Em um mundo cada vez mais fragmentado, Brasil e EUA experimentam sua pior relação diplomática em décadas – e estão jogando fora a possibilidade de criar uma aliança poderosa entre as maiores democracias ocidentais.
É o que pensa o diplomata e professor em Harvard Nicholas Burns, que conversou com o Brazil Journal durante o J. Safra Investment Conference 2026.
Burns – que serviu a seis presidentes americanos, foi embaixador dos EUA na China entre 2021 e 2025 e visita o Brasil desde 1996 – diz que é normal negociar com Beijing, mas gostaria que o País e os EUA fossem mais próximos entre si.
“Somos as duas maiores potências do hemisfério, onde temos problemas em comum [a resolver], e também somos duas democracias, o que é nosso denominador comum mais importante,” disse.
O diplomata acredita que nações democráticas precisam se unir face à articulação de regimes autoritários; e que países como o Brasil precisarão investir cada vez mais em alianças regionais e temáticas para evitar que EUA e China se tornem um “G2”.

Abaixo, os principais trechos da conversa.
Como Brasil e EUA podem melhorar sua relação?
Dois grandes países naturalmente terão diferenças, mas sempre tivemos uma relação pacífica. Vivemos no mesmo hemisfério, somos países multiculturais e democracias, que é o nosso denominador comum mais importante.
Essa relação é muito difícil hoje, talvez a mais difícil em décadas, e precisamos trabalhar para mudá-la, já que temos problemas conjuntos no hemisfério, como cartéis de drogas, terrorismo e a situação da Venezuela.
Do lado americano, não acredito que as tarifas sejam uma política sensata ou eficaz, e se tornaram um obstáculo ao progresso de Brasil e EUA.
Também considero fundamental que um país não interfira na política doméstica do outro; e que os chefes de governo sejam cordiais e respeitosos entre si.
Ao mesmo tempo, os EUA precisam da ajuda e da compreensão do Brasil em questões sensíveis como as da Venezuela e do Irã.
Um exemplo do que podem alcançar trabalhando juntos é o acordo de paz entre Peru e Equador, quando os Presidentes Clinton e FHC ajudaram a resolver uma disputa de fronteira que durava 60 anos.
Os EUA devem continuar atuando como guardiões da paz e promotores da democracia na América do Sul?
Independentemente da opinião que se tenha sobre a captura de Nicolás Maduro, seu governo foi extremamente irresponsável e a Venezuela precisa encontrar um caminho para um futuro democrático.
É importante reconstruir e modernizar a indústria de petróleo em benefício do povo venezuelano, e espero que o governo dos EUA também trabalhe para apoiar um caminho democrático para o país.
Isso quer dizer permitir o retorno dos exilados e dar ao país a possibilidade de eleger seus líderes, ter uma sociedade democrática e viver sob o Estado de Direito.
Será difícil, mas precisamos fazer as duas coisas. Espero que Brasil e EUA possam trabalhar juntos nisso.
E em termos globais?
Hoje temos regimes autoritários como China, Rússia, Irã e Coreia do Norte agindo em conjunto.
Eu sinto falta de uma ordem mundial baseada em regras. Ela nunca foi perfeita, mas aprendemos, depois das décadas de 20 e 30, que precisamos de alguma estrutura internacional. Foi assim que construímos instituições como a ONU e princípios como a proibição de invasões e a defesa das liberdades individuais.
Acredito que precisamos reconstruir essa ordem, mas isso deve ser um projeto internacional, não algo imposto por um único país. Também quero mais livre comércio e livre iniciativa.
Não vejo os EUA como um país isolacionista hoje, mas como um país mais unilateral. Mesmo uma potência precisa de amigos, e para isso é preciso ouvi-los, respeitá-los e trabalhar com eles. Por isso não concordo com a intimidação do Canadá e considero totalmente errado ameaçar invadir um aliado da OTAN como a Dinamarca.
O Brasil se afastou dos EUA e se aproximou da China. Com base em sua experiência em Beijing, é uma boa escolha estar ao lado da China?
Os EUA têm uma grande relação comercial com a China, então não podemos criticar o Brasil por negociar com Beijing. Nós também fazemos isso.
Mas, como americano, eu me preocuparia em ficar próximo demais da China. É um país autoritário, baseado no controle do Partido Comunista, que pode exigir muito mais de seus parceiros do que entrega.
Como Brasil e EUA são os dois países mais poderosos do hemisfério, minha esperança é que tenhamos uma relação mais próxima entre nós.
Que papel você espera que países como o Brasil desempenhem em um mundo de duas potências?
Logo abaixo da China e dos EUA há países como Brasil, Japão, Índia e Rússia, além da União Europeia, que eu chamaria de “superpotências intermediárias”.
A China quer criar um mundo “G2”, no qual ela e os EUA escrevem as regras. Seria um grande erro para os EUA – que sempre tiveram aliados em todo o mundo, como o Brasil – aceitar isso.
A maneira de dar voz às potências intermediárias é manter estruturas como o G20 e formar coalizões específicas para determinados problemas.
Mark Carney está certo ao dizer que o G20 não decide tudo e que, em alguns casos, coalizões ad hoc são necessárias. É aí que países como Brasil podem exercer ainda mais influência.
Como você compara a relação atual entre EUA e China com a Guerra Fria?
Comecei no governo americano em 1979, e meus primeiros dez anos foram os últimos dez da Guerra Fria. Éramos muito preocupados com a guerra nuclear, o comunismo e a divisão da Europa.
A China é muito mais poderosa do que a União Soviética era. A União Soviética tinha armas nucleares e poder espacial, mas uma economia muito menor.
A China tem muito mais poder econômico e alcance global. Pense na iniciativa Belt and Road ou no fato de que brasileiros hoje compram carros chineses – ninguém comprava carros soviéticos.
Do ponto de vista americano, a China é um desafio muito maior. A liderança soviética levou o país ao declínio nas décadas de 60, 70 e 80, enquanto a liderança chinesa teve 40 anos de sucesso econômico.
Dito isso, a relação entre EUA e China está relativamente estável. Os canais de comunicação estão abertos e há uma tentativa de reduzir as tensões. Temos muitas diferenças, mas não podemos lutar em um mundo com armas nucleares.
Os líderes em AI dos EUA dizem que é preciso acelerar porque a China não vai parar. Acredita nisso?
A AI, assim como a biotecnologia e a computação quântica, está principalmente nas mãos de empresas, e precisamos permitir que elas inovem, porque interromper todo o progresso não seria inteligente.
Mas não devemos deixar decisões críticas nas mãos de empresas. Seres humanos precisam controlar tecnologias como armas nucleares e cibernéticas.
Portanto, precisa haver um compromisso entre liberdade e regulação, com cada país definindo o que considera aceitável — e princípios globais para as questões mais críticas.











