Ao longo de meus 30 anos de vida profissional, uma pergunta sempre causa desconforto aos jovens candidatos que entrevisto para estágio: “o que você leu, por prazer, nos últimos doze meses?”
Conta-se que, como teste, um escritório londrino pedia a seus candidatos apenas uma coisa: que descrevessem a árvore que viam da janela. Os aprovados a retratavam como “uma árvore frondosa, recoberta de folhas vivamente lilases, entrecortadas de outras brancas como espuma, a reluzirem em diferentes tonalidades conforme a luz”.
Os reprovados a descreviam apenas como “uma árvore muito grande”, ponto final; tornando verdadeira a lição eterna de Wittgenstein de que “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”.
Quem não lê não ouve, não fala, não vê. Observa uma paisagem distante, da janela, em vez de se aproximar do parapeito e contemplá-la por inteiro, sob todos os ângulos, o que é útil na vida e na advocacia.
O candidato que responde “não tenho tido tempo ultimamente para a leitura”, culpando as exigências da faculdade, revela que, podendo escolher o que fazer com suas horas livres, preferiu não se dedicar à atividade mais influente em sua futura profissão.
A advocacia contenciosa a que me dedico é, em essência, a administração de ambiguidades. O contrato diz uma coisa e quis dizer outra; um precedente favorável tem um parágrafo que o adversário lerá melhor do que nós, se o deixarmos. Nada disso se resolve com certezas.
Quando recebo um cliente, uma pergunta é frequente: “quais as minhas chances de vitória?” (Em percentuais, pedem alguns.) A raça humana é sempre apegada às certezas, esquecendo-se de que a própria ciência, ao contrário, prospera justamente na incerteza.
Quem leu Dom Casmurro passa a ler uma petição inicial com a mesma desconfiança que temos de Bentinho e Capitu, com seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Quem leu Guerra e Paz aprendeu que os motivos humanos são complexos, e que a personalidade nada mais é do que a soma de todos os nossos medos, desejos e frustrações — ensinando-nos exatamente como nascem e morrem os litígios.
Quem leu poesia compreende que a ordem das palavras altera o produto – uma rotina na interpretação de decisões que desafiam a compreensão humana, exigindo a capacidade de avaliar o cabimento ou a conveniência de recorrermos ou não.
É comum vermos jovens dizerem: “eu não gosto de falar em público” sem podermos replicar (por mais antipático que seja) que, na verdade, eles não gostam porque não têm nada a dizer.
Não me impressiona o candidato fluente em cinco idiomas, se ele não pensa em nenhum deles.
O que procuro, afinal, é o leitor, esta criatura à beira da extinção, treinada para se questionar ao ler quatrocentas páginas de um caso intrigante.
A resposta à minha pergunta sobre a leitura é a única parte da entrevista em que o candidato deixa de ser um currículo e passa, enfim, a existir diante de mim.
Rodrigo Tannuri é sócio do Tannuri Advogados e mestre em Direito pela Universidade de Columbia.











