A InterCement saiu da UTI.

Após anos sofrendo com dívidas que drenavam seu caixa e paralisavam investimentos, a companhia entrou numa nova fase: trocou o controle, reestruturou passivos bilionários e, depois de muito tempo, voltou a falar de expansão.

“Antes a principal preocupação era caixa, dívida e juros. Hoje a conversa é outra: produtividade, investimento e crescimento,” o CEO Sergio Faifman disse ao Brazil Journal.

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A virada de chave aconteceu este mês, após a InterCement concluir um processo de recuperação judicial iniciado em dezembro de 2024.

A empresa, que chegou a acumular R$ 14,3 bilhões em dívidas, conseguiu converter parte desse valor em ações e alongou seu passivo até 2031 com custo de 6,5% em dólar. Além disso, não precisará desembolsar pagamentos relevantes até 2031.

Resultado: a alavancagem, que superava 5x EBITDA, caiu para um patamar de 3,2x.

Isso não aconteceu sem deixar corpos pelo caminho: a Mover (a antiga Camargo Corrêa) saiu do capital da empresa. 

Agora a InterCement é controlada pela LATCEM, do empresário argentino Marcelo Mindlin, com 39%, e as gestoras Redwood e Moneda Patria, com 25% e 23%, respectivamente. Os 13% restantes estão pulverizados entre diversos bondholders.

Com Mindlin como o novo chairman e um conselho totalmente reformulado, a InterCement tenta recuperar o tempo perdido. 

Segundo o CEO, a empresa precisou adiar investimentos e reduzir a manutenção de suas plantas nos últimos anos, o que impactou diretamente a produtividade.

Das 14 plantas que a InterCement possui no Brasil, quatro estão paralisadas.

Agora, o plano é fazer um catch-up rápido. A companhia projeta um capex entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões para 2027, focando em manutenção e eficiência.

Faifman disse que esses investimentos virão do caixa da companhia, que recebeu um aporte de US$ 110 milhões dos novos acionistas. 

A InterCement – dona das marcas Cauê, Goiás e Zebu – fechou o ano passado com vendas de 8,5 milhões de toneladas e quer chegar a 9 milhões este ano. Segundo o CEO, com ganhos de produtividade nas plantas atuais há espaço para crescer cerca de 10% sem novos investimentos relevantes.

Num horizonte de três a quatro anos, ele diz que o potencial é ainda maior: a empresa estima poder expandir sua produção em 20% a 30%.

“Estamos avaliando se faz mais sentido reativar fábricas ou investir em novas ampliações, sempre olhando produtividade e rentabilidade no longo prazo,” disse Faifman.

Tudo vai depender de como o mercado vai evoluir. Apesar da construção civil estar em um bom momento (ainda que abaixo do nirvana de 2014), a indústria de cimento segue pressionada pelo aumento dos custos de energia e frete.

O coque, um derivado do petróleo que é um dos principais insumos para o cimento, subiu de US$ 70 para US$ 100 nos últimos anos, enquanto o aumento do custo do diesel impacta diretamente no frete, um dos maiores gastos da indústria. 

Segundo o CFO Ricardo Hatschbach, um ex-banqueiro do ABN Amro com passagem por empresas do grupo Cosan, 70% dos custos da cimenteira são variáveis, o que aumenta o desafio da gestão. 

Além disso, o setor terá que lidar com uma mudança regulatória relevante: a substituição dos sacos de 50 kg por embalagens de 25 kg até 2032 – uma iniciativa do governo para diminuir o peso nas costas dos trabalhadores da construção civil. 

A mudança exigirá investimentos adicionais de até R$ 400 milhões só na InterCement.

Outro desafio no curto prazo é a venda da Loma Negra, a líder do mercado argentino de cimentos que a InterCement controla com 52% do capital.

Faifman, que também é CEO da Loma Negra, disse que a expectativa é que o ativo seja vendido no curto prazo. O plano de reestruturação da companhia prevê que 100% dos recursos da venda irão para o pagamento de uma dívida vinculada à operação.

Um dos principais candidatos para a compra é o próprio Mindlin, por meio da LATCEM.

“É muito provável que a venda aconteça rápido, seja o Mindlin o comprador ou um terceiro,” disse o CEO. 

Mesmo com as dívidas equacionadas, o CEO não pensa em fazer aquisições – muito menos da CSN Cimentos, que Benjamin Steinbruch colocou à venda

“É uma aquisição que duplicaria a nossa capacidade atual e nós temos muito desafios dentro da InterCement antes de pensar em um desafio tão importante fora daqui,” disse o CEO.

Hoje a CSN Cimentos é a segunda maior do setor com 21%, atrás apenas da Votorantim, com 35%. A InterCement fecha o pódio com 14%. 

O CFO não se preocupa com uma possível compra do ativo da CSN pelos chineses, que poderiam vir com uma política de preços mais agressiva para ganhar mercado.

“Você vê a China hoje olhar muito para dentro e com uma disciplina de alocação de capital internacionalmente mais rigorosa,” disse Hatschbach.

Faifman, que já tem 20 anos de carreira entre a Loma Negra e a InterCement, disse que sua rotina de trabalho está até mais intensa do que em outro momento, pois “os controladores querem fazer um catch-up rápido da operação.”

“Mas é muito melhor estar pensando onde investir do que de onde tirar caixa para pagar dívida.”