudo como está.
Naquela sessão, dirigindo-se a Edson Fachin, Dino disse: “A ironia serve para descontrair o ambiente. Aristóteles!”
Em seu vídeo, Maciel corrigiu o Ministro, lembrando que a frase não é de Aristóteles – e sim de Górgias, um sofista. E os sofistas, disse ele, são “a categoria que Aristóteles definiu, por escrito, como ‘homens que vendem sabedoria aparente, não real’. O filósofo apenas registra a frase [citada por Dino] para condená-los.”
E terminou o vídeo assim: “Virtude para Aristóteles não é citar, é fazer. Quem cita a régua e entorta a régua não é sábio, é sofista. E sofista sempre fala bonito. Por isso, é melhor a gente ler e conhecer o que a gente cita, pra não pagar mico!”
O vídeo – visto por mais de 3 milhões de pessoas – repercutiu tanto que fez o próprio Dino se manifestar, dizendo ser vítima de um preconceito “regional e racista” pelo fato de ser do Maranhão.
Depois de se formar em economia na PUC-Rio – onde foi aluno de nomes como Gustavo Franco, Edmar Bacha e Dionisio Dias Carneiro – Maciel começou no mercado na mesa internacional e na tesouraria do Safra, e depois trabalhou no Banco Garantia.

Quando entrou na AZ Quest, em 2006, a gestora tinha apenas R$ 200 milhões de recursos sob gestão e apenas um fundo macro.
Três anos depois, a gestora já administrava R$ 3,5 bilhões – mas sofreu um baque na crise de 2008, quando viu seus quatro maiores clientes (os fund of funds dos grandes bancos) sacar praticamente todos os recursos, o que derrubou o AUM da gestora da noite para o dia para R$ 500 milhões.
Maciel disse que tirou duas lições desse episódio: “Não posso depender de um cliente, e não posso depender de um produto.”
A terceira grande lição ele aprendeu anos depois, quando o gestor do fundo de renda variável da AZ Quest – então a estrela da casa – decidiu deixar a gestora com outros cinco analistas. “Aprendi ali que não posso depender também de um único gestor estrela.”
Hoje a AZ Quest administra R$ 38 bilhões divididos em 18 estratégias e 180 produtos. O time não depende de um único nome, e o passivo é extremamente pulverizado – com mais de 350 mil investidores, entre pessoas físicas e fundos. (A ideia de começar a ter uma presença nas redes sociais foi justamente para conseguir falar com toda essa base de investidores.)
Nas redes sociais, o quadro mais impactante de Maciel é o ‘Vou dizer o que precisa ser dito,’ um bordão que pega na veia o zeitgeist de um País onde muita gente hoje só diz o que pensa no privado.
“Boa parte da elite brasileira está acovardada, com uma posição passiva e sem nenhum sentimento de cidadania,” diz Maciel. “Nos últimos anos, criamos uma sociedade onde é cada um por si, em que só se pensa no próprio interesse.”
Os outros dois quadros de Maciel são o ‘Bônus Cultural’, onde ele fala de filmes, livros e filosofia; e o ‘Economia sem jargão’, onde explica temas como inflação e dominância fiscal.
Todo o texto dos vídeos é escrito por Maciel, que também faz as gravações sozinho com seu celular. Uma equipe faz a edição final.
Apesar de falar de política e ter um candidato claro – Flávio Bolsonaro, “no primeiro turno” – Maciel nunca foi filiado a um partido.
“Minha causa é que estou vendo um País desabando. Não posso ficar calado. Tenho minhas empresas aqui, meus funcionários aqui, meus cinco filhos aqui. Não vou fugir do Brasil em hipótese alguma. Se o Lula ganhar, vou continuar aqui lutando. E posso falar o que eu penso justamente porque não quero nada pra mim.”











