Há duas maneiras de ver o balanço do segundo tri do GPA.
O lado positivo: a varejista aumentou a margem pelo segundo trimestre consecutivo, cortou despesas e entregou crescimento do EBITDA.
Mas outros números escancaram o momento conturbado da empresa: as vendas caíram, a geração de caixa permaneceu no vermelho e a dívida líquida efetiva aumentou quase R$ 300 milhões em três meses.
“Em dois trimestres você não resolve todos os problemas de uma companhia,” o CEO Alexandre Santoro disse ao Brazil Journal. “Já fizemos bastante, mas ainda tem muita coisa a ser feita.”
A receita líquida do GPA caiu 9,6% para R$ 4,23 bilhões. Para piorar, as vendas no conceito mesmas lojas recuaram 0,8% depois de terem crescido apenas 0,5% no primeiro tri.
Parte da redução foi deliberada. O GPA encerrou o Aliados, seu canal de venda para pequenos comerciantes, e diminuiu sua exposição às plataformas de terceiros no ecommerce – ambas operações com pouca rentabilidade.
Outra parcela veio dos efeitos da recuperação extrajudicial. Alguns fornecedores reduziram o abastecimento, elevando a ruptura nas lojas e pressionando as vendas principalmente em abril e maio.

Segundo a companhia, em maio o nível de ruptura estava 2,3 pontos percentuais acima do mesmo período do ano passado. Em julho, a diferença havia diminuído para 1,4 ponto.
As vendas, disse Santoro, voltaram a crescer em junho, beneficiadas também pela Copa do Mundo. Dados preliminares mostram que em julho também houve crescimento.
O CEO não estabeleceu um prazo para que as vendas mesmas lojas voltem a crescer de maneira consistente.
“Vamos trabalhar para isso, desde que seja uma venda que traga margem,” disse Santoro. “Venda só por venda não é tão complexo. Queremos crescer com a proposta de valor correta para o consumidor e para a última linha.”
Enquanto as vendas recuaram, as margens surpreenderam positivamente.
O EBITDA ajustado cresceu 7,3% para R$ 450 milhões, superando os R$ 434 milhões da única estimativa disponível no consenso Bloomberg. A margem EBITDA avançou 1,7 ponto percentual para 10,6%.
A margem bruta chegou a 30,5%, 3,1 pontos acima do ano anterior.
Mas esses números ainda não se traduziram em geração de caixa.
A companhia encerrou o tri com um fluxo de caixa livre negativo em R$ 112 milhões. A dívida líquida, por sua vez, aumentou aproximadamente R$ 290 milhões.
O principal problema foi o capital de giro. Em meio à recuperação extrajudicial, fornecedores encurtaram os prazos concedidos ao GPA, obrigando a varejista a pagar mais rapidamente pelas mercadorias.
O saldo de fornecedores caiu R$ 396 milhões no tri, enquanto o prazo médio de pagamento recuou de 52 para 44 dias. Há um ano, eram 56 dias.
A desconsolidação da Stix, a empresa de fidelidade vendida à RD Saúde, também provocou um impacto de aproximadamente R$ 185 milhões entre caixa e capital de giro.
“Eu diria que o pior já passou,” disse o CFO Pedro Albuquerque. “Para o segundo semestre, deveríamos ver uma progressão mês a mês, trimestre a trimestre.”
A expectativa é que a operação apresente uma melhora gradual no segundo semestre, abrindo caminho para uma geração de caixa “bem mais forte” em 2027.
A preservação do caixa também passa pela redução dos investimentos. O capex caiu 55% no primeiro semestre para R$ 162 milhões. A companhia pretende investir entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões no ano e não planeja uma expansão relevante nos próximos dois anos, segundo Santoro.
O plano de eficiência do GPA incluiu as demissões de 3 mil funcionários no último ano, a centralização das compras, renegociação de contratos e o início de uma readequação logística que ainda carregava o tamanho da época dos hipermercados Extra.
A companhia também está revendo uma estrutura de tecnologia considerada cara, regionalizando o sortimento e direcionando os investimentos para melhorar as lojas existentes e a experiência do cliente.
Segundo Santoro, a estratégia ajudou a capturar R$ 244 milhões em eficiências no primeiro semestre, o equivalente a 59% da meta anual de R$ 415 milhões.
“Cada trimestre é um trimestre,” disse Santoro. “Temos que melhorar a venda, melhorar a rentabilidade e, no final, melhorar o caixa. Essa é a grande métrica desse negócio.”
A outra frente é a conclusão da recuperação extrajudicial.
O GPA encerrou junho com uma dívida líquida efetiva de R$ 3,65 bilhões e alavancagem de 3,9x. A empresa também divulgou o número proforma: uma dívida de R$ 1,2 bilhão e alavancagem de 1,3x.
Essa conta simula os efeitos da recuperação extrajudicial e a utilização de R$ 298 milhões da venda da participação na financeira FIC para amortizar parte da dívida.
Segundo o CFO, a dívida pro forma só deverá virar efetiva depois da homologação judicial do plano, esperada até o final de setembro. Uma mudança do juiz responsável pelo processo atrasou a tramitação.











