A China é um Estado da engenharia, liderado por engenheiros, que não consegue parar de construir.

Os EUA já foram assim no passado – mas passaram a ser uma sociedade legalista, comandada por advogados e obcecada muito mais com processos e regras do que com estratégias e resultados. 

Esse é o insight central de A Todo Vapor, de Dan Wang, um ex-consultor da Gavekal que viveu anos na ponte-aérea São Francisco-Xangai.

O livro repercutiu bastante nos EUA no ano passado, e agora acaba de chegar ao Brasil pela Intrínseca. (Compre aqui)

Deng Xiaoping, o líder das reformas que levaram ao aumento da produtividade, promoveu diversos engenheiros aos mais altos escalões. Desde então, são eles que estão no timão.

O presidente Xi Jinping fez Engenharia Química. Hoje em seu terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista, mantém no Politburo executivos provenientes dos ministérios da área aeroespacial e de armamentos.

xi jinping

“Nos EUA, seria como se o CEO da Boeing se  tornasse governador do Alasca, o presidente da Lockheed Martin fosse ministro da Energia e o diretor da NASA governasse um estado como a Geórgia,” escreve Wang.

Nascido na China e criado no Canadá, Wang sabe como é viver numa sociedade liberal e numa que, apesar de se dizer socialista, mais se parece com um governo autoritário que “põe em prática uma agenda de direita que daria água na  boca dos conservadores do Ocidente” – machista e repressor, com enormes barreiras à imigração e ínfimos benefícios sociais. 

Para o autor, os líderes chineses não são apenas engenheiros civis ou eletrônicos: “São, fundamentalmente, engenheiros sociais.” 

Ao mesmo tempo, a China de hoje lembra em muitos aspectos os EUA de um século atrás – uma nação de projetos de engenharia ambiciosos que precisava provar ao mundo e a si mesma que era uma superpotência.

Mas a partir dos anos 1960, os americanos deixaram de lado seu ímpeto industrial, que muitas vezes era de fato destrutivo ao ambiente e à qualidade de vida. Ganharam influência no Governo e no Congresso os advogados e os ativistas.

“Os EUA têm um Governo de advogados, feito por advogados e para advogados,” afirma Wang.

No Governo de Joe Biden – formado em Direito – advogados saídos de Yale, “dispostos a ignorar a lógica da mão invisível”, tiveram mais voz a respeito de temas econômicos do que os próprios economistas.

Impossível não pensar no Brasil. O atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, e seu antecessor, Fernando Haddad, formaram-se em Direito no Largo São Francisco. Entre senadores e deputados, a formação acadêmica preponderante é o Direito.

Deixando de lado os 15 militares, os advogados predominam na Presidência desde a República Velha.

Entre nossos 28 presidentes civis, 21 tinham formação jurídica. Houve apenas um engenheiro – Itamar Franco – e dois economistas – Fernando Collor e Dilma Rousseff.

O Brasil é um dos países do mundo com o maior número de advogados – 1 para cada 164 pessoas – uma proporção muito maior do que a dos EUA, onde há 1 para cada 253 habitantes.

Na opinião de Wang, embora os advogados tenham contribuído na correção de mazelas do passado, a “sociedade legalista” criou duas “patologias” que debilitam o potencial dos EUA.

A primeira é o “predomínio do processo sobre os resultados”. Gasta-se mais energia com comissões do que com estratégias e objetivos.

A outra doença da sociedade legalista é o “viés sistemático a favor dos mais abastados”. Os advogados costumam ser servidores daqueles que já têm mais dinheiro e poder.

Wang reconhece que os EUA têm conseguido crescer mais rápido do que outros países do Ocidente graças ao sucesso de suas companhias. Mas, politicamente, o predomínio do legalismo tem erodido a confiança da sociedade na capacidade do Governo de entregar melhorias para a população.

“Os EUA devem voltar a construir e, com isso, criar um impulso e um senso de otimismo para o futuro,” escreve o autor.    

Eficiente em muitos aspectos, o modelo chinês possui também enormes fragilidades – e por isso o país provavelmente nunca irá superar os EUA, na opinião de Wang. Os líderes comunistas não confiam no povo e não sabem como atrair pessoas talentosas. 

“Beijing nunca será capaz de espelhar a melhor característica dos EUA: a defesa do pluralismo e dos direitos individuais,” diz Wang. “Beijing não vai reconhecer que as pessoas criativas e empreendedoras que está levando ao exílio não são o inimigo. Não vai admitir que a energia criativa dessas pessoas pode trazer para a China tanto prestígio quanto as grandes obras públicas.”     

A seguir, um excerto do livro.

Engenheiros versus advogados

O Vale do Silício pode ser um lugar incrivelmente monótono. O sul da península de São Francisco tem belezas naturais, com direito a colinas e vista para o mar, mas é difícil ter um vislumbre delas em meio a tantos centros empresariais. Mountain View e Menlo Park estão cheias de lojas de tapetes,  algo inusitado, de modo que, quando passo pelas cidades que abrigam as sedes das líderes em AI e das empresas mais ricas  do mundo, me pego pensando: Este é o coração pulsante de  nossa civilização em constante avanço tecnológico? 

