Eu li o longo artigo que João Moreira Salles publicou na revista piauí, intitulado O que esses brasileiros sabem, e resolvi escrever este porque aquele artigo é muito mais do que uma crítica a Flávio Bolsonaro.
A tese de Salles é simples. Existe uma elite empresarial e financeira que sabe exatamente quem são os Bolsonaro, conhece a homenagem de Jair Bolsonaro a Brilhante Ustra, conhece Queiroz, Adriano da Nóbrega, as acusações envolvendo milícias e o Oito de Janeiro e, apesar disso, aceita conversar e jantar com Flávio Bolsonaro.
Segundo Salles, essas pessoas sabem de tudo isso, mas estariam dispostas a tolerar o risco que ele atribui a Flávio porque querem responsabilidade fiscal, redução de impostos, privatizações, menos regulamentação, corte de gastos e diminuição do Estado.
O argumento chega ao ponto de reduzir a escolha moral desses empresários a uma alternativa entre irresponsabilidade fiscal e tortura. E trata Flávio essencialmente como uma extensão política e moral do pai.
Foi por isso que resolvi escrever esse texto.
Não para defender Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Ustra, Queiroz ou quem quer que seja. Muito antes, pelo contrário. O que me interessa aqui é a régua utilizada por João Moreira Salles.
Ele começa seu ensaio distinguindo duas atitudes diante da realidade: compreender e acreditar. É uma distinção importante. Tão importante que vale aplicá-la ao seu próprio texto.
Eu acrescentaria uma terceira possibilidade: selecionar.
Selecionar os fatos que confirmam uma conclusão previamente desejada, excluir aqueles que a perturbam e depois apresentar o resultado dessa seleção como produto inevitável da razão. Isso não é compreender. É racionalizar.
Para mim, democracia não é um valor moral primário. Vida, Liberdade e Justiça são. Direitos individuais são.
Democracia é apenas um método para escolher governantes e substituí-los sem violência. Seu valor está subordinado aos direitos que deve proteger. Se 99 pessoas votarem para confiscar a propriedade da centésima, o placar de 99 a 1 não transforma roubo em justiça. Se uma maioria autorizar censura ou prisão sem devido processo, a urna não santifica a coerção.
Por isso, antes de perguntar quem ameaça a democracia, eu perguntaria: quem ameaça os valores primários e os direitos individuais?
Tortura é abjeta porque viola brutalmente direitos individuais. Ditadura também. Milícia, terrorismo, censura estatal, prisão arbitrária, confisco e violação do devido processo devem ser julgados pelo mesmo princípio.
Não existe uma moral para o meu adversário e outra para o meu aliado.
Salles dedica enorme espaço a Carlos Alberto Brilhante Ustra. Que se examine Ustra. Se torturou, que seja chamado de torturador. Tortura não ganha dignidade porque foi praticada contra comunistas ou adversários de uma ditadura.
Mas daí não decorre aquilo que Salles precisa que decorra.
Jair Bolsonaro ter homenageado Ustra não transforma Flávio Bolsonaro em torturador. Flávio defender o pai não transforma um empresário que conversa com ele em defensor de Ustra. E jantar com Flávio não transforma ninguém em cúmplice de uma futura ditadura.
Isso é culpa por associação.
Ustra contamina Jair. Jair contamina Flávio. Flávio contamina Queiroz, Ciro Nogueira, Cláudio Castro e outras pessoas de seu entorno. Finalmente, a contaminação chega a André Esteves, Roberto Campos Neto, Rubens Ometto, Pedro Parente, Richard Gerdau e aos empresários que aceitaram conversar com Flávio.
Não é assim que funciona justiça.
Justiça significa avaliar cada indivíduo por seu próprio caráter e por suas próprias ações. Se alguém cometeu um crime, prove o crime e responsabilize essa pessoa. Se outro participou, prove a participação. Se financiou, ordenou, ocultou ou conscientemente auxiliou o crime, demonstre o nexo causal.
Sentar à mesa não é aderir. Conversar não é endossar. Conhecer não é participar. Ser filho não é ser o pai.
E aqui aparece uma incoerência especialmente interessante na régua escolhida por João Moreira Salles.
Seu pai, o banqueiro Walther Moreira Salles, havia sido ministro da Fazenda de João Goulart. No final de 1963, poucos meses antes do golpe militar, mantinha interlocução tanto com Goulart quanto com Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil.
