Foi uma longa seca.

Agora, depois de mais de uma década sem novos projetos, grandes hidrelétricas estão voltando a atrair investimentos no País.

As usinas hídricas passaram a ser vistas como fundamentais para garantir a segurança energética e evitar blecautes, ganhando espaço nos leilões de capacidade do setor elétrico – que devem contratar volumes significativos nos próximos anos.

Além disso, as hidrelétricas que já estão em operação passaram a ser acionadas com uma frequência acima do comum, principalmente para atender à demanda no final da tarde e início da noite, quando o consumo sobe e a geração solar murcha. 

O novo padrão de operação aproveita a flexibilidade das usinas para produzir mais quando o sistema precisa (e os preços estão mais altos). Isso tem valorizado os ativos hídricos no mercado, embora por outro lado aumente a necessidade de investimentos em manutenção e modernização – num impulso adicional para os fabricantes de equipamentos do setor. 

“Já vivi as fases de fartura e de vacas magras,” Cláudio Trejger, o CEO de Hydro Power da GE Vernova, disse ao Brazil Journal.  “Nós passamos realmente momentos bem difíceis logo após terminarem os grandes projetos estruturantes, como Jirau, Santo Antônio e Belo Monte. Depois começou essa retomada. É como uma parábola: era um setor que estava lá no alto, caiu realmente lá embaixo, e agora está na curva crescente.”

Com longa tradição no País, as hidrelétricas chegaram a responder por mais de 90% da capacidade instalada de geração até os anos 1990, e estiveram no centro dos planos para o setor de energia nos primeiros mandatos de Lula. 

Mas com dificuldades no licenciamento de projetos – que enfrentavam resistência inclusive da Ministra do Meio Ambiente Marina Silva, levando na época à sua saída do Governo – e com a expansão dos parques eólicos e solares, a participação da fonte na matriz foi caindo até chegar aos 47% atuais.

Agora, no leilão de capacidade de março, foram contratadas as expanões de usinas existentes da AXIA Energia, Copel e da chinesa SPIC, num total de 2,5 gigawatts em potência. 

Foi o maior volume em muito tempo, acabando com um vazio de grandes projetos hídricos que vinha desde 2013, quando foram licitadas as concessões de Sinop e São Manoel, no rio Teles Pires.

Os empreendimentos que venceram o leilão de capacidade aproveitam poços vazios deixados nos projetos originais das hidrelétricas no passado para viabilizar expansões com baixo impacto ambiental.

Estudos apontam um potencial para 7,5 GW em capacidade só com a inclusão de máquinas adicionais em usinas antigas, além de 11 GW entre repotenciação e modernização de instalações existentes. 

Governo e empresas também se movimentam para viabilizar as chamadas usinas reversíveis – comuns na China e na Europa – que operam com dois reservatórios e na prática funcionam como uma bateria para o sistema.

A Copel pretende apresentar ainda neste ano 4 GW em projetos, e outros grupos também estão conduzindo estudos de viabilidade. 

“Acho que temos uma sequência grande para a indústria aproveitar, com a oportunidade de ocupar os poços vazios, a vinda das pumped storage (reversíveis) e em paralelo fazendo as modernizações,” disse Trejger, da GE Vernova.

Com uma fábrica em Taubaté, a companhia já trabalha em retrofits das usinas de São Simão (da SPIC), Tucuruí e São Domingos (estas duas da AXIA), enquanto se prepara para mais projetos nos próximos leilões de capacidade. 

A GE Vernova também foi contratada para a modernização tecnológica da hidrelétrica binacional de Itaipu, que era da Eletrobras e depois da privatização ficou com a estatal ENBpar. As obras envolvem um total de 14 anos, com execução gradual, para não atrapalhar o funcionamento da maior usina do País. 

Segundo Trejger, as privatizações do setor nos últimos anos – como da Cesp, Eletrobras e Copel – foram um fator positivo para a indústria, contribuindo para acelerar os investimentos nos ativos antigos.

“Se você olhar a base instalada de hidrelétricas no Brasil, boa parte dela tem mais de 40 anos, então precisam dessas grandes reformas. A AXIA tem um plano de modernização, ela está fazendo algumas e ainda tem plano para outras.”

Já as usinas reversíveis “devem se tornar uma vedete no médio prazo”, e várias empresas estão estudando o tema e sondando fornecedores para desenvolver seus projetos, disse Trejger. “Temos visto um movimento grande”. 

Esse novo momento até acende um alerta sobre a capacidade da indústria de atender todos os clientes se o mercado continuar nessa crescente.

Não é só uma questão de espaço nas fábricas – muitos engenheiros especializados em hidrelétricas migraram para outros segmentos nos últimos anos, quando o setor estava em baixa.

“O recém-formado, ou quem está entrando na faculdade, ele se pergunta: qual profissão está mais em alta? Será que está sexy trabalhar em usinas hidrelétricas? Se o nível de contratação estava baixo, você acaba também não formando os profissionais. Hoje eu acho que é diferente. Voltou a ter um certo apelo, o pessoal está interessado,” disse o executivo da GE Vernova.