A farmacêutica AstraZeneca está negociando a compra de sua concorrente americana Bristol-Myers Squibb (BMS), reportou o Financial Times. Os termos e a probabilidade do negócio ocorrer não foram revelados.
A transação criaria uma das maiores farmacêuticas do mundo, com um valor de mercado de quase US$ 400 bilhões e forte presença nos EUA e no Reino Unido – mas os investidores da AstraZeneca não gostaram muito da ideia.
Com o mercado temendo uma “significativa sobreposição nos negócios das empresas” e dificuldades antitruste, a ação da farma britânica recua 7% em Londres. O papel da Bristol-Myers sobe 3% no pré-mercado de Nova York.
Em meio a planos agressivos de crescimento até 2030, a AstraZeneca vem se aproximando do mercado americano.
A empresa – que quer faturar US$ 80 bilhões anuais até a virada da década (vendeu US$ 58,7 bi no ano passado, metade nos EUA) – concluiu em junho a listagem direta de suas ações na NYSE; e agora cruzaria o Atlântico de vez com a compra da BMS.
O problema, segundo analistas, é que a transação só parece boa para a BMS.
Para começar, as sinergias entre os portfólios das empresas não são lá essas coisas, já que as duas empresas têm se destacado e competem na área de medicamentos oncológicos.
Segundo Evan Seigerman, um analista da BMO Capital Markets, isso ocorre com os medicamentos Opdivo, da BMS, e o Imfinzi, da AstraZeneca, que atuam no tratamento do mesmo tipo de câncer de pulmão.
Outro ponto levantado pelo mercado é o momento operacional das empresas, que, segundo o Mizuho, está caminhando em direções opostas.
Enquanto “os lucros da AstraZeneca devem subir 10% ou mais nos próximos cinco anos, os da Bristol-Myers podem diminuir ao longo do restante da década,” disse Jared Holz, um analista de saúde do banco japonês.
As dúvidas sobre a saúde financeira da Bristol-Myers crescem à medida que a empresa se prepara para perder duas de suas grandes patentes: a do Opdivo, já citado, e a do anticoagulante Eliquis. A compra da biotech Celgene por US$ 74 bilhões em 2019 também nunca se pagou.
Ainda assim, a BMS vendeu US$ 13 bilhões no último tri, um recorde, liderado por produtos recém-lançados como o Opdualag (câncer de pele), o Camzyos (coração) e o Breyanzi (câncer no sangue).
Mesmo assim, Holz disse que os investidores da AstraZeneca devem torcer o nariz para a BMS. “A menos que haja sinergias significativas que compensem a queda na receita/lucro [da Astra], essa fusão é difícil de justificar,” disse.
O mercado espera ainda possíveis problemas antitruste caso o negócio avance, à medida que o Reino Unido tenta reter suas empresas e o Governo Trump segue imprevisível. Difícil.
A boa notícia, pelo menos para a AstraZeneca, é que o mercado parece acreditar piamente no potencial de crescimento da empresa e no CEO Pascal Soriot.
Quando assumiu, em 2012, Soriot logo precisou lidar com uma tentativa de aquisição do negócio pela Pfizer. O executivo rejeitou a proposta e posicionou a empresa para investir no segmento oncológico, o que se provou acertado.
Nos últimos anos, a empresa tem trabalhado para ampliar seu portfólio de drogas em desenvolvimento na China; e adquiriu a biotech Alexion por US$ 39 bilhões em 2021.
Agora, se prepara para entrar no mercado de medicamentos para emagrecimento, que virou a indústria de ponta a cabeça nos últimos anos.
A AstraZeneca vale £ 181 bilhões na Bolsa. A BMS vale US$ 133 bilhões.