Toda vez que viajo da Califórnia para Hong Kong ou Xangai, me sinto quase desconcertado ao encontrar uma estrutura funcional. Sair do aeroporto de metrô (e não de Uber) é um jeito fantástico de ser recebido na Ásia. Levo uns instantes saboreando uma estação limpa, bem iluminada, com trens que  passam a cada poucos minutos e podem me levar a um centro cheio de áreas comerciais vibrantes, outra característica  ausente em São Francisco. A vida na Bay Area, um dínamo econômico do mais rico dos estados do país, pode ser estranhamente disfuncional. São Francisco tem sido incapaz de  atender a população em situação de rua, e mesmo pessoas ricas precisam ter um gerador em casas tão dispendiosas, porque o estado é incapaz de manter as luzes acesas. 

A contradição da Bay Area, centro fervilhante da criação empresarial de valor circundado pela disfunção, alimenta a pesquisa deste livro. Quando saí do Vale do Silício para a China, em 2017, parecia evidente que os EUA haviam  perdido algo especial ao longo das quatro décadas anteriores. Enquanto a China construía o futuro, os EUA tinham permanecido estáticos no campo material, com as inovações ligadas sobretudo à área virtual e à financeira. 

Ao observar os dois países, cheguei a compreender a inadequação de rótulos do século XX como capitalista, socialista e, o pior de todos, neoliberal. Eles já não estão à altura da tarefa de nos ajudar a compreender o mundo, se é que algum  dia estiveram. Os EUA capitalistas interferem no livre mercado com um programa de regulamentação e taxação, ao mesmo tempo que proporcionam políticas redistributivas robustas (ainda que imperfeitas). A China socialista prende organizadores de sindicatos, institui impostos moderados e proporciona uma rede de seguridade social precária. O maior truque que o Partido Comunista já executou foi se fantasiar de esquerdista. Enquanto Xi Jinping e o restante do Politburo murmuram ladainhas marxistas, o Estado põe em prática uma agenda de direita que daria água na  boca de conservadores do Ocidente: administrar um limitado bem-estar social, erigir enormes barreiras à imigração e instituir papéis de gênero tradicionais, em que os homens devem  ser machões e as mulheres, criar filhos. 

A China é um Estado da engenharia, que não consegue parar de construir, em oposição à sociedade legalista dos EUA, que bloqueia tudo que pode. 

Os engenheiros, de forma quase literal, têm governado a China moderna. Como correção aos anos turbulentos da era Mao, Deng Xiaoping promoveu engenheiros aos mais altos cargos do governo chinês ao longo das décadas de 1980 e 1990. Em 2002, todos os então nove membros do Comitê Permanente do Politburo, a instância mais elevada do  Partido Comunista, tinham formação em engenharia. O ex-secretário-geral Hu Jintao formou-se em engenharia hidráulica e passou uma década construindo represas. Os oito  pares dele teriam sido capazes de comandar um conglomerado da indústria pesada soviética: tinham especialização  em eletrônica de válvulas e engenharia térmica. 

Xi Jinping estudou Engenharia Química em Tsinghua, a principal universidade da China na área científica. No terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista,  iniciado em 2022, Xi encheu o Politburo de executivos provenientes dos ministérios da área aeroespacial e de armamentos. Nos EUA, seria como se o CEO da Boeing se  tornasse governador do Alasca, o presidente da Lockheed Martin fosse ministro da Energia e o diretor da NASA governasse um grande estado, como a Geórgia. As elites governantes da China têm experiência prática no comando de  megaprojetos, o que sugere, mais do que nunca, que a China  continua a apostar nos engenheiros e a priorizar a defesa. 

O que os engenheiros gostam de fazer? Construir.

Desde 1980, quando se iniciaram as reformas de Deng, a China expandiu as autoestradas em um montante equivalente ao dobro da extensão dos sistemas viários estadunidenses, construiu uma rede ferroviária de alta velocidade vinte vezes mais extensa do que a equivalente no Japão e instalou quase tanta capacidade de produção de energia solar e eólica quanto os demais países do mundo inteiro.

Já os EUA, em comparação, têm um governo de advogados, feito por advogados e para advogados. Cinco dos dez últimos presidentes frequentaram faculdades de Direito. Sai ano, entra ano e pelo menos metade do Congresso estadunidense tem diploma em Direito, enquanto, no melhor dos  casos, um punhado de membros tem formação em Ciência ou Engenharia. De 1984 a 2020, todos os candidatos indicados  pelos democratas à presidência e à vice-presidência vinham de faculdades de Direito e grande parte das elites do Partido  Republicano, assim como os altos escalões do serviço público, é integrada por advogados. Em comparação, apenas dois presidentes estadunidenses eram engenheiros: Herbert Hoover, que  fez fortuna na mineração, e Jimmy Carter, que serviu como oficial engenheiro em um submarino nuclear. Hoover e Carter são lembrados por muitas coisas, mas acima de tudo pelos instintos políticos terríveis que desembocaram em esmagadoras derrotas eleitorais. 

Os advogados possibilitam alguns dos êxitos do Vale do Silício. Não se pode montar empresas que valem trilhões sem proteção legal. Mas os advogados são também parte do motivo pelo qual a Bay Area e grande parte do país sofrem com a falta de habitação e transporte público. Os EUA já foram, como a China, um Estado da engenharia. Na década de 1960, entretanto, as prioridades dos advogados de elite passaram por uma guinada brusca. Enquanto os estadunidenses  tornavam-se cada vez mais alarmados com os desagradáveis subprodutos do crescimento – como destruição ambiental, construção excessiva de autoestradas e predomínio dos interesses empresariais sobre o interesse público –, o foco dos advogados voltou-se para o litígio e a regulação. A missão tornou-se impedir tudo que fosse possível.