CAMBRIDGE, Massachusetts – As duas maiores empresas de bebidas do mundo estão sob a liderança de brasileiros, e isso não é coincidência. Henrique Braun assumiu o posto de CEO da Coca-Cola em março, enquanto Michel Doukeris está à frente da Anheuser-Busch InBev desde 2021. 

Os dois recentemente dividiram o palco aqui durante o Brasil Project, o evento em Harvard e no MIT que reuniu algumas das principais cabeças do País para discutir os dilemas e problemas brasileiros.

Os dois CEOs não só compartilharam lições de liderança, como também aprendizados que os ajudaram a chegar no topo – e o Brasil tem muito a ver com isso.

Henrique braun

A volatilidade e a incerteza do País podem afastar investimentos e assustar executivos, mas foi essa “escola” que permitiu a Braun e a Doukeris aprenderem a navegar um setor igualmente volátil, onde as tendências mudam muito rapidamente.

Falando sobre como lidar com as incertezas inerentes ao setor e à economia global, Braun ressaltou a importância de aprender a navegar pelo desconhecido e não se deixar ser consumido por ele. 

“O mundo, não importa se você está em uma startup ou em uma grande empresa, enfrenta uma quantidade incrível de incertezas. Mas eu gosto de dar um passo atrás. Na Coca-Cola, celebramos este ano 140 anos. Há muito conhecimento que não pode ser esquecido, porque grande parte das incertezas que enfrentamos hoje já vivemos antes, e temos a memória muscular de como nos adaptamos e saímos mais fortes.”

Segundo o CEO da Coca-Cola, é preciso “não tirar os olhos” do longo prazo enquanto se lida com as incertezas do curto prazo.

Doukeris, por sua vez, minimizou o impacto das crises e desequilíbrios do mercado, e compartilhou uma visão estóica de liderança. Segundo ele, “quem está há cinco anos no cargo, como eu, já passou por todas as crises nos últimos anos” e “todo ano você faz seu plano sabendo que vai precisar ajustá-lo para algo que está vindo. Você só não sabe o que é, ainda.”

“Resiliência, pela definição do MIT, não é que você não quebra ou não muda. É que você consegue absorver os choques e voltar ao seu estado original,” disse Doukeris.

Questionados sobre os impactos do uso de ferramentas de AI nos negócios, os dois concordam que ela não é um fim em si mesma, mas uma alavanca para ampliar vantagens competitivas já existentes.

“De forma simples, a aplicação de AI pela Coca-Cola é que estamos usando a tecnologia para fazer melhor o que já fazemos de melhor, amplificando nossa vantagem competitiva,” disse Braun.

Ele disse que a empresa já usa AI há quase quatro anos e que as ferramentas estão “na linha de frente” das campanhas publicitárias da marca.

“As duas últimas campanhas de Natal, as maiores para a marca Coca-Cola, foram 100% feitas com AI generativa. Isso nos permite fazer o trabalho criativo com uma fração do custo e muito mais rápido do que fazíamos antes. É um ótimo exemplo de fazer melhor o que fazemos de melhor, que é criar marcas que vão durar no futuro.”

Já Doukeris enfatizou o uso de AI na cadeia de fornecimento da AB InBev, “desde a forma como fazemos hedge de nossas posições financeiras, a forma como compramos insumos para a empresa, até a forma como vendemos produtos aos nossos consumidores.” Com a AI, “se eu sei quanto você vai vender amanhã, já posso planejar melhor a produção e o abastecimento de ontem,” disse.