Não é novidade que a renda fixa é um dos poucos segmentos que prosperam no Brasil. Mesmo assim, o crescimento dos ETFs do setor – que acompanham índices formados por títulos públicos – tem sido surpreendente.
O total investido nesses produtos acaba de atingir R$ 51 bilhões – quase seis vezes mais que o AuM de dezembro de 2024, enquanto o patrimônio total de ETFs no País cresceu só duas vezes no período (veja o gráfico abaixo).

Lançados em 2019, os ETFs de renda fixa já têm um patrimônio maior que o dos produtos de renda variável local – que existem desde 2004 e somam R$ 36 bilhões em AuM (incluindo os ETFs de ações no exterior, o patrimônio total em renda variável chega a R$ 55 bilhões).
Os juros altos explicam apenas parte desse crescimento.
Outro fator é a adoção – lenta, mas crescente – do modelo fee-based, em que o assessor financeiro é pago pelo investidor, e não via comissões pela venda de produtos financeiros, que são baixíssimas no caso dos ETFs.
Com isso, mais assessores passaram a informar as vantagens tributárias desses produtos, como o fato de não terem come-cotas nem IOF nos primeiros 30 dias de aplicação, como ocorre nos fundos.

O modelo fee-based beneficia todo o mercado de ETFs – mas, especificamente no caso das carteiras de renda fixa, a maior clareza na tributação também ajudou o segmento.
Até 2024, a principal dúvida era sobre os ETFs de LFTs, títulos públicos que acompanham a variação diária da Selic mas vencem anos à frente.
Naquele ano, a Secretaria do Tesouro Nacional informou que esses produtos deveriam ser classificados como de curto prazo, com uma alíquota de 25% – superior ao imposto máximo de 22,5% pago por quem compra títulos públicos diretamente.
Mas ETFs que investem parte da carteira em papéis prefixados ou atrelados à inflação – com prazo longo, de forma que o prazo médio do produto fique superior a 720 dias – são tributados em apenas 15%.
Com isso, os ETFs que já existiam foram ajustados, e outros foram lançados depois desta maior transparência na regra tributária.
Entre os maiores do mercado estão produtos voltados para investidores institucionais, como fundos que usam esses ETFs para zerar o caixa no dia a dia.
A maioria dos ETFs investe apenas em LFTs e tem a tributação de 25%, “mas eles fazem sucesso pela facilidade operacional,” Ricardo Eleutério, diretor da Bradesco Asset, disse ao Brazil Journal.
O Bradesco gere o BLFT11, o maior ETF de renda fixa do mercado, que é voltado aos institucionais e tem R$ 10 bilhões de patrimônio apenas em LFTs.
A Investo, gestora especializada em ETFs, multiplicou seu AuM – de R$ 1,8 bilhão em janeiro de 2025 para R$ 10 bilhões hoje – apoiada na demanda pelos produtos de renda fixa.
Alessandra Gontijo, sócia da Investo, disse que a procura vem de pessoas físicas, investidores institucionais e empresas que buscam alternativas para aplicar o caixa.
O LFTB11 – o terceiro maior ETF de renda fixa do mercado, com R$ 4 bi de patrimônio – passou a investir 8% da carteira em NTN-B 2060, buscando manter o prazo médio do produto em torno de 760 dias e, assim, a alíquota de 15%.
A XP lançou oito ETFs de renda fixa nos últimos seis meses; eles investem em títulos públicos pós, pré e atrelados à inflação. “Esses produtos sequestraram completamente a atenção dos clientes,” disse Danilo de Souza Gabriel, um portfolio manager da XP Asset.
Segundo ele, a tributação dos fundos exclusivos levou muitos investidores a buscar alternativas com vantagens tributárias, o que também contribuiu para o crescimento dos ETFs de renda fixa.
Dependendo do perfil do investidor, porém, esses produtos podem não valer a pena, disse Roque Sut, o CIO da Setta, uma gestora de patrimônio no Rio.
A taxa de administração média dos ETFs de renda fixa, de cerca 0,25%, é mais alta do que a cobrada por fundos de mesmo perfil voltados para a alta renda. “Mesmo com as vantagens tributárias dos ETFs, os fundos costumam ser mais baratos no caso dos nossos clientes,” diz Sut.
Para ele, se o mercado brasileiro continuar crescendo as taxas podem cair e – quem sabe – se aproximar dos patamares baixíssimos praticados no mercado americano, em torno de 0,03%, o que aumentaria a demanda por esses produtos.
Os gestores também veem interesse dos investidores por ETFs de crédito privado – mas a oferta depende de uma definição sobre como esses produtos serão tributados, em 15% ou 25%. Há uma discussão em curso entre Anbima e Tesouro sobre o assunto.
“Temos um produto pré-operacional, mas só vamos lançar quando houver clareza,” disse Danilo, da XP.






