CABREÚVA (SP) — Nos últimos anos, o mercado passou a acreditar que a Renner havia perdido o brilho, em especial sua receita de crescimento com eficiência – exatamente o que a transformou na queridinha do varejo na Bolsa no passado. 

Fabio Faccio

Para piorar a vida do CEO Fabio Faccio, vieram os juros elevados, o avanço das varejistas chinesas – leia-se a Shein – e o impacto das bets no orçamento das famílias.

Resultado: o retorno sobre o capital investido (ROIC) da companhia caiu nos últimos anos, e os investidores passaram a questionar se a empresa conseguirá voltar aos tempos áureos.

A resposta da Renner começou a aparecer nos últimos dois trimestres – e, segundo Fabio, isto aconteceu justamente por causa do maior investimento de sua história, o centro de distribuição de Cabreúva.

O Brazil Journal visitou o CD no interior de São Paulo, um projeto de R$ 1,3 bilhão que levou quase cinco anos para ficar pronto e que, na visão do CEO, coloca a companhia “pelo menos sete anos à frente da concorrência”.

(Confira os principais trechos da entrevista no vídeo acima)

“Foi um investimento transformacional,” Fabio disse ao Brazil Journal. “Mais do que construir um novo centro de distribuição, mudamos completamente a forma de operar.”

Segundo ele, o centro de distribuição será uma peça fundamental para a companhia entregar o que prometeu no seu Investor Day no fim do ano passado.

Na época, a empresa disse que, até 2030, vai aumentar seu ROIC de 14,7% para 20%; crescer a receita líquida do varejo entre 9% e 13% ao ano; abrir entre 140 e 170 novas lojas Renner e praticamente dobrar a rede da Youcom; e manter investimentos entre 6% e 7,5% da receita ao longo do período.

Para isso, a empresa aposta na eficiência gerada em Cabreúva, e o maior exemplo está na distribuição das roupas pelas lojas da Renner.

Antes do novo CD, a Renner abastecia suas lojas enviando packs de roupas – caixas fechadas com uma proporção fixa de tamanhos. Por exemplo, uma caixa com cinco camisetas brancas de tamanho P, duas M, duas G e uma GG.

Agora, a Renner passou a operar integralmente por SKU, separando cada peça individualmente antes de enviá-la para as lojas.

Na prática, uma unidade em Fortaleza pode receber mais camisetas tamanho P e M, enquanto outra em Porto Alegre recebe uma quantidade maior de G e GG, refletindo o comportamento de compra de cada região.

(Entenda mais sobre o funcionamento de Cabreúva no vídeo acima)

Segundo Alexandre Aires, diretor de supply chain da Renner, esse fator é fundamental para evitar sobras de itens nas lojas e alavanca as vendas com a reposição mais certeira.

“O consumidor não compra um pack, mas compra uma camisa azul tamanho M. Então faz muito mais sentido abastecer as lojas dessa maneira,” disse Alexandre.

O modelo já é utilizado por gigantes globais como Zara, Uniqlo e H&M; a diferença é que Cabreúva foi desenhado para integrar completamente lojas físicas e e-commerce.

A mesma peça pode ser enviada para uma loja ou diretamente para a casa do consumidor, dependendo de quem comprar primeiro.

Segundo Fabio, essa integração mudou completamente a economia do e-commerce – e o tornou tão rentável quanto as vendas offline. “Em alguns casos, até mais,” ele disse.

“Nosso crescimento de margem nos últimos trimestres não veio porque aumentamos preços, mas dos ganhos de eficiência, de menos remarcação, estoques mais enxutos e eliminação de desperdícios,” disse. 

Não por acaso, a companhia registrou recordes de margem bruta nos dois últimos trimestres.

Para Danniela Eiger, analista da XP Investimentos, o CD de Cabreúva sempre foi visto como uma das principais teses da companhia – mas faltava um ingrediente.

“A gente sempre viu o CD como uma alavanca de destrave de margem, desde que também aumentasse as vendas,” disse.

E o management da varejista o enxerga assim, como uma plataforma de crescimento.

Hoje, toda a operação de Renner, YouCom, Camicado e Ashua passa pelo mesmo sistema logístico, aumentando a eficiência de entrega da companhia. Se há uma loja da Renner e da Camicado em um mesmo shopping, por exemplo, as entregas acontecem simultaneamente. 

Esta eficiência também abre espaço para uma eventual nova marca surgir utilizando a infraestrutura já existente – o que ajudaria a alavancar as vendas praticamente desde o dia zero, segundo Fabio.

Por isso, o CEO diz que categorias como athleisure – que tem apresentado um forte crescimento de vendas em empresas como Track&Field e LIVE! – aparecem naturalmente como oportunidades de expansão.

Detalhe: o mercado sempre enxergou esse segmento específico como oportunidade para a Renner comprar uma marca já estabelecida no mercado. 

No entanto, Fabio afirma que a companhia não tem obsessão por aquisições: como a plataforma logística já está pronta, desenvolver uma marca internamente pode gerar mais valor do que adquirir uma operação.

“Uma nova marca entra aqui e imediatamente ganha escala, tecnologia, inteligência artificial e toda a infraestrutura que construímos,” disse.

Outro objetivo do novo CD é ajudar a Renner na concorrência com os chineses. 

O fim da taxa das blusinhas, num movimento eleitoreiro do Governo Federal, foi um golpe no varejo, segundo Fabio.

O executivo critica o tratamento dado às plataformas internacionais e diz que o varejo brasileiro compete em condições bastante diferentes.

“As empresas brasileiras geram empregos, pagam impostos, investem no País e seguem uma série de exigências regulatórias que muitas vezes não recaem sobre os concorrentes internacionais. Por que não baixam os impostos para nós?,” disse. 

Ainda assim, o executivo diz que a estratégia de longo prazo da companhia não foi construída esperando proteção do governo.

“A nossa resposta continua sendo eficiência,” disse. 

A empresa espera utilizar esta eficiência conquistada no varejo para ajudar a compensar a queda na rentabilidade da Realize, a sua financeira, que passou a operar num ambiente com regulação maior e concorrência mais forte, resultando em uma postura mais conservadora na concessão de crédito.

No primeiro tri, o resultado de serviços financeiros da Renner teve uma queda de 2% ante o mesmo período do ano anterior. Já a carteira total caiu 0,6%, para R$ 5,78 bilhões.

“Não temos uma ambição tão forte de crescimento na financeira: é uma operação saudável e importante para o varejo, mas a nossa ambição está no nosso core,” disse. “A Renner não quer ser um banco.”