Não tenho nostalgia de um Brasil honesto que nunca existiu, mas lembro do País em que cresci, da época da redemocratização. Minha memória política é marcada por cobranças fortes sobre ética e moral, uma cobrança que vinha especialmente dos mais jovens e da imprensa.

Aquele Brasil da minha adolescência impôs custos políticos relevantes aos envolvidos em escândalos – escândalos que hoje seriam considerados pequenos. Uma Fiat Elba levou os “caras pintadas” às ruas, e uma gafe de Rubens Ricupero e uma quebra de sigilo derrubaram dois poderosos ministros da Fazenda.

Benedita da Silva protagonizou o primeiro escândalo de um governo petista em 2003, quando se hospedou em um hotel de luxo em Buenos Aires. Imaginem só. Nada de Macallans, jatinhos, dinheiro vivo ou festas em Lisboa – só uma simples estrela a mais na categoria do hotel. E a ministra caiu.

O Petrolão parecia ser o limite. As ruas gritavam e o Jornal Nacional (então muito mais relevante) ratificava: “basta de corrupção”.

Eu mesmo fui às ruas, e me lembro da empolgação de meus amigos com um Brasil que poderia dar certo – a juventude convicta de que teríamos um futuro decente.

Se 10 anos atrás – com Moro como herói nacional, Lula e Sérgio Cabral presos, e a ânsia por justiça à flor da pele – tivessem me dito que em apenas uma década estaríamos no pior momento de degradação moral de uma nação, eu dificilmente acreditaria.

A dúvida persiste: como chegamos até aqui?

O argumento mais frequente, e talvez em parte correto, é que a degradação moral atual é resultado de duas décadas de hegemonia de um partido que não anda só no acostamento: anda na contramão.

“Para que o mal triunfe, basta que os homens bons não façam nada,” ensinou Edmund Burke.

No Brasil, onde infelizmente a cadeia é só para os pobres, a justiça teria que vir das ruas e da imprensa.  Mas onde eles se esconderam? 

Não acredito que a corrupção endêmica seja suficiente para a desistência e o esgotamento do brasileiro. Observando a história, fica claro que toda grande mudança importante tem um evento que a marca – e a saída de Sergio Moro pela porta dos fundos do Governo Bolsonaro marcou o fim da Lava Jato e a esperança de um país honesto. Jogamos no lixo uma longa revolução iniciada pelo povo, mas derrotada por interesses pessoais.

Observando o silêncio das ruas sobre a derrota de Moro, o ‘sistema’ se aproveitou de fragilidades e erros processuais para anular a condenação de Lula e enterrar a Lava Jato. Multas bilionárias de corruptos confessos foram anuladas em decisões monocráticas.

A minha conclusão é que o partidarismo que infectou as discussões morais destruiu nossa vigilância. Não há uma preocupação prioritária com o que é correto – apenas em ajustar os fatos para que os argumentos se encaixem, ou para acusar o outro lado.

O argumento – hegemônico na imprensa tradicional e na classe artística – de que o risco democratico se sobrepõe ao resto, e portanto esse resto deve ser relativizado, é superficial. O ataque à democracia começou lá atrás com a compra da casa do povo, o Congresso, no Mensalão. 

Já o argumento antagônico – o de que não se podia criticar o Governo Bolsonaro “senão o Lula volta” – caiu por terra. Lula voltou, e perdemos nesse processo a superioridade moral de não tergiversar com corrupção. Caímos num esgoto onde ela deixou de importar. Hoje vivemos sob o domínio de criminosos, corruptos e traficantes.

Não sou inocente. Não ignoro a regra do jogo de uma eleição presidencial majoritária. Não estamos no parlamentarismo, e o segundo turno no nosso desenho político é, quase que por definição, a escolha do menos pior.

Adlai Stevenson, o Governador de Illinois que perdeu a eleição presidencial americana para Eisenhower, ficou famoso entre outras coisas por um diálogo que teve com uma eleitora.

“Governor, every thinking person in America will be voting for you!”

“That’s not enough, madam. I need a majority.”

Proponho que façamos diferente dessa vez, seja qual for o resultado de domingo: permaneçamos vigilantes e nas ruas no primeiro dia. Não podemos aceitar mais um grande acordo, com o Supremo e tudo.

Isto não se confunde com oposição, qualquer governo precisará de apoio para importantes reformas, mas nós, aqueles que tivemos a sorte de ser bem educados num país miserável, não podemos nos dar ao luxo de novamente fechar os olhos para erros institucionais e morais.  

Precisamos retomar o dever de vigiar nossos líderes, tanto no autoritarismo quanto na moralidade, também essencial para a democracia. 

 

João Landau é fundador da Vista Capital.