As exportações do petróleo a partir do Golfo Pérsico já se recuperaram para níveis até um pouco acima de antes da guerra no Oriente Médio.
Então por que o barril do Brent segue acima dos US$ 100?
A pergunta foi colocada pela Goldman Sachs num relatório mostrando dados sobre a recuperação do fluxo de barris.
A resposta, para a equipe do banco, está no maior prêmio de risco no mercado, que ainda não comprou a versão de que o conflito entre Irã e Estados Unidos se encerrará sem novos desdobramentos.
Os iranianos sempre viram o fechamento do Estreito de Ormuz – por onde passa 20% do petróleo do mundo – como sua maior arma. O medo é que, ao perder esse trunfo, eles decidam apelar a ataques contra instalações da indústria de petróleo de países vizinhos.
Este não é o cenário-base da Goldman, mas a projeção do banco é de preços acima do nível pré-guerra por mais tempo, com o Brent recuando para os US$ 85 até o final do ano e US$ 80 em 2027.
“Dito isso, ainda nos preocupamos com uma potencial nova escalada que cause mais danos à infraestrutura de energia, o que poderia gerar um upside significativo para os preços,” escreveram os analistas.
Além dessa preocupação, os estoques globais baixos somam-se a um desejo dos países de recompor suas reservas rapidamente, justamente devido ao temor de novas tensões.
Esses fatores mantêm os preços do Brent “relativamente bem suportados”, mesmo com o fluxo melhorando em Ormuz e em rotas alternativas.
“Achar que o petróleo vai voltar para os US$ 60 agora seria muito otimismo,” Décio Oddone, um ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), disse ao Brazil Journal.

Segundo ele, a indústria petrolífera ainda conseguiu aliviar parte dos impactos do conflito com estoques, novas rotas e até pagando ao Irã ou EUA para poder atravessar Ormuz com seus navios-tanque, “ mas a crise foi para os derivados.”
A guerra danificou refinarias no Oriente Médio, e as embarcações que transportam diesel e outros combustíveis também são menores e mais inflamáveis que os chamados VLCCs (very large crude carriers) de petróleo, tornando mais arriscada sua passagem por Ormuz.
O fluxo de exportações de derivados do Golfo está na metade do patamar registrado em 2025.
Além disso, a China deixou de vender combustíveis ao exterior desde o início do conflito e a Ucrânia passou a atacar o parque de refino da Rússia, que suspendeu suas exportações.
A diferença entre o valor do Brent e o do diesel, o chamado crack spread, atingiu níveis recordes.
“Em 2008 (quando o Brent foi a US$ 147), era uma crise do petróleo. Em 2026, é uma crise dos derivados,” disse John Arnold, o lendário ex-trader de energia da Enron e ex-gestor de fundos.
Oddone, que também já foi executivo da Petrobras e CEO da Enauta e da Brava Energia, vê o estresse na indústria de refino apoiando margens elevadas no setor por algum tempo.
“Hoje você está com o Brent a US$ 100 e o diesel acima de US$ 200. Isso equivaleria, em condições normais de temperatura e pressão, a um Brent de US$ 160, US$180. E essa parte é mais delicada. Quanto tempo você acha que leva para recuperar uma refinaria bombardeada? Não posso acreditar que seja menos de um ano.”
A tendência de que petróleo e diesel sigam em patamares elevados representa um desafio para o Governo brasileiro, que por enquanto tem segurado os preços dos combustíveis no mercado doméstico com subsídios.
Os subsídios do Governo para diesel, gasolina e etanol estão custando atualmente R$ 7 bilhões por mês, sendo R$ 5 bilhões somente para o diesel. Até setembro, a conta acumulada é de R$ 37,5 bilhões.
“O Brasil ainda tem a vantagem de que aumentou a arrecadação com petróleo, devido aos royalties e participações especiais. Mas esse é o melhor uso desse recurso? Para mim não é,” disse Oddone, que estava na ANP na época do subsídio ao diesel do Governo Temer, criado após a greve dos caminhoneiros. A medida ficou em vigor por cerca de sete meses.
“Desconheço um exemplo, em um país consumidor em larga escala, de um esquema de subsídio que tenha perdurado por muito tempo. Mesmo com fundos de estabilização. São medidas emergenciais, para curta duração,” disse Oddone.
O próprio Presidente da República concorda quanto ao ineditismo da situação.
“Talvez seja o único país do mundo que tenha feito isso,” disse Lula no início deste mês, ao comentar sua estratégia de segurar os preços dos combustíveis com recursos públicos.