Há registros diplomáticos dessas conversas. Em dezembro de 1963, Walther conversou com Gordon, depois encontrou-se com Goulart e voltou a falar com o embaixador americano, transmitindo-lhe um resumo da conversa que tivera com o presidente.
Isso faz de Walther Moreira Salles um golpista?
Não.
Conversar com Lincoln Gordon não prova participação em golpe algum. Manter relações com pessoas envolvidas numa crise política não significa compartilhar suas intenções. Para atribuir responsabilidade moral a alguém é preciso demonstrar aquilo que essa pessoa efetivamente fez.
Mas então a mesma regra precisa valer para os outros.
Por que empresários que conversam com Flávio Bolsonaro em 2026 estariam legitimando aquilo que João atribui aos Bolsonaro, enquanto a interlocução de Walther Moreira Salles com Lincoln Gordon às vésperas de 1964 não produziria automaticamente a mesma culpa por associação?
Eu não uso a relação de Walther com Gordon para condená-lo.
Uso-a para mostrar por que a régua de João está errada.
Ou conversar com alguém não significa endossar seus atos e suas ideias, e então os empresários citados no artigo precisam ser julgados pelo que eles próprios fizeram, ou significa, e João terá de aceitar que a mesma lógica seja aplicada ao próprio pai.
Justiça não admite dois pesos e duas medidas.
Curiosamente, o próprio Salles percebe parte do problema quando afirma que jornalistas podem entrevistar pessoas sem legitimá-las. Mas cria uma exceção para empresários: jornalista pode conversar; empresário, ao conversar, legitima.
Por quê?
Ele não demonstra.
Um empresário tem o mesmo direito de ouvir um candidato, questioná-lo, discordar dele e descobrir o que pretende fazer caso seja eleito.
Informação não é sanção moral.
Sanção pressupõe aprovação, legitimação ou cooperação consciente. Transformar uma conversa em endosso é esvaziar o próprio conceito.
Há outro problema ainda mais profundo.
Salles afirma saber o que essas pessoas sabem.
“Sei que sabem.”
Não, ele não sabe.
Pode demonstrar que determinada informação foi publicada, que alguém recebeu um documento, fez uma declaração ou participou de uma reunião. Mas não pode penetrar na consciência de dezenas de indivíduos e declarar quais fatos conhecem, como os integraram e quais conclusões extraíram deles.
“Sei que sabem porque conheço o mundo social em que vivem” não é evidência.
É uma inferência sobre a consciência alheia apresentada como fato.
O mesmo acontece quando atribui aos empresários vaidade, interesses particulares ou uma “vertigem quase erótica da influência política”.
Como sabe?
Não sabe.
É literatura apresentada como epistemologia.
Mas a maior distorção aparece no falso dilema que sustenta o artigo.
Salles reduz a escolha moral dos empresários a isto: de um lado, irresponsabilidade fiscal; do outro, tortura. Chega a escrever que conversar com Flávio equivaleria a declarar: “entre a irresponsabilidade fiscal e a tortura, fico com a tortura”.
Isso é um “package deal”, uma falácia: empacotam-se fenômenos diferentes sob duas alternativas emocionalmente carregadas e exige-se que o leitor escolha uma delas.
Nenhum empresário citado está escolhendo entre tortura e responsabilidade fiscal. Nenhum candidato está propondo substituir ajuste fiscal por uma política pública de tortura.
Pode-se condenar inequivocamente a tortura e, simultaneamente, considerar dívida pública, inflação, impostos, gasto estatal, insegurança jurídica, censura e abuso institucional ameaças aos direitos individuais.
Uma coisa não apaga a outra.
Salles também fala de programas sociais como se a discussão fosse essencialmente sobre compaixão.
Não é.
A pergunta moral anterior é: de quem é o dinheiro?
O fato de alguém precisar de alguma coisa não cria sobre outra pessoa a obrigação jurídica de fornecê-la. Necessidade não é título de propriedade. Se fosse, quanto maior a necessidade de alguém, maior seria seu direito sobre a vida e o patrimônio de quem produz.
Direitos não são reivindicações sobre os bens alheios.
