Se um ativo oferecesse retorno anual composto entre 7% e 13%, reduzisse a criminalidade, aumentasse a produtividade e a renda futura, e ainda diminuísse custos sociais e fiscais ao longo do tempo, provavelmente seria tratado como prioridade absoluta por governos e investidores.

Esses percentuais não vêm do mercado financeiro, mas dos estudos de James Heckman, vencedor do Nobel de Economia em 2000, que analisou programas de desenvolvimento infantil acompanhados por décadas nos Estados Unidos.

O mais impressionante, porém, não é o tamanho do retorno. É sua posição na curva.

Heckman demonstrou que investimentos realizados entre 0 e 5 anos produzem os maiores ganhos econômicos e sociais ao longo da vida, frequentemente na faixa de 7% a 13% ao ano em termos compostos.

Já intervenções posteriores apresentam retornos progressivamente menores: programas educacionais na adolescência frequentemente operam próximos de 3% a 5%, enquanto políticas corretivas voltadas apenas para adultos tendem a gerar impacto muito mais baixo e muito mais caro.

A lógica se aproxima muito mais de juros compostos do que de gasto social tradicional.

Habilidades desenvolvidas cedo facilitam o desenvolvimento de novas habilidades depois. Crianças expostas nos primeiros anos a ambientes ricos em linguagem, estabilidade emocional, estímulo intelectual e previsibilidade tendem a aprender mais facilmente ao longo da vida, acumulando vantagens de maneira progressiva.

A conclusão pode soar mais próxima da psicologia ou da pedagogia do que da economia. Mas foi justamente um economista da tradição quantitativa mais rigorosa quem demonstrou isso.

James Heckman construiu sua reputação acadêmica estudando econometria, causalidade, mercado de trabalho e avaliação de políticas públicas. Ao longo de décadas, buscou responder a uma pergunta central da economia moderna: por que alguns indivíduos acumulam vantagem ao longo da vida enquanto outros acumulam desvantagem persistente?

A resposta o levou a um território pouco explorado pela macroeconomia tradicional: a formação humana nos primeiros anos de vida.

O ponto central de sua obra é relativamente simples, embora suas implicações sejam profundas. Capital humano não é formado apenas por escolaridade ou conhecimento técnico. É formado também por habilidades cognitivas e socioemocionais que determinam como um indivíduo aprende, trabalha, coopera, reage à frustração, toma decisões e se adapta ao longo da vida. E essas capacidades começam a ser moldadas muito antes da universidade, do primeiro emprego ou mesmo da alfabetização.

Foi isso que Heckman conseguiu demonstrar empiricamente que os primeiros anos de vida possuem um efeito desproporcional sobre o desenvolvimento futuro porque as habilidades humanas são cumulativas. 

Essa discussão ganha contornos ainda mais relevantes num país como o Brasil, que envelhece antes de enriquecer e cuja janela demográfica começa lentamente a se fechar.

Durante décadas, concentramos nossa discussão econômica em juros, crédito, infraestrutura, carga tributária e produtividade. Tudo isso continua central. Mas a obra de Heckman sugere que parte relevante da produtividade de uma sociedade começa a ser determinada muito antes da vida adulta.

O problema se agrava porque o Brasil historicamente construiu um modelo fortemente orientado à correção tardia. Gastamos centenas de bilhões de reais por ano tentando remediar, na fase adulta, consequências que muitas vezes começaram décadas antes. Apenas a educação básica pública consome mais de R$ 490 bilhões anuais, enquanto a segurança pública supera R$ 120 bilhões por ano. Já os investimentos federais direcionados especificamente à primeira infância – a faixa entre 0 e 6 anos que Heckman identifica como a de maior retorno marginal econômico e social – giraram em torno de R$ 56 bilhões em 2023.

A comparação não pretende diminuir a importância da educação ou da segurança pública. O ponto de Heckman é outro: sociedades frequentemente gastam muito tentando corrigir depois aquilo que poderiam ter desenvolvido de maneira mais eficiente no início. Num país mais velho, cada trabalhador precisará produzir mais. Isso exige exatamente as capacidades que Heckman estudou: adaptabilidade, cognição sofisticada, linguagem, disciplina emocional e capacidade de aprendizado contínuo.

Países que compreenderam isso cedo colheram resultados expressivos. A Coreia do Sul e Singapura entenderam que desenvolvimento econômico dependia da formação deliberada de capital humano. A Finlândia talvez tenha entendido algo ainda mais sofisticado: a escola começa antes da escola.

O mais interessante é que Heckman não contradiz pensadores anteriores. Em certa medida, ele os traduz para a linguagem da economia. O que psicólogos e educadores intuíram durante décadas sobre a importância das experiências precoces, Heckman conseguiu medir empiricamente em produtividade, renda futura e mobilidade social.

A discussão, no entanto, não termina na política pública. Ela entra dentro de casa.

Famílias mais estruturadas não transmitem apenas patrimônio. Transmitem linguagem, previsibilidade, estabilidade emocional, repertório cultural, confiança e capacidade de planejamento.

O aspecto central não é necessariamente o excesso de estímulos sofisticados ou a corrida por credenciais educacionais cada vez mais caras. Em muitos casos, escolas bilíngues e hiperagendas infantis funcionam mais como símbolos de status do que garantia efetiva de formação humana profunda.

A obra de Heckman aponta para algo menos glamouroso, porém mais decisivo: presença, estabilidade emocional, linguagem rica, construção de autonomia e vínculos consistentes durante os primeiros anos de vida. O investimento mais transformador raramente está na sofisticação tardia. Está na qualidade silenciosa da base construída cedo.

Isso ajuda a explicar por que vantagens se acumulam de maneira tão persistente ao longo da vida. Crianças chegam diferentes à escola porque já carregam estruturas cognitivas e emocionais diferentes. Parte importante da desigualdade futura já está silenciosamente em formação antes mesmo do início da vida escolar formal.

Num mundo em que inteligência artificial tende a automatizar o conhecimento técnico e repetitivo, o trabalho de Heckman ganha relevância ainda maior. As capacidades humanas mais valiosas passam a ser justamente aquelas moldadas nos primeiros anos de vida: criatividade, adaptabilidade, linguagem sofisticada, inteligência emocional e capacidade de colaboração.

O maior investimento do Brasil talvez não esteja nos centros financeiros porque o capital entra relativamente tarde no processo. Mercados financiam empresas, estruturam operações, arbitram preços e alocam recursos. Tudo isso é essencial para o crescimento econômico – mas antes do capital financeiro existe o capital humano.

E o futuro de países que precisam combinar produtividade, inovação, estabilidade social e crescimento sustentável dependerá cada vez mais da capacidade de investir na fase correta.

Como Heckman demonstrou, sociedades que chegam tarde demais passam anos tentando corrigir, com custo crescente e retorno decrescente, aquilo que poderiam ter desenvolvido no início.

Pedro Thompson é ex-CEO da Yduqs e membro do conselho do Inteli.