O Ministério das Minas e Energia assinou na sexta-feira a renovação da concessão de diversas distribuidoras de energia, incluindo a Light – e implementou mudanças relevantes no contrato que endereçam o maior problema histórico da distribuidora: o alto nível de perdas e inadimplência por conta do crime organizado do Rio de Janeiro.

A renovação – por mais 30 anos – vem quatro meses depois da recomendação da ANEEL neste sentido. 

A principal mudança no contrato da Light é o reconhecimento da existência das ‘áreas de risco’, algo que não existia no contrato anterior. 

Agora, “o furto de energia, perdas não-técnicas, a inadimplência e os indicadores de qualidade serão tratados de forma distinta nessas áreas,” o CEO Alexandre Nogueira disse ao Brazil Journal. “A forma como isso vai acontecer ainda está sendo debatida, mas o reconhecimento disso no contrato já é uma avanço substancial.”

alexandre nogueira

A Light é uma das maiores concessionárias do Brasil, atendendo mais de 4 milhões de unidades consumidoras em 31 municípios do Estado do Rio, incluindo a capital e a região metropolitana. 

A companhia sofre historicamente com índices de perdas e inadimplência que estão entre os maiores do Brasil – em parte porque tem que lidar com o tráfico de drogas e as milícias que dominam parte de sua área de concessão.

Esse furto de energia tornava mais difícil para a Light entregar as metas de perdas e inadimplências estipuladas no contrato de concessão – fazendo com que a empresa tivesse um retorno abaixo do que precisa, tornando o contrato financeiramente insustentável. 

Com o reconhecimento das ‘áreas de risco’ e metas diferentes para essas regiões, a Light agora deve conseguir ter um contrato e uma operação sustentáveis, disse Nogueira. 

Outra mudança positiva, na visão do CEO, é que os investimentos feitos pela companhia passarão a ser reconhecidos anualmente – e não mais ao final de ciclos de cinco anos, como acontecia antes. 

Na prática, haverá um reconhecimento anual dos investimentos, o que vai “viabilizar uma melhora grande nas condições de atendimento e qualidade na nossa área de concessão,” disse Nogueira. 

Por fim, o novo contrato cria a possibilidade de cobrança de tarifas menores nas ‘áreas de risco’ – tarifas que caibam no bolso dos moradores destas áreas, o que deve ajudar a reduzir os furtos e a inadimplência. 

As mudanças vão permitir que a Light – que tem a segunda maior base de ativos do Brasil e a mais depreciada de todas – faça nos próximos cinco anos o maior programa de investimentos em rede de sua história, disse o CEO. “Temos urgência de investir em renovação e modernização da rede.” 

O plano da Light é investir R$ 10 bilhões nos próximos cinco anos (R$ 2 bi por ano, em média), com foco nas áreas onde a concessionária tem os consumidores regulares (ou seja, que não estão inadimplentes).

Para efeito de comparação, a companhia investiu R$ 400 milhões em 2023, R$ 600 milhões em 2024 e R$ 1,3 bi em 2025. 

“Com esses R$ 10 bilhões conseguimos resolver os problemas mais críticos da rede, mas não todos,” disse o CEO. “Os ativos da Light chegaram na exaustão técnica. Os cabos de cobre da rede subterrânea do Rio têm que ser trocados; os cabos da Ilha do Governador precisam ser trocados; a rede que fornece energia para os municípios do Vale do Paraíba são redes incompatíveis com o nível de qualidade que queremos entregar. Tem redes que não são protegidas numa região altamente arborizada.”

A renovação da concessão vem depois de um turnaround robusto na distribuidora, que incluiu mudanças na estrutura de capital e melhorias operacionais. 

A dívida de cerca de R$ 10,8 bilhões já foi reduzida para R$ 4,9 bilhões depois de um processo de recuperação judicial ainda em curso, mas cujo plano já foi aprovado pelos 63 mil credores da companhia. 

A conclusão da renovação vai viabilizar um aumento de capital na Light de até R$ 3,7 bilhões, considerando de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão em dinheiro novo dos acionistas, além da conversão de dívidas em equity. Esse aumento deve acontecer em três meses. 

Após esse processo, o CEO estima que a alavancagem da Light ficará abaixo de 2x EBITDA, podendo cair ainda mais com a expansão do EBITDA.

“A Light será uma empresa nova, focada em fazer os investimentos necessários, buscar a melhoria do atendimento ao consumidor e a sustentabilidade do negócio, com uma alavancagem adequada para todos os seus desafios futuros,” disse o CEO. 

A renovação da concessão só foi possível por conta das melhorias operacionais que a companhia entregou nos últimos anos – um requisito da ANEEL para a renovação antecipada. 

Nogueira disse que a companhia tem entregado diversas melhorias na operação, com foco em indicadores-chave como o tempo médio de atendimento e o número de consumidores interrompidos por mais de 24 horas.

“Reduzimos drasticamente esses indicadores. Em 2022, o tempo médio de atendimento era de 1424 minutos. Em janeiro de 2026, foi de cerca de 500 minutos,” disse o CEO. Já o número de consumidores interrompidos por mais de 24 horas caiu de 18% para menos de 3% hoje.

Em parte, isso foi possível porque a Light internalizou uma parte relevante de seus funcionários, que antes eram terceirizados. Hoje a companhia tem 7,5 mil funcionários próprios, em comparação aos 4 mil de 2022. “E não foi uma internalização desordenada. Estamos formando eletricistas dentro de casa, com a nossa cultura.”