Direito à vida significa liberdade para sustentar a própria vida. Direito à propriedade significa liberdade para adquirir, usar e dispor do que é seu. Direito à liberdade significa ausência de coerção iniciada por outras pessoas, inclusive quando agem através do Estado.
E considero igualmente condenável o corporativismo que muitos chamam erroneamente de “capitalismo de compadrio”. A expressão é uma contradição nos termos.
Subsídio, proteção regulatória, financiamento favorecido e qualquer mecanismo pelo qual empresários utilizem o Estado para transferir riqueza de terceiros para si não têm nada a ver com capitalismo.
Caracteriza o estatismo contido em sistemas socialistas como o fascismo.
Se existem empresários defendendo benefícios estatais para si enquanto pedem o fim dos benefícios dos outros, que sejam criticados por isso.
Mas dois privilégios não produzem justiça.
Produzem dois privilégios.
Chegamos então ao “golpe”, expressão que Salles utiliza como se resolvesse a discussão.
Não resolve.
No Oito de Janeiro houve invasão, vandalismo e destruição de patrimônio público. Quem destruiu, agrediu ou invadiu ilegalmente deve responder pelo que fez. Mas daí a concluir que aquelas pessoas tinham capacidade objetiva para tomar o poder no Brasil existe uma distância que precisa ser demonstrada.
O STF adotou juridicamente a tese de tentativa de golpe e houve condenações com base nessa interpretação dos acontecimentos. As defesas contestaram essa caracterização. A existência de uma decisão judicial é um fato; ela não dispensa o exame independente dos fatos e dos argumentos.
Minha conclusão é que os elementos conhecidos não demonstram uma tentativa efetiva de tomada do poder.
Pode ter havido gente desejando impedir a posse de Lula. Houve conversas, documentos, propostas e articulações que devem ser examinados individualmente. Mas Lula tomou posse. O Congresso permaneceu funcionando. O STF não foi dissolvido. As Forças Armadas não depuseram o presidente eleito. Pelo contrario, assessoraram a PolíciaFederal na prisão dos manifestantes. Inclusive os que não participaram do vandalismo. Nenhum decreto de ruptura entrou em vigor. Nenhuma força assumiu o controle do Estado, a não ser aquele que foi eleito para isso. Bolsonaro sequer estava no Brasil em 8 de janeiro.
Uma multidão vandalizando prédios públicos pode cometer crimes graves sem possuir meios objetivos para derrubar um governo?
Intenção, preparação e execução não são a mesma coisa.
A pergunta correta continua sendo: quem fez o quê, com quais meios e qual nexo causal?
Isso importa porque Salles constrói parte importante de sua condenação dos empresários sobre a premissa de que eles estariam conscientemente tolerando uma tentativa de golpe. Se a premissa precisa ser demonstrada, a condenação moral que depende dela também precisa.
Há ainda uma ausência monumental no ensaio.
Se a tese é identificar ameaças aos direitos, às instituições e ao Estado de Direito, não basta investigar aquilo que Jair Bolsonaro disse em 2016 ou pessoas ligadas a Flávio fizeram ao longo dos anos.
É necessário aplicar a mesma lupa ao poder exercido hoje.
E é justamente aí que aparece outra seleção conveniente no texto de Salles: a indulgência com a esquerda e sua própria história de violência e autoritarismo.
Se Ustra, corretamente, não pode ser apagado da história da direita brasileira, por que a violência praticada e defendida por organizações revolucionárias de esquerda desapareceria da avaliação moral do outro lado?
Se relações políticas, elogios, companhias e afinidades ideológicas servem para julgar Flávio Bolsonaro, a mesma régua precisa valer para Lula e para o PT.
Lula e o PT mantiveram ao longo de décadas relações políticas com governos autoritários da esquerda latino-americana. O Brasil também mantém relações com regimes autoritários fora do continente, inclusive o Irã, a quem Lula trata com temerária cumplicidade.
Relação diplomática, por si só, evidentemente não significa adesão moral.
Esse é exatamente o ponto.
Não se pode transformar proximidade, interlocução e associação em prova moral quando se trata dos adversários e, quando a mesma lógica alcança os aliados, subitamente exigir provas de atos individuais.
Se João pretende investigar autoritarismo, violência política e uso arbitrário das instituições do Estado, precisa investigar todos com a mesma régua. Precisa olhar para a esquerda brasileira sem a lente romântica que transforma seus excessos em acidentes históricos, suas alianças em simples pragmatismo e eventuais abusos institucionais praticados em nome da democracia em algo que não mereça o mesmo escrutínio.
