Banqueiros em roadshows para vender papéis de empresas brasileiras a investidores internacionais estão se deparando com dúvidas que dizem muito sobre o Brasil atual.
“What’s cautelar?”, perguntam vários deles, tentando entender a medida judicial que prevê a suspensão da execução de dívidas por um período, e já foi pedida este ano por empresas como Braskem, Oncoclínicas e Lupatech.
Outros investidores querem entender no detalhe a ordem de pagamento dos credores extraconcursais, com e sem garantias em recuperações judiciais e extrajudiciais – e alguns só querem saber por que o Brazilian high-yield market is such a mess.
“A conversa está bem difícil. Nunca tinha visto tanta resistência em 20 anos de mercado,” um executivo de banco que participou de roadshows recentemente disse ao Brazil Journal. “Os investidores estão machucados pelas fraudes e por surpresas como a Raízen, que saiu muito rapidamente de investment grade para uma RE.”
Nada disso paralisou o mercado: as emissões externas somaram US$ 7,7 bilhões no primeiro semestre, abaixo dos US$ 8,4 bilhões do mesmo período de 2025 mas acima dos US$ 6,6 bi emitidos de janeiro a junho de 2024. Os spreads também não se elevaram de forma estrutural.
Mas a barra do investidor subiu.
“O estrangeiro está muito mais diligente, analisando a fundo as estruturas, pedindo garantias. Voltou aos fundamentos, ao manual básico do crédito,” diz outro executivo.
O Brasil nunca teve tantas empresas em recuperação judicial: eram 6,3 mil no fim do primeiro semestre. Só em abril, 141 companhias entraram em RJ, segundo o último dado da Serasa Experian.
Esta semana, a Casas Bahia pediu RJ para reestruturar uma dívida de R$ 17 bilhões.
Fora isso, há passivos gigantescos em REs – como os da Raízen, GPA e Oncoclínicas – e empresas com dívidas impagáveis em busca de uma solução, como a Braskem, que deve cerca de R$ 50 bilhões, 60% disso em bonds.
“Tudo isso deixa o investidor hipersensível a notícias,” disse um desses executivos.
Ele disse que aconselhou uma empresa a não contratar um escritório de advocacia conhecido por atuar em RJs e REs porque isso poderia ser lido pelo mercado como um sinal de que a companhia estaria caminhando para uma cautelar (ou algo pior) e derrubar seus bonds (apesar do balanço saudável).
“Encostar onde já está machucado dói.”











