Nunca antes na história dos EUA um Presidente embaralhou tão explicitamente o público e o privado: com Donald Trump, muitas vezes fica difícil saber se quem está na Casa Branca é o commander in chief ou o “trader in chief”.

Documentos tornados públicos recentemente por exigência federal mostram que Trump executou mais de 3.700 ordens de compra e venda de ações durante o primeiro trimestre do ano – multiplicando por dez o ritmo de operações realizadas nos quatro trimestres do ano passado.

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A lista apresenta as transações em faixas de valor, sem dar os números exatos. As negociações acumuladas no período ficaram entre US$ 220 milhões e US$ 750 milhões, segundo estimativas da Reuters.

Ao contrário de outros presidentes americanos, Trump não abriu mão de aplicar na Bolsa – e colocou dinheiro em companhias cujos resultados futuros dependem em grande medida das decisões tomadas em Washington.

Trump tem na carteira empresas como Microsoft, Oracle, Meta, Goldman Sachs e Bank of America. Em um de seus maiores investimentos recentes, o Presidente – ou melhor, o gestor atuando em seu nome – adquiriu ações da Nvidia, uma empresa que, semanas depois, seria beneficiada por um aval de Trump para ampliação de vendas de chips para a China.

Outras alocações relevantes do portfólio são Apple e Amazon. Segundo o New York Times, dos 17 CEOs que o Presidente levou consigo na recente viagem à China, 15 comandam companhias que entraram na carteira de Trump este ano.

A carteira também carrega posições em diversas empresas do setor de defesa – e fornecedoras-chave das operações bélicas contra o Irã – como Lockheed Martin, General Dynamics e Northrop Grumman.

“Se Trump fosse secretário de Defesa, estaria cometendo um crime,” Richard Painter, assessor de ética da Casa Branca durante o governo George W. Bush, disse à Associated Press. “Tecnicamente ele pode fazer isso, mas é uma quebra fundamental de confiança.”   

Os presidentes americanos não são impedidos de negociar nos mercados financeiros, mas precisam prestar contas das transações. Com relação aos trades de Trump, não houve nenhuma denúncia de uso de insider information.

Os documentos não detalham se Trump ordenou as operações. Mas sabe-se que seus bens pessoais são administrados ativamente por seus filhos, Donald Jr. e Eric.

A declaração de Trump encaminhada ao Office of Government Ethics contém mais de 100 páginas, listando uma média de quase 60 negociações por dia útil. 

A família Trump sustenta que não há nada de errado porque as transações foram feitas por uma gestora que administra o patrimônio do Presidente.

“Nem o Presidente Trump, nem sua família, nem a Trump Organization desempenham qualquer papel na seleção, direção ou aprovação de investimentos específicos,” a porta-voz Kimberly Benza disse em uma nota enviada ao LA Times. “Eles não recebem nenhum aviso prévio sobre atividades de negociação e não têm qualquer influência sobre decisões de investimento ou gestão de portfólio.”

Ainda de acordo com a nota, os “investimentos são administrados de forma independente por instituições financeiras terceirizadas com autoridade única e exclusiva sobre todas as decisões.”

Os bens do Presidente estão sob a administração de um fundo fiduciário (um trust) controlado por seus filhos.

Segundo a Reuters, os formulários divulgados são uma exigência das normas federais de ética, mas fornecem apenas um panorama parcial da atividade financeira de um servidor.

Ficam de fora transações inferiores a US$ 1.000, e não são declarados os valores exatos nem a maneira como os ativos foram adquiridos – se diretamente ou por meio de contas terceirizadas.

A declaração financeira mais abrangente e detalhada do Presidente – incluindo empreendimentos imobiliários, resorts de golfe e criptomoedas – deverá ser divulgada em breve.

Tradicionalmente, os Presidentes dos EUA transferem seus recursos para blind trusts antes de tomar posse. Barack Obama, por exemplo, optou por fundos mútuos.

Em resposta às críticas às transações financeiras de Trump, seu filho Eric postou comentários dizendo que os investimentos são feitos por meio de um blind trust.

“Sugerir que ações individuais estão sendo compradas ou vendidas a critério de qualquer membro da família Trump seria uma mentira,” disse.

O Vice-Presidente JD Vance também saiu em defesa do Presidente, dizendo que Trump “não fica sentado no Salão Oval em frente ao computador, usando sua conta na Robinhood, comprando e vendendo ações. Isso é um absurdo”.

De acordo com o Times, porém, não há indicação de que exista de fato um fundo fiduciário cego, porque isso exigiria que o Presidente não tivesse o menor conhecimento das posições de sua carteira de investimentos.