Ou associação significa culpa ou não significa.
Ou autoritarismo é condenável por princípio ou depende de quem o pratica.
Eu prefiro uma regra mais simples: cada indivíduo responde pelo que faz, cada governo pelo poder que exerce e cada instituição pela coerção que efetivamente pratica.
Poder político significa coerção.
Para uma filosofia fundada nos direitos individuais, a pergunta crucial não é quem pronuncia mais vezes a palavra democracia. É quem possui poder para iniciar a força contra cidadãos pacíficos e quais limites objetivos existem para seu exercício.
Também não aceito transformar “democracia” numa palavra mágica capaz de suspender a avaliação moral do governo Lula.
Um governante eleito continua sujeito aos mesmos princípios. Não recebe licença para violar propriedade, expressão, associação ou devido processo porque venceu uma eleição.
A urna decide quem ocupa determinados cargos.
Não decide o que é verdadeiro.
Não decide o que é justo.
Muito menos transforma coerção em liberdade.
Nada disso inocenta Bolsonaro.
Esse é exatamente o ponto.
Não preciso inocentar Bolsonaro para criticar Lula, nem inocentar Lula para criticar Bolsonaro. Não preciso absolver Ustra para condenar abusos cometidos hoje. Não preciso escolher uma tribo para reconhecer um fato.
A realidade não tem partido.
E justiça não admite culpa hereditária.
Flávio Bolsonaro deve responder por Flávio Bolsonaro. Jair Bolsonaro deve responder por Jair Bolsonaro. Lula deve responder por Lula. Ciro Nogueira deve responder por Ciro Nogueira. André Esteves deve responder por André Esteves.
Cada homem pelos seus atos.
Quando Salles escreve que Flávio “nada mais é do que o filho do pai”, talvez produza uma frase literariamente eficiente. Filosoficamente, porém, nega a autonomia moral do indivíduo justamente quando passa o artigo inteiro exigindo autonomia moral dos empresários.
O indivíduo não herda culpa.
Nem virtude.
Nem caráter.
Se Flávio cometeu crimes, demonstrem-se os crimes. Se ameaçou direitos, mostrem-se as ameaças. Se defendeu medidas autoritárias, citem-se as medidas. Se mentiu, confronte-se a mentira com os fatos.
Há material suficiente para julgá-lo sem transformá-lo numa extensão metafísica do pai.
No final, Salles volta à pergunta moral: o que cada um faria diante daquilo que vê?
Eu aceito a pergunta.
Só não aceito que João Moreira Salles escolha por mim aquilo que devo ver.
Eu vejo tortura e a condeno. Vejo milícias e as condeno. Vejo corrupção e a condeno. Vejo vandalismo político e o condeno.
Mas também vejo o Mensalão, o Petrolão, o roubo do INSS, o caso Master, a capa da revista Crusoé com a frase “O amigo do amigo do meu pai”, o Inquérito do Fim do Mundo, o fim da Lava Jato, a Constituição dentro de uma lata de lixo, jogada ali por quem deveria protegê-la mas que prefere abandoná-la para sustentar o regime, e submeto tudo à mesma régua e também os condeno.
O princípio vem antes do personagem.
Compreender exige integrar todos os fatos relevantes por princípios não contraditórios. Acreditar permite escolher primeiro a conclusão e selecionar depois os fatos que a tornam confortável.
João Moreira Salles pergunta o que esses brasileiros sabem.
Eu faria outra pergunta:
O que João Moreira Salles decidiu não ver?
E, depois dessa defesa de Lula feita por João Moreira Salles, talvez esteja na hora de mudar também o nome da revista.
Eu sugiro, em nome da integridade e da ironia ácida, que Salles troque o nome da sua revista de piauí por maranhão.
Eu sugiro também que, em nome da alternância no poder, se troque Lula por Flávio, democraticamente, neste domingo.
O que vocês acham?
Roberto Rachewsky é co-fundador e ex-presidente do IEE, do Instituto Liberdade e do Instituto Atlantos e autor dos livros “O Grego, o Frade e a Heroína”, “O Mínimo sobre Ayn Rand” e “Filosofia em Dó Maior.”











