A preparação para a Copa do Mundo já começou – não só para jogadores e torcedores, mas também para técnicos do setor elétrico ao redor do mundo.
Como as pessoas se reúnem para ver as partidas pela televisão em suas casas, bares ou restaurantes, a dinâmica de consumo de energia muda de tal maneira que exige um planejamento especial das autoridades e empresas.
Para evitar blecautes, a rede elétrica precisa garantir que a geração de energia seja igual à demanda a cada segundo – o que já é um desafio diário, mas que durante a Copa envolve emoções adicionais.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) até analisa a tabela de jogos em sua tarefa de programar as usinas que serão acionadas ao longo de cada momento do dia para atender à carga.
“O ONS se prepara porque o futebol é um evento importante para nós brasileiros. E a razão dessa preparação não é nem o volume do consumo propriamente dito, mas a concentração dele,” um ex-diretor-geral do ONS, Luiz Carlos Ciocchi, disse ao Brazil Journal.

Fonte: ONS
Nas partidas do Brasil, principalmente, e em outros jogos importantes envolvendo grandes seleções e disputas decisivas, são milhões de pessoas ligadas no mesmo evento – e com comportamentos similares.
“Quando começa o jogo, está todo mundo com a TV ligada. E, na hora do intervalo, ninguém desliga. Mas as pessoas abrem o freezer da geladeira e ligam o microondas,” disse Ciocchi.
Na Copa do Catar, em 2022, por exemplo, a carga do sistema elétrico no início do jogo entre Brasil e Croácia, em 9 de dezembro, estava 8,5% abaixo do normal, uma vez que muitas empresas fecham e liberam os funcionários para ver a partida.
No intervalo, porém, houve um salto na demanda de 2.000 megawatts em apenas nove minutos, o equivalente a um Estado do Ceará, ou 3% da carga total, segundo dados do ONS.
Ao final do segundo tempo da partida, que foi para a prorrogação, o consumo aumentou 1.400 MW em 10 minutos, quase um Espírito Santo. Antes das cobranças de pênaltis, mais um aumento repentino: 400 MW.
No fim (com derrota da seleção), outra disparada, de 8 mil MW, ou 11% da carga, ao longo de 30 minutos.
Na estreia do Brasil no Catar, com vitória sobre a Sérvia por 2 a 0, o aumento depois do jogo foi ainda maior, de 9,6 mil MW na hora seguinte ao apito final – o equivalente ao consumo de Minas Gerais somado a Goiás.
“Quando o jogo acaba também há uma rampa de carga, porque se o Brasil ganhar você vai comemorar, abrir o freezer pra pegar uma cerveja, fazer mais pipoca. Ou volta pra sua vida normal, vai tomar banho. São características muito interessantes,” disse o sócio da consultoria MWMédio, Mario Daher.
Para atender rapidamente esses picos, o ONS ordena o acionamento de hidrelétricas e termelétricas a gás e óleo diesel, que são as mais flexíveis no sistema.
Mas os donos das usinas precisam ser avisados com antecedência, uma vez que as térmicas, principalmente, exigem uma preparação prévia – às vezes de horas – para poderem responder rapidamente a um chamado para gerar mais energia.
“Fica todo mundo de sobreaviso, a atenção é total. Se você não estiver preparado, pode começar um colapso no sistema que vai se propagando,” disse Daher, um ex-gerente do ONS.
O planejamento especial ocorre também antes de últimos episódios de novelas de sucesso ou durante os Jogos Olímpicos.
Em uma Olimpíada, o ONS já chegou a “tomar um susto” quando um jogo de vôlei da seleção brasileira foi para o tie-break e se estendeu bem além do horário para o qual o sistema havia sido preparado, disse Daher.
Nesta Copa, em especial, muitos jogos ainda ocorrerão no fim da tarde e início da noite pelo fuso horário brasileiro, um momento em que o sistema elétrico deixa de contar com a geração solar, que cresceu muito nos últimos anos.
“Se você tem um jogo do Brasil ou um clássico, uma partida decisiva nesse horário, vai ter um pico justamente na hora em que a solar sai. Vai ser um desafio bom para o ONS, mas acho que o sistema está preparado,” disse Ciocchi.
Na Copa passada, a estratégia envolveu a suspensão temporária de quaisquer intervenções em instalações da rede elétrica, exceto as consideradas inadiáveis, mantendo disponíveis todos os equipamentos de usinas, subestações e linhas de transmissão e distribuição.
Também foram tomadas medidas incluindo manter reservas de capacidade operativa, ajustes em controles automáticos de geração e complementação manual de ações de controle, segundo o ONS, que disse não ter registrado “sobrefrequência ou subfrequência significativa” no sistema durante o mundial de futebol.











