É conhecida a frase – muitas vezes verdadeira, aliás – segundo a qual o mercado antecipa os fatos e precifica antes. Ocorre que às vezes se passa o inverso: os fatos estão caindo de maduro, e o mercado continua inerte diante de um preço de tela que deixou de refletir a realidade.
O ativo é avaliado de maneira defasada quase que por inércia, e as distorções se configuram mais claramente a cada trimestre.
O resultado do primeiro tri da LWSA, divulgado ontem, escancara o que talvez seja o exemplo mais evidente em toda a bolsa brasileira sobre esse fenômeno de letargia de valuation.
Um primeiro trimestre do ano, com uma economia morna e um juro real bastante elevado, e a receita líquida consolidada subiu 10% para R$ 362,8 milhões, enquanto o EBITDA ajustado avançou 28,4% para R$ 91 milhões, com margem de 25,1%, uma expansão de 3,6 pontos.
O dado mais importante, porém, não foi só o crescimento. Foi a qualidade desse crescimento.
A receita veio em linha com as projeções, mas a rentabilidade surpreendeu: EBITDA 4% acima da estimativa, lucro líquido ajustado de R$ 54 milhões, 18% acima do esperado, e fluxo de caixa livre de R$ 81 milhões, a melhor geração de caixa de primeiro trimestre da história da companhia.
A tese fica ainda mais forte quando se observa a sequência. No 4T25, a LWSA já havia reportado receita de R$ 381 milhões, alta de 11% ano contra ano, EBITDA ajustado de R$ 97 milhões, alta de 19%, lucro líquido ajustado de R$ 69 milhões, avanço de 61%, e fluxo de caixa livre de R$ 64 milhões.
Nos últimos cinco trimestres, a LWSA entregou crescimento de receita consistentemente acima de 10% ao ano, expansão contínua de margens e uma transformação expressiva na geração de caixa.
Em resumo: não é um trimestre isolado. É uma trajetória. E isso com os juros e o ambiente de mercado jogando contra praticamente o tempo todo.
Quando construímos nossa tese de investimento na LWSA, em meados de 2024, o consenso era majoritariamente crítico à companhia. A narrativa dominante girava em torno dos excessos do ciclo de M&A entre 2019 e 2022 – 16 aquisições em menos de três anos – da compressão de margens e da dificuldade percebida de integrar tantos ativos em um ecossistema coerente.
O mercado havia capitulado: a ação acumulava queda de quase 90% desde o seu pico histórico e poucos investidores institucionais tinham disposição de olhar para além do ruído.
Foi exatamente essa assimetria que nos atraiu.
Temos como fundamento investir em companhias nas quais enxergamos uma distância relevante entre o preço de mercado e o valor intrínseco – especialmente se podemos exercer um papel ativo na aceleração dessa convergência.
Na LWSA, vimos uma empresa com mais de 700 mil PMEs em seu ecossistema, um portfólio integrado de soluções de e-commerce, pagamentos e logística sem par no Brasil, e um management comprometido com a disciplina de capital que havia faltado no ciclo anterior de crescimento.
Hoje com um valor de mercado de cerca de R$ 2,2 bilhões, a LWSA negocia em torno de 7,8x o seu FCF dos últimos doze meses — um FCF yield de 14% em uma empresa de tecnologia com crescimento de duplo dígito, caixa líquido de quase R$ 300 milhões e sem dívida bancária.
Para quem conhece o argumento de soma das partes: o Bling, apenas uma das linhas de negócio da LWSA — ERP para PMEs, com dinâmica comparável à ContaAzul, recentemente adquirida pela norueguesa Visma por múltiplos de 6x a 8x receita — sozinho teria um valor implícito próximo ao atual market cap da companhia.
A LWSA também avançou de forma concreta em sua agenda de AI. Mais do que o discurso — que o mercado já ouviu de praticamente toda empresa de tecnologia — a empresa apresentou casos reais: um orquestrador de agentes proprietário, integração nativa com LLMs de mercado, e uma funcionalidade de storefront personalizado por agentes construída sobre a API da Anthropic, que permite ao lojista publicar uma loja ao vivo a partir de um layout no Figma, sem dependência de desenvolvedor.
A tese da administração nos agrada: o valor da companhia não está na interface — está na infraestrutura operacional do e-commerce brasileiro, que é exatamente a camada sobre a qual agentes de IA precisam operar. Isso posiciona a LWSA não como alvo de disrupção pela IA, mas como habilitadora dela.
Também vale notar a disciplina de alocação de capital. Nos últimos doze meses, a LWSA devolveu R$ 199 milhões aos acionistas – via recompras, dividendos e redução de capital. Somente no primeiro trimestre foram R$ 148,7 milhões.
A continuidade da forte geração de caixa do primeiro trimestre pode levar a uma geração de caixa anual superior a R$ 300 milhões. Esse balanço forte pode criar condições únicas para que a companhia continue crescendo de forma orgânica e, seletivamente, por aquisições que agora se beneficiam da experiência – e das lições – do ciclo anterior.
O papel, portanto, parece precificar o passado, mesmo quando os resultados escancaram o presente e o futuro.
Alexandre Dias é sócio-fundador da São Pedro Capital Investimentos.











