A Índia vai abrir seu setor nuclear aos investimentos privados.

Num discurso neste final de semana – marcando os 80 anos de independência do país do domínio britânico – o primeiro-ministro Narendra Modi prometeu tornar a Índia uma nação desenvolvida até 2047, o que passa pela ambiciosa meta de atingir 100 gigawatts em usinas nucleares em operação.

Narendra Modi

Para se ter uma ideia da ambição: a meta significa um aumento de quase 10 vezes a capacidade atual do país (8,8 GW) e o equivalente a todo o parque hidrelétrico brasileiro, por exemplo. 

Na sexta-feira, véspera do Dia da Independência, o Departamento de Energia Atômica do país colocou em consulta pública um regulamento que permitirá a empresas privadas construir e operar usinas nucleares – até agora um monopólio estatal.

A medida faz parte do “Shanti”, um programa de liberalização do setor que passou pelo Parlamento em dezembro passado (o nome é uma sigla para “Aproveitamento Sustentável e Avanço da Energia Nuclear para a Transformação da Índia”).

“Segurança energética é a demanda de nosso tempo,” Modi disse no sábado. “Com o Shanti aprovado no Parlamento, criamos a estrutura necessária para atingir nossa meta de 100 GW de capacidade em energia nuclear. E queremos colocar em operação cinco novos reatores (ainda) nesta década.” 

Nos últimos 10 anos, a Índia expandiu enormemente sua capacidade de geração renovável com usinas eólicas e solares, mas sua matriz elétrica segue dependente do carvão.

Ao explicar os planos nucleares, Modi citou a crescente demanda associada a tecnologia e AI, além de uma estratégia de “reduzir a dependência de outros países.” 

O país importa quase 90% de seu consumo de petróleo, com boa parte dos barris passando pelo Estreito de Ormuz, que se tornou o centro da guerra promovida por Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Diversos países ao redor do mundo têm retomado os investimentos em energia nuclear após o acidente de Fukushima, no Japão, em 2011, ter paralisado a indústria por anos.

Nos Estados Unidos, a nuclear passou a ser vista como uma fonte de energia limpa para atender à colossal demanda da AI, inclusive com novas tecnologias como pequenos reatores modulares e microrreatores (que também são citados nos planos da Índia). 

Na Europa, a Itália está entre os países que avaliam voltar aos investimentos em energia atômica, apontada como uma saída para a dependência do gás russo depois da Guerra da Ucrânia.

O Brasil adiou uma decisão sobre a conclusão de Angra 3 para depois da eleição, mas pelo menos se juntou a um grupo de 38 países que assinou em março um compromisso internacional para triplicar o uso de energia nuclear até 2050.