Valéria (nome fictício) cresceu numa comunidade da Baixada Fluminense, com um pai que conheceu do pior modo: pelo exemplo do que não se deve ser.

Ausente e ligado ao tráfico, ele era o retrato de uma vida sem perspectivas. Traficantes e milicianos impõem respeito, é verdade, mas é o respeito do medo, da submissão. Desde cedo, Valéria sentiu que medo e submissão não eram opções para ela.

Criada pela mãe em um ambiente que costuma condenar vidas a jamais cumprirem seu potencial, ela ainda carregava duas características que a sociedade cobra em dobro: é negra e é lésbica.

Conheci Valéria numa sala de entrevistas. Durante sete anos, como ex-aluno da Stanford Graduate School of Business, entrevistei no Rio de Janeiro candidatos ao MBA. Quando meus filhos decidiram tentar vagas por lá, passei a entrevistar candidatos à graduação, para evitar um conflito.

A diferença é grande.

Quem se candidata ao MBA já é formado, provavelmente já fez sua autoanálise e chega filtrado por outras considerações que a maturidade ajuda a ponderar.

Já os candidatos à graduação, entre 17 e 21 anos, formam um espectro largo. Há os que encaram Stanford como o grande desafio de suas vidas, e há os que aparecem ali para cumprir tabela com os pais. O único traço comum é o inglês, com maior ou menor desenvoltura, uma necessidade básica para quem pretende estudar numa universidade americana.

Valéria estava no primeiro grupo – muito além dele, aliás.

Aos 21 anos, é fundadora de uma ONG de ativismo cívico. Fala com entusiasmo de seus planos. Faz cursos de arte. Fala um inglês de fluência inesperada para quem passou apenas 10 dias em Harvard, num prêmio por sua atuação social. Trabalha em serviços públicos de saúde e continua a fazer cursos na área. Exerce uma liderança comunitária natural e já apresentou vários projetos à Prefeitura. Escreve poesia. Enfrenta traficantes e milicianos à sua maneira, defendendo suas posições enquanto contorna as barricadas das ruas onde mora. Fala dos problemas do lugar com um entusiasmo contagiante e quer estudar Urban Problems em Stanford.

Mas Valéria não vai estudar em Stanford. Ela não foi aceita.

Não chega a ser surpresa. A taxa de aceitação da universidade nos cursos de graduação é estimada em torno de 3,5%, segundo dados cuja precisão, é claro, pode sempre ser contestada, mas que dão ideia da dificuldade real a ser enfrentada.

No processo podem pesar vários itens, dentre eles, por exemplo, as notas do ensino médio, a composição desejada para a turma que se seleciona, e uma possível série de outros critérios, objetivos e subjetivos. As vagas são poucas demais para tanta gente boa.

Ainda assim, Valéria foi a candidata que mais me impressionou como entrevistador.

O entusiasmo com que falava de seus planos, somado a uma trajetória concreta, construída à custa de esforço pessoal, deixava evidente o tamanho de seu potencial. Não disse isso a ela, mas sei que suas chances de realizar este potencial numa sociedade como a nossa são baixíssimas. Ela continuará lutando contra a falta permanente de apoio, que exige esforços desproporcionais de quem já começou atrás.

Quantos diamantes não lapidados como ela perdemos todos os dias? Vidas que se apagam no silêncio das esperanças cortadas, cérebros travados no desenvolvimento pela cegueira da nossa indiferença social. Esse desperdício intelectual nós nunca contabilizamos, porque nunca paramos para pensar nele.

E há um paradoxo cruel nisso tudo. Se Valéria tivesse ido para Stanford, talvez nunca voltasse, absorvida por oportunidades muito mais atraentes e menos custosas do que retornar a uma comunidade perdida na Baixada Fluminense. Mas ao ficar aqui, será ignorada por um país que não sabe cuidar do que tem, nem avaliar o que poderia ser.

De um jeito ou de outro perdemos.

 

Carlos Infante de Castro é conselheiro independente, foi CEO e CFO, fez seu MBA em Stanford e uma Fellowship em Harvard.