Pelo nome, pode-se dizer que é um predestinado.
O geólogo Alexandre Rocha da Rocha tem um currículo com diversas descobertas de depósitos minerais – incluindo os primeiros no Brasil das hoje tão cobiçadas terras raras.
Reservas encontradas por ele são exploradas pela Serra Verde, da Denham Capital, que acaba de receber um financiamento do governo americano, e pela Brazilian Rare Earths, que fez um IPO na Bolsa australiana no fim de 2023.
E ainda há mais por vir.
“O Brasil, com certeza, terá muitas áreas (de terras raras). Eu já descobri oito projetos. Tem alguns que não posso falar por enquanto, tem uma empresa que vai ser listada agora. O País tem muito potencial,” Rocha disse ao Brazil Journal.

Na entrevista abaixo, ele comentou os bastidores de suas descobertas, que chegou a oferecer à MMX, de Eike Batista, e à Vale. “Ninguém quis.”
O COMEÇO
Sou geólogo há 43 anos, e sou responsável pela descoberta de 18 depósitos de minerais no Brasil. Mas só fui trabalhar com terras raras depois.
Vieram me procurar por conta do trabalho que eu desenvolvia com outras commodities. Achamos um depósito de cobre no Rio Grande do Sul, em 2007, e a Denham aportou capital para acharmos um outro.
Em 2010, um consultor deles, um austríaco, disse que era pra procurar terras raras. Quando meus diretores pediram isso, eu disse: o que é terras raras? Eu não sabia, e eu sempre fui muito estudioso.
Fui pesquisar e não tinha nada no mundo. Tinha alguma coisa na China, e só. Peguei minha equipe e sentamos pra estudar.
O PRIMEIRO ACHADO
Eu sou autodidata, eu mesmo processo meus dados. Tenho 65 anos, mas trabalho com processamento digital. Então fui lá nos dados do Serviço Geológico Brasileiro (SGB).
Uma coisa muito importante foi a transparência das informações liberadas pelo SGB. Em 2006 foram liberados todos dados, principalmente levantamentos aerogeofísicos, uma revolução.
E o maluco aqui pegou os dados, e começamos a trabalhar.
Tinha uma pesquisa de 1992, de dois professores, Onildo Marini e Nilson Botelho, da Universidade de Brasília (UnB), sobre terras raras e os granitos e estaníferos de Goiás. Era de 1992, e até ali nunca ninguém tinha olhado!
Com base nesse trabalho científico e na interpretação dos dados do SGB, mandamos requerimento para pesquisa de 50 áreas. Tínhamos potencial para o dobro disso, 200 mil hectares. Pedimos para 100 mil. Todas estavam disponíveis!
Escolhi uma área em Goiás, na região de Minaçu, e pegamos um equipamento, o gama-espectrômetro, que faz leitura de urânio, tório e potássio.
Eu achava que era num determinado local. Cheguei lá, nada. Pensei ´Meu Deus do céu, gastei dinheiro, e aí?´.
Depois comecei a andar numa área e o aparelho apitando. Quando chegava dentro do rio, apitava mais ainda.
Eu não tive dúvida. ‘Achamos um depósito de terras raras’.
Eu achava que o minério estava na calha do rio. Mas pegava esse solo, bateava, e a radioatividade estava baixando.
Comecei a fazer amostragem de solos da região e peguei de uma área mais alta, em cima de um granito.
Aí foi descoberto o primeiro depósito do mundo ocidental de terras raras associadas a argilas iônicas. Foi tudo na intuição, não tinha ninguém pra conversar. Primeiro passei por doido.
Para saber se é terra rara, você faz um teste de lixivação. Um consultor nosso fez, e foi confirmado. Eu chorei nesse momento.
Ali virou Serra Verde, um projeto inédito. E veio muita gente visitar na época, vieram chineses, japoneses etc.
AS RECUSAS
Eu falei com o pessoal da MMX na época, ali por 2012, eles estavam no auge. Levei para a Vale. ´Você quer esse projeto?´. Ninguém quis. Mas é porque ninguém sabia (sobre terras raras).
A Denham então comprou a ideia, falou ´vamos investir´.
Só quem estava trabalhando com isso nessa época eram os chineses. Enquanto estávamos descobrindo a primeira jazida do mundo ocidental, eles já estavam produzindo fabricando super imãs a partir do neodímio-praseodímio-disprósio e térbio. Os EUA estão procurando agora.
BRAZILIAN RARE EARTHS
Depois, um colega me apresentou ao pessoal da Brazilian Rare Earths. Eles perguntaram: ´onde tem potencial para terras raras no Brasil?´
Nos juntamos a eles e simplesmente requeremos 50 áreas. Começamos a trabalhar e fizemos 30 furos iniciais. Nos primeiros 28, tudo zero, não deu nada.
Aí começamos a andar numa região lá, na Bahia, e simplesmente o aparelho enlouqueceu. O gama-espectômetro ‘topou´ de leitura. Fizemos o primeiro furo ali e acertamos. Talvez seja uma das jazidas com maior teor do mundo.
Esse projeto continua, foi feito o IPO. Hoje está valendo $1,2 bilhões de dólares australianos. Até deram o nome do projeto de “Rocha da Rocha”.
Ali são terras raras associadas a rochas, com alto teor. Na Serra Verde, são associadas a argilas. São dois filhos meus.
POTENCIAL
O Brasil com certeza deverá ter muito mais áreas. Já descobri oito, e tem muito mais projetos, tem muito potencial.
Mas não adianta só descobrir, tem que verticalizar isso, para que essa riqueza fique no Brasil.
Hoje, o Brasil faz só a primeira parte, pega um carbonato misturado com todas terras raras, uma sopa, e manda para a China. A China vai lá, separa os elementos, os óxidos, depois os metais.
E daí a China produz uma bateria… e já manda para nós o carro elétrico todo.
Se não verticalizarmos, vai acontecer igual com minério de ferro, vamos virar fornecedor de matéria bruta.
Hoje, a China controla isso (terras raras), e os EUA estão querendo controlar. O Brasil precisa participar desse mercado.
Mas precisa ter laboratório. Você tem que entender, entender a mineralogia, a geoquímica das terras raras. Tem que ter equipamentos. Eu mandava minhas amostras pro Canadá, Austrália.











